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Polícia e Segurança Pública

Cidade proibida

Cidade proibida

A fumaça cheirosa que vinha da padaria anunciava a liberação da segunda fornada. Fui até lá comprar os melhores pães, um pedaço de pão caseiro e quatro caixinhas de creme de leite para o estrogonofe do almoço. Na vota da padaria, comprei o jornal na banca do Antônio. Após o café da manhã, desta vez sem os costumeiros ovos mexidos, fui sentar-me na varanda, agradeci a Deus nos meus pensamentos pela vida, por mais um belo dia que prometia ser. Manchete de primeira página: “Violência muda até o horário de culto em igrejas”. Continua: “Assalto aos fiéis leva alguns templos a antecipar os cultos da noite”. Hoje é domingo, 3 de junho de 2012. Ontem completou 10 anos da morte do jornalista Tim Lopes, repórter e produtor da Rede Globo. Daqui a 90 dias fará também 10 anos a matéria “Cidade proibida”. Escrita por mim debaixo da parreira do quintal da minha casa no Rio de Janeiro. Procuro ordenar as ideias tentando encontrar motivos para tanta violência que ao longo do tempo vem vitimando a sociedade do bem. Como o texto, escrito praticamente há 10 anos, está tão atual; uma vez retirados alguns detalhes diríamos que é matéria nova. Mudar o nome da cidade não alteraria o seu conteúdo. É este o texto:

SOCORRO, SOCORROOOO! Podem gritar à vontade; ninguém correrá para ajudá-los.

“Os lugares do Rio de Janeiro que o carioca perdeu para a violência”. Matéria do jornal O Globo, edição de domingo, 01 de setembro de 2002. Mas este jornal não ficou velho. O mês começa bem. Se bem que, para o carioca, essa questão de bem ou mal não o deixa menos bom (pior) ou mais mau (ruim). Como todo jogador de peladas que se preze, ele tenta driblar a má sorte e, para o azar, tem preparado um despacho pedido pelo seu guia protetor, através do pai-de-santo. A Casa Grande está preparada e o terreiro limpo com a salga de praxe.

Tem muita gente se lixando para a violência no Rio. Eu até entendo. Quando se é vítima da violência por mais de uma dezena de vezes, como eu, a pessoa fica hipnotizada, neutralizada. Passa a achar normais os noticiários sangrentos dos jornais. Fotos revelando vísceras não impressionam como antigamente. A ordem do dia é ficar frio, como o bandido, indolor, insensível. Não vejo saída para o problema da violência no Rio de Janeiro em médio prazo. A “seca do nordeste” já serviu como plataforma política, agora, a bola da vez é a violência. Se eleito for, eu juro…

Estamos vivendo sob a égide do medo. O caos urbano se transformou numa guerra civil não declarada, com a rendição incondicional das forças de defesa. Só está faltando os bandidos roubarem o cadastro da Light e passarem a cobrar de porta em porta uma taxa mensal de “livre trânsito”, como forma de baratear os seus custos operacionais. O varejo do roubo está se tornando caro.

“Menores assaltaram arquiteta no Arpoador”. Na quase totalidade dos casos, o delinquente mais jovem comete seus crimes totalmente drogado para tomar coragem, aumentando o perigo ao qual é submetida a vítima. Qualquer descuido é fatal. Os malandros mais velhos, mais escolados com a criminalidade, os chamados “malandros Coca-Cola” ficam espantados com a ousadia dos parceiros mais jovens, dispostos a apertar o gatilho num piscar de olhos. Por outro lado, o Estatuto da Criança e do Adolescente aparece nesse contexto como um divisor de águas. Tem criminoso infanto-juvenil, que nunca pisou numa escola, mas diz conhecer os seus direitos – ameaça denunciar o pai toda vez que este lhe dá um cascudo. Quanto à mãe, há muito não é respeitada. As penas para esses pequenos marginais deveriam ser mais pesadas e o destino da FEBEM repensado. A situação só tende a piorar, na medida em que se discute a possibilidade do governo federal acabar com a obrigatoriedade do serviço militar, tornando-o facultativo, segundo os ventos que sopram do Centro-Oeste – acho até que esta decisão não vai demorar muito. No estágio de evolução que se encontra a atual geração, entendo que deveria ser exatamente o contrário, ou seja, mantém-se a obrigatoriedade do serviço militar, mas, com o aumento significativo do tempo de serviço; no mínimo, o dobro. “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante, e o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pátria nesse instante”.

A violência já faz parte do cardápio diário dos cariocas. Não há o que discutir. Especialistas na matéria creditam o narcotráfico como o principal responsável por ela. Para uma piada, ainda há espaço. Um demente, com mente brilhante, uma vez sugeriu que os governos taxassem o tráfico de drogas, ou seja, lançassem imposto sobre a atividade mercantil, assim como fazem com qualquer empresa comercial legalizada. Para fugirem dos tributos, provavelmente os traficantes criem um “caixa dois”, soneguem impostos, promovam falência fraudulenta, se tornem pastores do Apocalipse, entrem na vida pública como políticos corruptos, se tornem fiscais da receita, façam filantropia, enfim, mudem de ramo, ou coisa do gênero.

Falar em violência dá IBOPE, aumenta os níveis de audiência, chama atenção. Sexo e dinheiro também. Freud discorreu sobre isso. Não sei se falar de flores, de amores, de paz, de cultura, de universo intergalático, de ETs, de médicos que salvam vidas – e seus rostos continuam no anonimato –, de professores que ganham pouco, tenha assim tanta importância. Os bandidos, narcisistas como qualquer ser humano, gostam de se expor na mídia: “Olha nós aí de novo na fita! Falô malandragem?”.

Pra que correr no meio do mato à noite só para ver os pirilampos? Já estão mesmo em extinção, o que diminui a possibilidade e o prazer em vê-los. É melhor ficar olhando os faróis dos carros que passam, além de serem os responsáveis pela sua matança (dos pirilampos), são maiores e, certamente, mais brilhantes. Outros insetos noturnos, os morcegos e os vampiros (mais famosos atores de TV na atualidade) também incomodam bastante. O melhor mesmo é ficar em casa comendo pipoca, assistindo a reprise da reprise dos filmes da Globo. Puta que o pariu duas vezes; tem gente que gosta! Sexo, só quando um dos dois viaja pra bem longe.

Pra que fazer Cooper, se dar trezentas voltas “confinadas” numa varanda de dez metros lineares resolve o problema? Pra que ver o pôr-do-sol se o importante é vê-lo nascer? Pra que andar de bicicleta se podemos sujar as canelas de graxa? Pra que, curiosos mortais, temos que ter o prazer da contemplação? Acho mesmo que ninguém deveria ter direito de acesso aos espaços públicos. Restringi-los seria a melhor solução. Quanto maior o espaço, mais aumenta a vontade de caminhar e o que é pior, aumenta o nosso cansaço. Na verdade, cartões postais da cidade e recantos bonitos têm que ser vistos em fitas de vídeo e agora já disponíveis em DVD – vivos e a cores não dá mais. A água do mar, por exemplo, deve ser guardada numa garrafa e colocada na estante da sala. Achando bem, é melhor não fazer isto porque ela está poluída. Para respirar ar puro, ou quase, basta fechar a porta do banheiro. Quanto aos pássaros, estes podem ser comprados devidamente empalhados numa casa de souvenir e, se alguém for pego, é só soltar uma grana.

Essa é boa: “Até os cemitérios estão se tornando territórios proibidos. Defunto é abandonado na capela e velado à luz do dia”. Daqui a pouco, terá de ir sozinho para a cova. Aproveitei a brecha e consultei o Eremildo, o Idiota, aquele que acredita em tudo que as pessoas dizem, mas ele me garantiu que as duas ideias que se seguem são dele. Segundo ele, o Idiota, o Presidente da República (este não é idiota) deveria transferir novamente a capital do Brasil para o Rio de Janeiro. Isso mesmo, fazer daqui o que foi, há tempos, o Distrito Federal. Sendo, portanto, o maior habitat natural de políticos bandidos, e ladrões, provavelmente dedicariam mais recursos para o combate à criminalidade, ou entrariam num acordo com os marginais, caso as verbas públicas não fossem liberadas para a satisfação dos dois lados. A segunda grande ideia do Eremildo, que não se mostrou tão idiota assim, é transformar o Rio de Janeiro, mediante decreto municipal, ou melhor, federal, em uma grande colônia de nudismo. O simples fato de andar nu aumenta a segurança do cidadão, porque não tendo nada a exibir como roupas, jóias, celulares, pastas, carteiras, etc, etc, não será molestado pelos ladrões. Nunca. Ladrões não gostam de contrabandear órgãos genitais vivos.

O Rio de Janeiro será sempre a “Cidade Maravilhosa”, cheia de encantos mil. Muito embora adormeça com o som dos disparos dos fuzis e acorde com o das metralhadoras. A lei do silêncio não é respeitada, salvo aquela que obriga o cidadão comum a se calar diante das ameaças de vingança por parte dos marginais comuns. Eternamente “Cidade Maravilhosa”, dos 2 milhões de favelados excluídos pela sociedade do bem e dos 8 milhões de pessoas em eterno pânico – rostos deformados pelo medo. Longe de esboçar uma visão apocalíptica, o Rio de Janeiro transformar-se-á num grande deserto, a persistir o estado de agressão aos nossos direitos constitucionais. Talvez eu encarne o espírito do pintor Guido Poianas, morto em 1983. Retratou paisagens urbanas, cheias de luz, vazias de gente. No seu quadro, intitulado “Primeiro de Maio”, vê-se, numa enorme rua, apenas cinco pessoas, três das quais esperando o ônibus. Segundo Poianas, o pessoal já tinha ido para casa e deveria estar almoçando. Inspirado pelo mestre, eu proponho uma tela com qualquer paisagem do Rio, qualquer uma. Nela, as pessoas também estarão ausentes, mas só que em casa, trabalhando por correspondência ou roendo as unhas. O lazer, banido para sempre das nossas vidas, não poderia ser retratado, jamais.

A violência está impondo limites de território aos cariocas. Porém, na prática, não é bem assim que funciona. A total insegurança e o sentimento de impotência roubaram a nossa tranquilidade em todos os recantos da cidade, sejam quais forem. Por isso, a demarcação de território, entre o bem e o mal, não existe. Não há lugar seguro para o cidadão. A cidade tem desigualdades de direitos e deveres nas classes sociais. Mas, todos nós somos iguais perante as leis e temos que responder pelos nossos atos. O que impera é a corrosão do Estado de Direito. A bússola, que nos guia e norteia para a linha do respeito mútuo, quebrou. No convívio entre aqueles que se julgam normais, que formam a sociedade organizada, também se nota uma falta de educação generalizada. É comum cruzarmos no trânsito com carros que colocam o som no volume máximo, numa altura infernal. Todo o quarteirão, num raio de cem metros, ouve perfeitamente o lixo musical que é exibido, num perfeito banquete de exaltação à violência e ao uso de drogas. Para nossa tristeza, a violência se manifesta de várias formas e facetas, como o Diabo. É imperativa a mudança de hábitos, urge o resgate de antigos valores, antes que seja tarde demais. Que Deus nos acuda!

Vamos continuar com essa guerra desigual por longo tempo. O cidadão de bem não pode lutar de igual para igual com os bandidos. Se for pego com uma arma na mão, responderá processo criminal inafiançável. Restam-lhe, apenas, o instinto de sobrevivência e o reflexo – embora que tardio – de ajoelhar-se e pedir pelo amor de Deus para que não o matem.

A rotina do medo faz alterar as nossas rotas e transforma radicalmente as nossas vidas, mas não diminui a intensidade da dor que sentimos ao vermos corroído o mais sagrado dos nossos direitos: a liberdade. Este pesadelo, aos poucos, está matando a minha vontade de viver por aqui, no meu Rio de Janeiro, minha cidade natal, berço dos meus sonhos. Fugir para qualquer outra cidade do país não me trará paz; vou encontrar os mesmos cenários de insegurança. Sempre gostei de manter contato com pessoas, por isso, estou relutando comprar uma passagem para Marte. Com pena de mim, tem gente me convidando para morar em Theobroma – espero não encontrar pistoleiros lá em Rondônia, cruzando os meus caminhos como aqui.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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