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Política

Polítitica – 21ª Crônica

“Vamos brincar agora na chafurda?”. Perguntou um garoto com as roupas completamente emporcalhadas.

“Eu não vou brincar em nenhum chiqueiro, em nenhuma pocilga, em nenhuma casa imunda”. Respondeu um menino ‘Mauricinho’ tentando convencer os demais – sempre tem um ‘Mauricinho’ em qualquer grupinho; no governo, por exemplo, tem muitos de terno e gravata.

“Ô seu veadinho…”. Um moleque, que passava por perto, quis dar o seu recado.

“Eu não sou veado não, seu engraçadinho!”. Retrucou o Mauricinho.

“Tá bom, seu mamífero ruminante, de porte altivo e muito veloz. O que você acha que fizemos até agora brincando de casinha, senão chafurdar o tempo todo na tentativa de montar a casa Brasil? Vai lá ver. Ainda tem muitas peças espalhadas pelo chão! Além de veado, é babaca”. É, recado dado.

“Vamos deixar isso pra lá e continuar na chafurdice, aqui no quintal, que é o lugar certo, não dentro de casa”. Sugeriu o garoto mais velho, que sinalizava não ter defecado o suficiente.

“Porra! Papai falou que um ex-presidente do Brasil gostava muito de pronunciar essas três palavras, chafurda, chafurdar e chafurdice, sempre que queria se referir aos seus (muitos) adversários políticos, dando a entender que eles revolviam-se e atolavam-se em lamaçal, em imundícies, em vícios e em torpezas. Papai falou também que para sorte nossa ele descoloriu”. Fechou o assunto um menino traquina que usava óculos do tipo fundo de garrafa.

“Não é fácil brincar na lama. Passamos o dia quase inteiro brincando de reformas. À noite vamos ter pesadelos. Também pudera, saímos da sala pro quarto, do quarto pra cozinha, da cozinha pro banheiro, do banheiro pro quintal e não chegamos a lugar algum. Não concluímos nada. Tudo ficou pendente: Reforma de Consciências, Reforma dos Três Poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário), Reforma Política, Reforma das Polícias, Reforma da Previdência, Reforma das Leis Trabalhistas, Reforma Sindical, Reforma Tributária, Reforma Agrária, enfim, fala-se até na Reforma da Rede de Esgotos de Brasília. Fez questão de frisar um garotinho com cara de engenheiro.

Nesse coquetel orgíaco, esquecemo-nos de misturar dois outros ingredientes indispensáveis. Primeiro, “Oligarquia”. Como conviver com ela, pois sabemos que famílias poderosas, de uma forma direta, influenciam o poder constituído e têm ramificações em todos os setores da sociedade? Ninguém, que esteja inserido neste contexto, se apresenta com disponibilidade para abrir mão do poder. Quando se perde poder, subentende-se que ele simplesmente muda de mão. Segundo, “Especulação Financeira”. Falar na especulação financeira externa é total perda de tempo. A interna, a que nós conhecemos, é, no mínimo, imoral. A sociedade sabe que, se correr, o bicho pega, e se ficar, o bicho come. O mais triste dessa história toda é que a sociedade foi trabalhada para se tornar presa fácil dos agiotas legalizados. A instituição chamada Banco nunca lucrou tanto em toda a sua história nestas terras de Cabral. Também, é certo, nunca dependeu de um modelo específico de governo para isso, porque banco é como o camaleão, muda de cor adaptando-se ao ambiente; uma espécie de “vira-casaca”. Como combater a especulação sobre câmbio, fundos, etc, em vista de lucros exagerados; da mesma forma, empréstimo de dinheiro a juros excessivos? A quem interessa a criação de uma nova ordem econômica? Na verdade, eu sei a quem não interessa.

Todos concordam que não se resolvem os problemas cruciais do Brasil com soluções paliativas, mas, com a identificação das suas causas, com coragem, responsabilidade, determinação, boa formação política, com muito trabalho, e, sobretudo, com espírito nacionalista. O futuro governante vai dirigir um país dividido, ideologicamente, e terá uma “oposição vigilante” – não podia ser diferente. Os olhos de milhões de eleitores estarão acordados e observarão atentamente o desempenho dos dois lados. Os Partidos Políticos não formam, infelizmente, uma “unidade nacional”, caso contrário, seriam chamados de “Inteiros Políticos”. Não precisamos de remédios que apenas mitigam as dores.

Neste grande quebra-cabeça que também se tornaram as eleições de 2002, o imediatismo e os fisiologismos tiveram um tratamento particular, ainda que não descartados desta vez pelos candidatos, como se pressupôs. Planejamentos de longo prazo, gestão participativa no sistema de colegiado, nomeação de grupos de decisão, pensar no Brasil sob o ponto de vista estratégico, tudo isso foi, é, e continuará sendo expediente de palanque. Porém, se algo der errado na ordenação das prioridades (tem gente torcendo pra isso), o futuro presidente estará, irremediavelmente, condenado ao isolamento do poder, ao ostracismo, enquanto que sua utópica base de sustentação política já terá trocado de lado.

Pois bem, é demagogia falar em extinção da dívida externa, em melhor distribuição de renda, em melhoria da qualidade de vida da população, em segurança pública, em auto-suficiência e em desenvolvimento sustentável, em soberania nacional, se não encontrarmos as respostas certas e no tempo certo para todos os nossos problemas sociais e, que a partir delas, sejam tomadas as devidas atitudes. Como os políticos não podem mudar o povo, cansado de ver exploradas as suas paixões e boa-fé, este pode mudar os políticos. Tomara.

No final das contas, sempre sobra pra alguém a tarefa de lavar toda a roupa suja, de limpar os cômodos e remover o lixo da casa. Pelo visto, enquanto a política brasileira for considerada úbere – teta de fêmea, especialmente de vaca, onde se mama à vontade –, este trabalho braçal parecerá interminável. “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Ela passou e ninguém viu – se viu, virou as costas. Continuemos: “A minha gente sofrida, despediu-se da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”.

O garoto “Paraíba”, identificado na sala, logo no começo da brincadeira, aquele mesmo que sugeriu a Reforma dos Três Poderes da República, revelou com certo constrangimento o seu nome ao cair numa poça: Luiz Ignácio Laranja da Silva. Não o fez antes por vergonha. Insiste em dar ênfase à letra “g”, sempre que é obrigado a dizer o seu nome em público, o que o torna diferente do seu conterrâneo, do seu xará, recém-eleito Rei do Brasil.

Os “Paraíbas” possivelmente devam ser os primeiros a provocarem uma “mudança geral”, já que o mais renomado deles trabalhará em prol da “mudança pessoal”, inconscientemente. Outros, talvez, prefiram voltar para o Iraque quando abrir uma nova temporada de obras. Posto isso, entendemos que o problema do Brasil pode ser só um, única e exclusivamente, de semântica.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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