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Polícia e Segurança Pública

Armas de mentira

Armas de mentira

Um dia desses, ao passar por uma rua que cruza dois dos mais famosos bairros de periferia do Rio de Janeiro, Cordovil e Parada de Lucas (claro que estava na Zona Norte, Zona da Leopoldina, e não tenho nenhuma vergonha em revelar o roteiro, porque minhas origens são de lá), fui ovacionado por uma dezena de pivetes após ter arrebentado a cara de um sujeito que apontava uma pistola Magnum ponto 44 bem no meio dos meus olhos. Vamos deixar uma coisa bem clara, pivete aqui vale pra criança esperta e não para conceituar menino ladrão ou ajudante de ladrão. OK?

Só depois que a taxa de adrenalina caiu, pude perceber que o tal cara não passava do Arnold Schwarzenegger, em destaque num cartaz anunciando um filme que poderia, sem restrições de idade, ser alugado na vídeo locadora, dona do mini out-door quebrado. Puxa vida, fico pensando se isto aconteceu logo comigo, um homem que está na terceira idade, várias vezes vítima da violência, com pavor de andar nas ruas, com medo da própria sombra, estressado e revoltado, com vontade de devorar um eventual agressor com os dentes e, sobretudo, com sede de vingança. O que dizer dessas crianças espertas, que se multiplicam em cada esquina, e que são submetidas a toda sorte de mensagens brutais, carregadas de explícitas cenas de crueldade? Porra! É sangue pra todos os lados. Esmurrei, dei muita bordoada num simples cartaz de papel, porém, senti-me vingado. As crianças espertas, as mesmas que me ovacionaram, saíram comentando: “Você viu só que arma bonita, aquela que estava no cartaz?”, “Quantos tiros ela dá?”, “Eu também queria uma igual!”.

Quando alguém tem a pretensão de me passar um diploma de idiota, um gosto de fel logo toma conta da minha boca. Vi na televisão (bem feito pra mim, já que não tenho esse hábito) a reedição da campanha de desarmamento infantil. Isso mesmo, desarmamento. Para ser mais preciso, trata-se de uma ação promovida por adultos – só podia ser –, fazendo com que as crianças, de “espontânea vontade”, trocassem suas terríveis e mortais armas de plástico por mudas de árvores. Tinha até coronel da Polícia Militar fazendo discurso com cara da vovozinha da Chapeuzinho Vermelho. Esse mesmo colecionador de estrelas sabia que muitas daquelas mudas de árvores jamais iriam ser plantadas. As que fossem não suportariam por muito tempo as pisadas dos cidadãos comuns, que futuramente seriam desarmados pelo governo.

“Hipocrisia pura, nenhum efeito pedagógico a aludida campanha tem”. Quem me disse isso foi uma criança, até porque, o fórum e o público alvo foram mal escolhidos, ou seja, cidade serrana e crianças das classes média e alta. Neste caso, quero que um especialista no assunto me responda: que consequências psicológicas podem advir e prejudicar a formação das crianças que brincam com armas de mentirinha? Perdeu-se um tempo enorme. Sou plenamente favorável que campanhas mais técnicas e planejadas sejam realizadas no âmago das favelas, com o objetivo de arrancar das mãos das crianças de verdade, as armas de verdade, colocadas pelos marginais traficantes, de verdade, cujas autoridades de mentira julgam-nas de mentira. Basta dar uma olhadela nas estatísticas policiais para se constatar a estarrecedora realidade quanto ao número de mortes de crianças provocadas por armas de fogo, de verdade, manejadas por elas próprias, dentro do seu habitat de verdade. A vida, não vivida, passa a ser de mentira; não tem valor nenhum e a menor importância. A Magnum ponto 44 do cartaz também o era, potencialmente assustadora, intimidava quem ousasse usar aquela calçada como passarela – uma cena de verdade, simplesmente comum, num mundo irreal.

As nossas autoridades precisam entender que a implementação de campanhas de desarmamento, com ações eficazes, deve focar, antes de tudo, três pontos básicos: primeiro, dar um cunho de maior seriedade ao assunto, evitando expor crianças ao ridículo; segundo, objetivar a retirada dos arsenais bélicos, que seduzem as crianças, sobretudo faveladas, das mãos dos contingentes de marginais, utilizados principalmente pelo narcotráfico para intimidar policiais e, na paralela, a população; terceiro, coibir o contrabando de armas que passam “livre e despercebidamente” pelas nossas fronteiras.

Parece humor negro, mas, com certeza, não é. Alguém me contou a estória de uma velhinha que todo dia passava por uma dessas barreiras policiais (federais) que existem ao longo das estradas – caça níqueis de caminhoneiros – pilotando a sua moto, transportando na garupa um saco que supostamente trazia roupas ou algo do gênero. Todo dia, infalivelmente as quatro da tarde, ela passava; podia-se marcar no relógio. Certa vez, um jovem policial (tinha que ser logo um jovem policial; claro, vibrador) resolveu parar aquela inocente velhinha – os policiais mais velhos jamais teriam parado aquela velhinha. Velhinha não gosta de dar níqueis. O jovem policial acenou e parou a velhinha, com a moto e com o saco. Indagada sobre o conteúdo do saco, a velhinha respondeu que estava transportando areia para a construção da sua casa. Em respeito aos seus cabelos brancos, o jovem policial permitiu que seguisse viagem sem maiores incômodos. Passados exatos cinco anos, a mesma velhinha, mais velha, lá estava, pilotando a sua moto, com o saco de areia na garupa. Sorte, ou azar, um jovem policial – era outro não aquele de cinco anos atrás porque se acostumara a receber níqueis de caminhoneiros – deu ordem à velhinha para parar e depois de uma hora de averiguações, constatou que a velhinha, mais velha, era, simplesmente, contrabandista de motos. Qualquer semelhança com o contrabando de armas é mera coincidência; podem crer.

Meu pai tinha um SMITH & WESSON, calibre 32, cabo de madrepérola, lindo de morrer. Certa ocasião, isso lá se vão cinquenta e tal anos, vi quando meu pai na sua cidade natal – São João da Barra, norte do Estado do Rio de Janeiro –, no quintal da casa da minha avó, mãe dele, matou, com um tiro certeiro, o maldito do gambá, que vinha comendo as galinhas e os seus ovos como sobremesa. Confesso que nunca tive a curiosidade de pegar naquele revólver, porque tinha o meu, de espoleta, marca Estrela, sonho de qualquer criança, verdadeira réplica daquele usado pelo mocinho Roy Rogers (faz tanto tempo que nem mesmo sei como se escreve o nome dele), que fez sucesso nos filmes e seriados de bangue-bangue da época.  Até adulto gostava de brincar com ele. Eu o emprestava a meu pai. Naquele tempo, brincar de mocinho e bandido era coisa de criança – tinha até índio na parada. Não havia maldade. Os outros garotos, que não gostavam de brincar nem de mocinho, nem de bandido, iam soltar pipas, rodar pião, jogar bolas de gude, enfim, ficavam até em casa estudando se CDF fossem. As meninas da rua, inclusive as minhas irmãs, pulavam amarelinha, brincavam de pique-esconde, de passar anel, de queimada, de pular corda, de casinha, enfim, de cantigas de roda. Jamais passava pela cabeça delas a remota possibilidade de trocar as bonecas de pano pela gravidez precoce. O romantismo da infância acabou; junto com ele, a inocência e a pureza de ser criança de verdade. O tempo apagou esta herança do testamento da vida.

A delinquência infanto-juvenil é, também, estimulada pela carga exacerbada de mensagens subliminares – agora mais explícitas, permitidas e sem censura –, à qual são submetidas as nossas crianças, ininterruptamente, 24 horas por dia. Os veículos de comunicação de massa têm parte da culpa. O erro está justamente na dosagem dos ingredientes que produzem o bolo das informações, independentemente de pré-julgamentos ou justificativas sobre a conquista da “audiência comercial”. São comuns cenas quotidianas de mortes por armas de fogo e armas brancas, atentados, sequestros, acidentes de trânsito, acidentes aéreos e navais, atropelamentos, enforcamentos, bombardeios, perseguições, estupros, ameaças, demolições, explosões, implosões, guerras, revoluções, rebeliões, invasões, roubos, assaltos, tráfico de drogas, banhos de sangue, etc, etc, etc. Tudo isto está ocupando um considerável espaço na mídia televisiva, cinematográfica, radiofônica, impressa e até virtual. Neste contexto, aparece uma “cabra expiatória”: a arma de brinquedo, irremediavelmente letal.

A violência está por toda parte, dentro de casa e fora dela, ao vivo e a cores. A atual geração, refém do seu inconsciente e sob olhares omissos, não consegue discernir, com precisão, a relação entre o bem e o mal, entre o bom e o ruim. A não compreensão do cenário de realidades, sem precedentes, fertiliza a metamorfose de sua personalidade.

Onde estão os verdadeiros valores morais, não ensinados, esquecidos no tempo por aqueles que deveriam perpetuá-los? Os maus exemplos são copiados numa progressão geométrica. A questão colocada antevê as drásticas consequências no condicionamento das crianças. Se estas forem mal orientadas, e abandonadas à própria sorte, provavelmente tornar-se-ão novos bandidos potenciais amanhã! O que leva, de fato, uma criança ou um jovem a cometer um crime? A resposta, clara e objetiva: falência da instituição chamada família, primeiro elo educacional. Os pais, por várias razões, não estão exercendo o seu papel de direito. A falta de religião tem adiantado a reprovação de ambos na escola da vida, sem direito à segunda época.

Revólveres, pistolas, fuzis e metralhadoras de brinquedo estão fora de moda, mas continuam incomodando as autoridades, de verdade. Fato contraposto: as armas que vem fazendo sucesso nas comunidades carentes são a granada defensiva, o lança-foguetes, o lança-chamas, o míssil do Fernandinho Beira-Mar (escondido em algum silo), as supostas armas nucleares, químicas ou biológicas da Coreia do Norte que um dia qualquer serão desativadas pelo Tio Sam, o único imortal do planeta que têm o direito constitucional de possuí-las, e a mais recente arma futurista, ou seja, a nave espacial de guerra interestrelar.

As hordas estão chegando. As leis brasileiras que poderiam intimidar esses bandos de selvagens, de bandidos e desordeiros, e puni-los exemplarmente, são consideradas por eles, verdadeiras “armas de mentira”, manipuladas por bandidos engravatados de verdade.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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