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Fatos em Foco, Naturismo

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

Foi um momento meu, somente meu, se eu quebrei a cara é problema meu, foi um trabalho, foi necessidade. Entendeu?

Soraya Gomes desabafou ao ser levada pela polícia à delegacia onde prestou esclarecimento, sendo liberada horas depois. Justificou a sua atitude como uma forma de chamar a atenção das pessoas para os problemas pelos quais está passando. Soraya Gomes, desempregada, esta semana escolheu a BR 101 no município da Serra, Espírito Santo, como palco do seu protesto, apresentando-se completamente nua, insinuante. Minutos de fama que não passaram despercebidos aos olhos críticos da sociedade doente. Independente da repercussão do caso, independente se a família achou inoportuna a maneira como as imagens daquela jovem foram divulgadas na Internet e nas redes sociais, independente se as manchetes da mídia enaltecem o sarcasmo – “Peladona do ES” –, fato é que o episódio vai muito além de ser considerado “notícia consumível”, ele nos faz parar para revermos conceitos, ele nos obriga a refletir sobre a vida e sobre todos os seus atores coadjuvantes.

Se houve show, se as cenas deixaram atenta a sôfrega plateia, se a peça gerou comentários durante o primeiro ato e ao final do espetáculo, se não teve bilheteria satisfatória, isso não importa. O que percebi foi o alvoroço da massa; o que vi foram pedras sendo atiradas pelos puros de corpo e alma, sem pecados; o que notei foi a encenação da segunda peça: “A malhação da peladona”; o que presenciei foi a falta de respeito aos princípios fundamentais do ser humano. Se me oponho ao nu, então eu cubro o corpo, ninguém, absolutamente ninguém, levou um lençol, surrado que fosse, para cobrir aquela jovem; ao invés disso, todos deixaram escapar um grito uníssono:

Vamos correr todos para ver um corpo nu. É de uma mulher!

Pouca vergonha. Disse a pudorosa.

Que pena que eu não vi. – O bom eu perdi. Disseram, sorridentes, os sem-vergonha.

A sociedade, politicamente correta, negou a Soraya Gomes duas vezes: a primeira quando não lhe concedeu melhores oportunidades, e a segunda vez, quando lhe condenou. Como cidadão naturista, cônscio da filosofia pregada, compadeço-me, sofro com as mazelas da humanidade.

Bem pertinho dali, despudorados Vereadores da Câmara do município da Serra, na Grande Vitória, com bazófia, jactância e fanfarronice, ainda comemoram o aumento de salário, aprovado por eles próprios no mês de março último (Em sessão realizada na noite do dia 9 de abril, os Vereadores derrubaram o veto do Prefeito Sérgio Vidigal ao aumento, com um placar de 10 votos a 6). O salário passou de R$ 5.273,00 para R$ 9.208,00, equivalente a um reajuste de 74,63%, gerando um gasto anual de mais de R$ 2 milhões para os cofres públicos. Dinheiro que sai dos bolsos da população da Serra, muitos dos quais munícipes promovendo o linchamento da desnuda Soraya Gomes. Seriam os Vereadores da Serra merecedores de justiça sumária?

A irmã de Soraya Gomes, Thaís Gomes, disse: “Ela faz tratamento psicológico com o psiquiatra e não está bem. Uma pessoa em boas condições mentais não faz o que ela fez”. “Queríamos só dizer que ela não está bem e fez aquilo em um momento de ‘transe’. Temos laudos médicos que comprovam a situação psicológica dela, que não está bem”. Completou Thaís. Em nenhum momento ficou caracterizado o apoio da família, muito pelo contrário, Soraya deve ter se sentido renegada, execrada por todos. Talvez a sua família colocasse como pano de fundo o seu sentimento de vergonha pelo que pode ferir a decência ou a honestidade. Não estou aqui para julgar, como não podemos julgar Pedro por ter negado a Jesus Cristo três vezes.

Mateus 26:34. Replicou-lhe Jesus: – Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.

Mateus 26:74. Então, começou ele a praguejar e a jurar: – Não conheço esse homem! E imediatamente cantou o galo.

Mateus 26:75. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: – Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente.

Somos todos, irremediavelmente, vítimas de nós mesmos, dos males morais. Padecemos de complexos, somos complicados, estabelecemos que o ridículo resida nos outros. Medíocres somos; ruminamos sentimentos recalcados; aniquilamos a remissão das faltas. Somos adoradores das incoerências; somos patéticos – a síndrome bestificada da pureza humana.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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