>
Você está lendo...
Polícia e Segurança Pública

A Lei do crime

Um amigo foi assaltado na porta de casa por três moleques que não passavam de 16 anos. Segundo ele, estavam armados com pistolas automáticas de grosso calibre. Levaram o carro, notebook, celular, documentos e dinheiro. Ainda sob o efeito do trauma, esse meu amigo comentou comigo que perdeu as esperanças de reaver o que foi roubado porque o caso aconteceu faz seis meses e até o momento nenhuma notícia. Sofreu violência e graves ameaças. “Está vivo?”. Perguntou um policial de plantão na delegacia. “Então tente esquecer o episódio, registre o Boletim de Ocorrência e aguarde”, disse o seu colega de farda no dia que o fato ocorreu. Não faz muito tempo, foi em dezembro de 2011. Esse caso é mais um dentre milhares que não chegam ao conhecimento público por meio da imprensa, restrito a um grupo pequeno de pessoas impotentes que simplesmente externam indignação, receio, medo.

Há seis anos eu era colaborador de um jornal de grande circulação e uma das questões que gostava de abordar era sobre Violência e Segurança Pública, porque entendia que poderia chamar a atenção das autoridades, convocar a população para uma profunda reflexão acerca das consequências da violência e da falta de providências por parte dos órgãos que deveriam combatê-la. Coincidentemente, quando o meu amigo me relatou o seu problema eu relia um artigo concernente escrito em meados do mês de novembro de 2.006. Leia abaixo.

Ponto de vista – “Leis mais duras contra o crime?” – jornal A GAZETA, 24/08/2006. As opiniões do Presidente da OAB-ES, Agesandro da Costa Pereira, e do Juiz da 5ª Vara Criminal de Vitória e professor de Direito Penal, Carlos Eduardo Ribeiro Lemos, são pertinentes, embora com efeitos de ressonância singulares. A aguda crise das instituições públicas deixou o cidadão comum incrédulo – prestes a cair num labirinto de incertezas; prenúncio de piores crises. A violência de hoje é neta herdeira da nossa omissão, dos nossos erros passados – inconsertáveis na sua essência.

A sociedade, mergulhada no caos, não sabe para onde correr; os pensamentos são difusos. Haverá solução para a violência no Brasil, que não seja utópica e não fira os princípios da racionalidade? O país precisa de soluções práticas para um problema que se agrava e dá sinais de infindável. Remédios que apenas mitiguem as dores não devem ser prescritos. Não cabe ao povo emitir receituário, tampouco recomendar a aplicabilidade desta ou daquela fórmula manipulada. Só lhe resta se defender dos maus médicos, sob a mira das armas dos bandidos enfermeiros adjuntos.

No Rio de Janeiro eu dormia com o barulho infernal dos tiros dos fuzis e acordava com a forte explosão de granadas. Aqui no Espírito Santo não está muito longe de isso acontecer. Conviver com a violência é uma coisa, outra diferente é ser vítima direta dela. Fato é que a violência urbana determina os valores da vida e da morte, e o seu verdadeiro sentido forma uma encruzilhada, na qual ninguém se predispõe a ficar parado sem correr o risco de levar um tiro na cabeça. São os constantes maus exemplos, sobretudo dados por quem se julga moral, social e hierarquicamente superior, que a raia miúda copia, exigindo tratamento igualitário.

O Juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos, no final do texto opinativo, considera: “Porém, a população, desesperada, totalmente incrédula, pede o irracional (pena de morte), o inconstitucional (prisão perpétua), o absurdo (agravamento de penas, mais rigor na execução) e o aberrante (diminuição da maioridade penal)”. Afirmo que isso é prova da sua agonia, da sua inquietação, da perda de esperança na justiça dos homens – sendo que a única coisa em que pode se agarrar é na providência divina. Como resgatar a dívida social? Como propor a revisão do modelo de segurança e justiça? Como vislumbrar no horizonte um país menos injusto e violento? Tudo isso se constitui sonhos de longo prazo. Até lá, quantas vidas inocentes serão ceifadas? Isto, com certeza, não é mito, nem demagogia. A Lei do crime não tem data de validade. As atividades criminosas devem merecer o tratamento adequado por parte das autoridades, para que não percamos um direito universal: a liberdade. Sou obrigado a me referir às palavras do colunista Arnaldo Jabor: “Quando a máquina da boçalidade se desencadeia, ninguém segura a produção de erros”.

O editorial “Desarmar é preciso” (jornal A GAZETA, 14/11/2006) ratifica a previsibilidade das estatísticas. Em recente visita ao Estado, o Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, declarou orgulhosamente que “está sendo um sucesso a campanha para a retirada de armas de fogo das mãos dos cidadãos de bem”, que continuam de joelhos e pedindo pelo amor de Deus que os bandidos armados não os matem. A campanha nacional de desarmamento produzirá ainda muitas estatísticas comparativas quanto ao número de homicídios. Toda estatística mostra tudo, menos o que a gente quer ver de fato. O “X” da questão continuará escondido. Até crianças entregam suas terríveis e mortais armas de brinquedo em troca de uma plantinha, ou de um pintinho nascido de chocadeira, ao tempo em que essas mesmas crianças, impiedosamente, matam os seus inimigos virtuais em lan houses, enquanto filmes exibidos pelas TVs, em horários nobres, ensinam como fazê-lo.

Thomaz Bastos deveria passar nas favelas para arrancar das mãos das crianças as armas de verdade, colocadas pelos marginais traficantes, assim como o arsenal bélico em poder dos bandidos, a serviço do narcotráfico. É o crime estabelecendo as suas próprias leis.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se aos outros seguidores de 160

%d blogueiros gostam disto: