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Crônicas Aforísticas

Papo de botequim

Papo de botequim

Puta que o pariu! Quando a gente não tem nada pra fazer, procura. Às vezes, o que se acha não é muito agradável, do ponto de vista da satisfação pessoal. Há pessoas que adoram procurar chifres na cabeça de cavalo, outras querem saber quem envernizou a barata ou quem pintou a zebra, nesse caso, eu só quero a sobra da tinta. Um dia desses um infeliz me perguntou se a zebra é branca com listras pretas ou preta com listras brancas. Com destacada solenidade mandei-o à merda. Sinceramente não dá pra aguentar determinadas cavalgaduras.

Quando estou deitado na minha cama procuro não me fixar em lembranças que me levem a perder o sono, até porque não durmo sozinho e poderia de certa forma atrapalhar o descanso da pessoa que está do meu lado, porque a solidão noturna me faria puxar conversa, mesmo com quem estivesse dormindo. Não tenho por hábito perturbar ninguém, nem de propósito, nem espontaneamente. Isso só acontece por medo de fantasmas que ficam me assombrando em momentos de profunda insônia. Numa determinada noite eu queria ouvir a lira de Orfeu – deitar nos seus braços, jamais! Mesmo que quisesse, minha patroa não deixaria alegando ser a vez dela.

Na choça próxima da minha casa, conversava com um canalha amigo exatamente sobre esse tal de Orfeu – ele garante que foi corneado por ele –, e comentei que o indivíduo era poeta e médico, filho da musa Calíope e de Apolo ou Eagro, rei da Trácia. Orfeu foi o poeta mais talentoso da época. A natureza se curvava aos seus pés quando tocava a sua lira; para se ter uma ideia, os animais selvagens perdiam o medo e se aproximavam dos homens, os pássaros paravam de voar (e não caíam) só para escutar as músicas, as árvores curvavam os seus galhos para capturar os sons no vento. Tentei passar para o meu amigo patife que o enredo faz parte da mitologia grega, mas foi perda de tempo.

A choça a qual me refiro chama-se Acaiaca, e foi pra lá que me dirigi naquela noite de insônia. Não é tão choupana assim, mas serve uma birita da boa nas 24 horas de expediente normal. O boteco deveria ser tombado pelo Patrimônio Histórico da cidade do Rio de Janeiro. Pois bem, dei-me ao luxo de procurar sarna pra me coçar. Duas da matina, mandei uma “mardita” pro bucho, uma moela pra variar. O bar Acaiaca chegou a ser apelidado de UTI, ou seja, “Última Tentativa do Indivíduo”. Explico melhor. Se o cara não consegue arranjar uma reles prostituta na noitada, é só se dirigir ao Acaiaca como a última alternativa, porque lá, com certeza, achará alguém para lhe fazer companhia.

O meu destacado nível cultural não me permite conversar com qualquer um; o elevado grau de informações nos torna seletivos por natureza. Daí mamãe sempre me aconselhou a não me misturar com qualquer pessoa, seja por simpatia, necessidade orgânica, seja por piedade, ou por qualquer outro motivo – não revelado. Pensamentos, lembranças do passado tomam conta da nossa mente nos momentos de introspecção, até que um bebum se aproxima e propõe dividir com você alguns segredos guardados de um dia pro outro. Dei trela e me estrepei todo. Mas, coitado, parecia um verme de carne de sol que sobrevive ao sal nordestino. Compaixão, essa é a palavra mágica que nos leva a aplicá-la em situações inusitadas. Deus há de olhar pra mim sempre que rogar por ele. Um bom filho tem a bênção do pai, ainda que celestial.

Ofereci uma dose ao solitário malcheiroso que aceitou sem pestanejar. Jogou metade do copo para o santo sem nome, olhou para mim com cara de desgraçado e ofereceu-se a pagar um torresmo frito anteontem que mais parecia um clitóris de uma anciã. Não me fiz de rogado por conta do espírito cristão construído por familiares que ao longo da vida me extorquiram sem a mínima piedade. Comi terça parte do torresmo entre espasmos intermitentes. Enquanto isso, o cara arrotava sem parar. Entre uma eructação e outra, o fedorento balbuciava perguntas desconexas.

E aí?

E aí tudo bem. Respondia.

Fala aí. Retrucava.

Falar o quê? Vim aqui pra beber e não pra falar.

Eu também, mas, diga alguma coisa. Insistia o pobre coitado.

Você sabia que o nome deste bar, Acaiaca, é também o nome de um município brasileiro, localizado no Estado de Minas Gerais? Perguntei ao alcoolizado companheiro de copo.

Sei não. Não entendo de história. Respondeu ele.

A população da cidade de Acaiaca é de 3.924 habitantes, segundo o censo realizado pelo IBGE no ano de 2010, e hoje deve chegar a 4.200. Completei a informação.

Quantas pessoas, dessas 3.924, são alcoólatras? Perguntou o infeliz.

Sei lá cara! Só sei que o município de Acaiaca está localizado na microrregião nº 188, que faz parte da Mata de Ponte Nova. Acaiaca faz limite com cidades como Mariana, Ponte Nova, Barra Longa, Guaraciaba e Diogo de Vasconcelos. Dei uma de professor.

E daí? Como aqueles malucos irmãos mineiros vivem? Perguntou o bebum.

A cidade vive da pecuária de leite, sua principal fonte de recursos, de modo que as suas pastagens ocupam quase todo o território. Respondi-lhe.

Deve ter muita vaca por lá, inclusive de duas pernas. Comentou aquele decrépito.

O termo Acaiaca é um palíndromo, ou seja, pode ser lido de trás pra frente, da esquerda pra direita, da direita pra esquerda, que o sentido é o mesmo. Ainda não sei até agora porque estiquei tanto aquela conversa.

“Palínmodro” o quê; não entendi nada! Colocou o bafo de onça.

Pois é, soube que a sua irmã está bem profissionalmente. Boa moça, muito competente ela é. A sua irmã fez por merecer a sorte que tem. Mudei logo o rumo da prosa antes que o caldo entornasse.

É verdade. Respondeu entre os dentes.

Qual é mesmo o ramo de atividade dela? Perguntei-lhe.

Trabalha na indústria do entretenimento faz cinco anos. Considerou o amigo bêbado.

Como assim? Perguntou o idiota aqui.

É puta.

Depois dessa, paguei toda a conta e fui embora. Antes tivesse levado a sério os conselhos da minha pobre mãezinha.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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