>
Você está lendo...
Crônicas Aforísticas

Você acredita em vida após a morte?

Você acredita em vida após a morte?

Resolvera ir a pé ao supermercado, coisa que não faço faz algum tempo depois que comprei um novo carro. O conforto da modernidade traz consigo alguns males como preguiça, moleza, falta de vontade, além de outros desconfortos como despesas extras e compromissos formais.  Comprei poucos produtos para que o peso não superasse a minha capacidade em transportá-lo por uma distância aproximada de quinhentos metros até o condomínio onde moro. Poderia ter elegido outras lojas supermercadistas, sobretudo pela oferta de melhores preços, porém, a distância por ser maior me faria diminuir a lista de compras, algo impossível de pensar porque a minha despensa precisaria ser renovada com aqueles artigos de primeira necessidade. Voltava do supermercado com seis sacolas de plástico, ainda distribuídas gratuitamente pelos supermercados do meu bairro, senti-me cansado, por isso, sentei-me no meio-fio depois de ter caminhado a metade do percurso. Olhei atentamente pros lados pra ver se algum assaltante não se aproximava de mim sorrateiramente, como um gato quando quer capturar um pássaro desavisado. Assaltos são fatos comuns que não causam mais espanto entre os mortais, salvo quando acompanhados de violência desmedida, ou quando você percebe que gastou todo o seu dinheiro nas compras, ou quando esqueceu os cartões do banco em casa, que o obriga a inventar desculpas esfarrapadas para o bandido assaltante em pleno exercício do trabalho. Às vezes achamos que Deus nos abandona em situações difíceis, pensava àquela altura. Por quê? Perguntava-me. Não encontrava as respostas. A manteiga já estava derretendo; era um tablete de 200 gramas. Distraído ao arrumá-lo na bolsa, não dei conta que sentara ao meu lado esquerdo um mendigo, também cansado da sua caminhada. Tirei um pacote de biscoitos de dentro de uma das sacolas e dei-lhe pra que o comesse, visto claramente que estava com fome. Aquele mendigo olhou por alguns segundos dentro dos meus olhos e pôs-se a falar:

De onde viemos? Para onde vamos? Na nossa vã filosofia não conseguimos explicar o que para muitos seria inexplicável. Conceituando “vida”, o estado de atividade funcional da matéria orgânica, nada existe depois da morte, além de substâncias em transformação. Quando o homem dorme, as informações armazenadas na sua mente se manifestam através dos sonhos, daí a falsa ilusão de que o espírito sai do corpo. A má interpretação desse conjunto de imagens, ideias, etc, surgidas durante o sono, provoca a construção de mundos metafísicos e acreditamos que deles fazemos parte indissolúvel. Tudo é mente. Talvez assim possamos amenizar a dor da morte, ainda que vivamos e nos comportemos como se a vida carnal fosse eterna. Por prepotência, nos consideramos criação divina, um ser especial, diferentemente das plantas e dos animais irracionais, que também nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Se ao menos pudéssemos fazer uma rápida viagem pro “outro lado” e depois voltar trazendo informações concretas do “abstrato”, poderíamos continuar vivendo com algumas certezas. A atual humanidade, refém de si mesma, tenta descobrir outros mundos, melhores no seu julgamento, mas o universo não tem mostrado indícios, portanto, fiquemos onde estamos. As respostas que tanto buscamos não passam do limiar da nossa compreensão, porque ainda não entendemos o significado da nossa própria existência, da nossa própria vida que duas pessoas nos deram através da concepção em algum tempo predeterminado. Em paz, sigamos os nossos caminhos. Quem sabe lá na frente nos encontremos novamente com novas dúvidas, com novas incertezas, ou talvez com algumas certezas. Estarei aguardando por você!

Aquele homem maltrapilho desaparecera misteriosamente como o éter. Identificar o seu rosto, caso me pedissem, não conseguiria. Ele não comera todo o pacote de biscoitos, deixando na calçada o que dele sobrou; também não fiz questão de pegá-lo para recolhê-lo a uma lixeira próxima. Levantei-me e continuei caminhando normalmente. Tentava me lembrar dos detalhes da sua fala; pensava, pensava, mas as lembranças formavam novos cenários, os pensamentos vagavam, gente que nunca tinha visto antes cruzava o meu caminho de um lado para o outro – rostos aflitos; velhos, moços, crianças. Os animais estavam ausentes. As árvores sem folhas, o descolorido mostrava uma nitidez aterrorizante. Notei que estava fora do rumo, que perdera a noção de tempo e espaço; não sabia onde estava e não adiantava pedir informações; as seis sacolas do supermercado onde fizera as compras não mais as segurava. Tudo era estranho, estava perdido. Uma voz grave eu conseguia ouvir: “Você acredita em vida após a morte?”. Sem que conseguisse responder, uma força misteriosa me conduziu novamente à vida; abri os olhos, olhei o relógio e os ponteiros marcavam 04h30min de uma noite qualquer.

Augusto Avlis

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 152 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: