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Polícia e Segurança Pública

Escudos de defesa

Escudos de defesa

Fatos horrendos preencheram as páginas dos jornais cariocas no ano de 2002. A morte do repórter da Rede Globo, Tim Lopes, no dia 2 de junho daquele mesmo ano, foi um dos acontecimentos marcantes. A violência exacerbada, com a marca Made in Brazil, mexeu tremendamente com a opinião pública, despertou consciências, e nos obrigou a repensar sobre o nosso papel de cidadão. De lá pra cá pouca coisa mudou com relação à segurança pública, e muita coisa fez recrudescer o crime organizado. Dez anos depois, em pleno exercício de 2012, continuamos reeditando noticiários semelhantes, com novos ingredientes, com novos personagens, com novas metodologias de atuação, com novas tecnologias. Na leitura abaixo, compare os fatos de hoje, de seu conhecimento, e veja se não tenho razão.

Numa terça-feira, 27 de agosto de 2002 eu escrevi:

Forte perplexidade tomou conta dos brasileiros após matéria do Fantástico, domingo, 25 de agosto de 2002, dando conta do envolvimento de policiais militares com o traficante Vado, da favela do Jacarezinho, aqui no Rio de Janeiro. Gravações feitas antes da morte de Vado revelaram, com clareza, a torpe cobrança de propina pelos homens da lei como se fosse “aluguel da paz” e taxa para a renovação do alvará que concede licença para a livre comercialização de drogas na favela.

A TV Globo, cumprindo o seu papel social, mostra, num jornalismo verdadeiro, a outra face do crime. Matérias com o cunho de denúncias chocam, mas também são responsáveis por mostrar as causas da violência e não apenas fazer audiência com os seus efeitos. O episódio de anteontem convoca a população, amedrontada e sob a lei do silêncio, para uma profunda reflexão sobre o problema da segurança pública no país. A “banda podre” da polícia pode ser bem maior do que se propaga.

A corrupção fardada é antiga. Tomou corpo agora com a tecnologia da informação e com o aumento dos níveis de cobrança por parte daqueles que se sentem vítimas, de alguma forma, da criminalidade. Ligações perigosas entre policiais e bandidos de longe podem ser consideradas “relações amistosas”, até porque na remota suspeita de um dos lados quebrar o pacto, a morte do infrator ronda como inevitável. A bandeira da vingança se mantém hasteada. Vado teria sido assassinado porque não aceitou o aumento do aluguel antes do vencimento do contrato? Só ele, Vado, seria capaz de responder a esta pergunta – levou a verdade para a cova. Quem ficou vivo se cala. Para o policial corrupto, manter o marginal solto é mais vantajoso; rende lucros, vez que é estimulado pelo primeiro a permanecer no mundo do crime e parte do seu fruto – produto de roubo, furto, venda de drogas, corrupção, etc – entra como complementação do salário daquele representante da lei pago oficialmente pelo Estado. Ambos fazem parte do submundo do crime; status quo inquestionável. Se o policial-bandido, achando-se imune à atribuição de culpabilidade, pode agir livremente, obrigando o marginal-réu a repetir a dose dos crimes e outras infrações enquanto viva, e este, sente-se seguro porque vê uma proteção infinita no primeiro.

É hipocrisia de o sistema reinante achar que a violência e a criminalidade podem ser combatidas com o fim da pobreza e com a conquista da igualdade social. Enganam-se aqueles que querem construir novas penitenciárias com segurança máxima, porque vão continuar lotadas e custeadas com o dinheiro público. Antes de tudo, urge uma “limpeza” nas polícias, sim, para que o joio seja separado do trigo. Vamos chamar isto de saneamento ético, para que a credibilidade nas instituições de repressão volte a fazer parte do nosso cotidiano. O cidadão não pode sentir mais medo da polícia do que do bandido.

Em paralelo, o acesso aos quadros das polícias federal, militar e civil precisa ser revisto com mais rigor, para que não ouçamos mais declarações do tipo “Vou entrar na polícia porque poderei andar armado e ninguém vai me perturbar”. Talvez por falta de qualificação para o mercado de trabalho convencional, o jovem, com instinto ruim, ainda adormecido, ingressa na polícia e se sente “o todo poderoso” e acima da lei. Presa fácil das ações criminosas. A impunidade entra como outro tempero explosivo. A partir daí tudo fica mais fácil. Apertar o gatilho também.

Se formos levantar a redoma que cobre esta questão, seremos diretamente surpreendidos por outros fatos marcantes que, infelizmente, nem sequer figuraram ou venham a fazer parte integrante das peças de processos. Quando resgatados, quantos carros não são “depenados” nas portas de delegacias? Geralmente, nos roubos a bancos, tem sempre algum ladrão fugindo com o saco do dinheiro e não é capturado, evapora; não é verdade? Sem contar que ninguém foi subornado por policiais seja no trânsito ou na estrada; não é mesmo? Não estou generalizando, diga-se de passagem, mesmo porque não tenho por costume tornar geral um conceito particular. A sociedade brasileira, vítima em maior escala, saberá julgar os fatos.

O tema é por demais complexo. Uma sociedade não é só feita por homens e livros. Também é, essencialmente, por justiça. Justiça essa, objeto de escárnio por parte de alguns céticos, que a julgam arcaica, lenta e que existe para condenar pobres e negros, soltar criminosos e prender inocentes. Aqui, também cabe uma revisão no âmago dos seus processos. E que seja urgente. Os “homens da capa preta”, em grande contingente, têm corroborado para a construção desse conceito e não se preocupam com isso, muito pelo contrário, continuam assim agindo, na contramão do Estado Democrático de Direito.

Por quanto tempo mais seremos obrigados a ouvir da boca de um policial coisas como esta? “O comando cobra. A sociedade cobra. Alguma coisa tem que ser feita para a satisfação de todos. Prendemos alguns filhos-de-papai e apreendemos alguma droga. Oitenta por cento do tráfico correm normal e livremente”. Sabemos que essa mesma droga apreendida volta a circular no meio, por duas vias ilegais: primeira, é renegociada pelos próprios policiais com os traficantes ou com consumidores dependentes dispostos a pagar mais caro por ela; segunda, vai servir como “prova plantada” para incriminar novas vítimas inocentes. O ciclo se reinicia.

A imprensa vem exercendo um importante papel investigativo para a elucidação de importantes casos, desvendando fatos e sistemas escusos, mesmo que para isso os seus profissionais tenham que correr constantemente riscos de morte, tenham que se expor a situações de perigo, porém, a missão de informar, o compromisso com a verdade e o respeito à sociedade, são particularidades que os motivam na caminhada. Tim Lopes é um exemplo para a imprensa internacional.

Marginais profissionais usam como armas de intimidação fuzil AR-15, escopetas, pistolas automáticas, granadas, mísseis e os próprios becos e labirintos das favelas, enquanto que seus pares, os policiais corruptos, usam farda e distintivos como escudos de defesa.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

2 comentários sobre “Escudos de defesa

  1. Caro amigo, com certeza essa que você está tocando com uma grande dose de coragem é a maior ferida da sociedade. Fico imaginando o que seria da “justiça” se não existissem os jornalistas que como você mesmo cita, colocam suas vidas em risco para mostrar a verdade e os bastidores desse mecanismo que deveria pelo menos em tese trabalhar pelo povo.
    No fundo todos sabemos como tudo funciona, mudar isso que é complicado e demorado, pois começa pela educação e resgate dos valores fundamentais como respeito e cidadania entre outros. Se os jovens crescem ouvindo que a justiça é injusta e que o certo é levar vantagem em tudo, o que se espera quando os mesmos se tornarem adultos?
    Os que tem uma personalidade e educação sólida e conseguem passar por esse ciclo imunes a essa distorção de valores acabam de mãos atadas por serem minorias, mas essa é a sociedade que temos e devemos manter a esperança que tudo pode melhorar, obviamente que só vai funcionar quando nessa hierarquia os exemplos vierem de cima, dos pais, dos políticos e de quem faz e zelam pelas leis.
    Abraços

    Publicado por NATIBRASIL Naturismo | 26/05/2012, 12:39
  2. Os homens fazem a história e nós a registramos. Os acontecimentos nem sempre têm como pano de fundo o azul celestial e os personagens atuantes, ainda que queiram retocar a maquiagem, não conseguem modificar as expressões de origem. A realidade deixa-se fotografar. Nossa sociedade está doente; capitalizando mazelas; caminhando em direção a encruzilhadas, cujos caminhos não levam a lugar nenhum. Às vezes os papéis de estopim, fogo e substância explosiva confundem-se. Imaginemos um menino estourando uma bombinha de São João dentro de um lotado galinheiro; pois é, nessa hora comparo o comportamento sociológico às alvoroçadas galinhas. Vivemos numa era em que as informações nos chegam na velocidade da luz e em quantidade além da nossa capacidade de digeri-las, dissecá-las, porém, sem a qualidade necessária para estabelecermos juízos de valores com fundamentação. O processo educacional, sem dúvida alguma, é a porta de entrada para o resgate da cidadania, e a porta de saída do estado de ignorância assistida. Recomendo a leitura da matéria “Uma questão de educação” presente neste meu Blog, na Categoria EDUCAÇÃO. O episódio que presenciamos, objeto da CPI do Cachoeira (Isso dá pano pra manga), coloca em xeque a nossa capacidade de discernimento: Será que estamos subjugados a uma forma de governo em que o poder Legislativo e, até certo ponto, o Judiciário se concentram no poder Executivo?

    Grato pelo seu comentário. Forte abraço.

    Publicado por augustoavlis | 27/05/2012, 10:29

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