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Fatos em Foco, Polícia e Segurança Pública, TV - Variedades

Dez anos sem Tim Lopes

O dia 2 de junho de 2002 ficará eternamente marcado como a data oficial do luto da imprensa brasileira. Dez anos se passaram da sua morte. Faltam apenas 8 dias. Não se trata de um luto oficial decretado por apenas três dias, ainda imensamente consternados, como jornalista, sinalizo que o nosso sentimento e a nossa grande dor pela morte de Tim Lopes ficarão para sempre. Que o legado deixado pelo jornalista Tim Lopes sirva de exemplo para um grupo de pessoas arbitrárias, que por motivações escusas, quer denegrir, infamar a profissão de jornalista, extinguindo regras fundamentais para o seu exercício. Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento, nasceu na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 18 de novembro de 1950. Eu nasci no Rio de Janeiro no dia 17 de novembro de 1950, também sou jornalista, fato que muito me orgulha, assim como me espelhar na sua competência, coragem e audácia que o habilitaram como repórter investigativo.

Numa quinta-feira, 8 de agosto de 2002, eu escrevi:

Há muito, eu não chorava

O lamentável desfecho do inquérito policial sobre a morte do jornalista, repórter e produtor da Rede Globo, Tim Lopes, coloca em xeque a competência técnica da polícia do Rio de Janeiro. O episódio mostrou claramente o seu lado frágil e, sobretudo, o seu despreparo; provou o desequilíbrio e a total falta de discernimento de quem diretamente a comanda, em todos os níveis de representação, por regra. Por teoria, a Polícia é a instituição encarregada de manter a ordem e a segurança públicas, porém, a prática demonstrou exatamente o contrário.

As palavras de fechamento do Jornal Nacional, edição da quarta-feira, 07 de agosto de 2002, proferidas pelo apresentador William Bonner, muito me emocionaram. Esta emoção não diminuiu ao saber da exoneração do Delegado de Polícia e do afastamento do seu Inspetor, ambos, responsáveis diretos pelo caso. Podemos qualificar como insatisfatória, ruim, inoperante, inominável e iníqua a sindicância realizada pelo Inspetor de Polícia sobre o caso Tim Lopes. Esse indivíduo – encarregado de inspecionar, de examinar, de verificar, de relacionar os fatos, de apontar os prováveis culpados, enfim, de facilitar o trabalho da justiça –, não cumpriu com o seu papel de homem da lei, como todos esperavam. Infelizmente, também é mantido às custas dos impostos pagos pela sociedade. O senso de justiça e a opinião pública foram brutalmente atingidos. Levará um bom tempo até que o incidente seja suplantado. Esquecido, jamais, até porque as marcas que ficaram são profundas; a carne sangra; a esperança por justiça agoniza lentamente.

A todo o momento, travamos batalhas no submundo dos poderes e das forças coercitivas e o exercício da nobre missão de informar esbarra no paredão da conivência, dos comprometimentos bilaterais e tropeça nas ameaças de violência. Chegamos ao limite da intolerância e da insensatez. Nunca, em tempo algum, o lado animal do “homem racional” ficou tão em evidência. Hoje, vivemos sob a égide do medo e o pavor nos assola. Não podemos ficar reféns das nossas consciências, porque temos a plena capacidade de julgar a moralidade das próprias ações e isto nos habilita a cobrar, veementemente, dos poderes públicos, as respostas para tantos questionamentos e as soluções para tantos crimes cometidos e que continuam dissimulados, ocultos na sombra da cumplicidade.

Paira sobre a cidade um clima invernal. O sol escurece cedo. A noite deixa revelar o medo contido; a vida diminui de importância e aumentam as incertezas da sobrevivência. Tapam-nos os olhos, mas permanecem acesas as visões, cujas chamas não se apagarão porque o legado deixado por Tim Lopes faz aumentar o amor que seus colegas sentem pela profissão de jornalista. No mundo, a conquista da liberdade de imprensa fez derramar muito sangue. Perseguidos, muitos jornalistas foram obrigados a trabalhar na clandestinidade e tiveram que pagar um elevado preço por isso. Na era da informação, do conhecimento partilhado, da globalização, não se admite mais práticas criminosas que ao longo do tempo têm ofuscado talentos e apagado outros para sempre. A violência tem mostrado a sua cara sem o mínimo receio e pudor – aquele que não faz uso da razão dá as cartas e passa por cima das leis.

Nas mãos de quem estamos entregues? A impotência nos tem transformado em presas fáceis para os agressores, enquanto aqueles que são pagos com o dinheiro público para nos defenderem simplesmente nos abandonam à própria sorte. Assistimos diariamente famílias sendo expulsas das suas casas sob o olhar sereno dos poderes legalmente constituídos. Até quando? Enquanto boa parte do dinheiro do narcotráfico, do crime organizado e do fruto da rapinagem dos cofres públicos servir como “caixa financiador” da corrupção, de campanhas políticas e da manutenção de interesses escusos de autoridades, fica cada vez mais difícil a saída. Este dinheiro sujo realimenta o processo e produz novas vítimas em progressão geométrica – podemos ser as próximas! No balanço da vida somos vistos como prejuízo, que precisa ser eliminado.

Ao contrário do que o inquérito policial quis apregoar, Tim Lopes, com o seu trabalho, jamais pretendeu autopromoção ou ser destaque na mídia internacional, tanto que, até aquela data, não gozava de extrema notoriedade – praticamente um rosto anônimo, assim como tantos outros, a serviço da informação. Por conta dos seus valores éticos, compromisso com a verdade e com os fatos, por conta do seu profissionalismo e perfil de investigador, fizeram-no, momentaneamente, trocar de papel com a polícia, com o Ministério Público, com o Judiciário e assim por diante. Estes permaneceram omissos o tempo todo; discursando para as pirâmides; pintando o caos com as cores da normalidade. Se, em algum instante, Tim Lopes cruzou a linha de fogo, não pode ser responsabilizado pela sua própria morte, expondo-se a perigo iminente, conforme alguns homens da lei e certas autoridades, irresponsavelmente, quiseram propagandear. Tal opinião, não importa se pessoal, agride a todas as regras do bom senso, é imoral, é nojenta, sob todos os aspectos. Não há explicativas neste caso. Dramas de consciência não passam de dramas.

Não conhecia pessoalmente Tim Lopes, muito embora tenha cruzado com ele em alguns eventos de comunicação. Para admirá-lo basta conhecer um pouco da sua história, do seu trabalho em prol dos menos favorecidos, conhecer um pouco da sua trajetória como cidadão de bem. Ele, Tim, sabia que a informação é o agente indutivo da transformação do mundo e forja novas atitudes, sejam dos homens, empresas ou governos. O sentido de sociedade organizada, e livre, decorre deste processo. Tim, como homem de fé, era contrário à construção de patíbulos, assim como qualquer outro cidadão no pleno exercício da religião, do Estado de Direito e, sobretudo, da democracia. Acharam que uma importante voz foi silenciada – nós somos o seu grito, nós jornalistas somos a multiplicação da sua missão.

Tim Lopes morreu acreditando na moralização das instituições, acreditando que somente através de uma imprensa livre teremos homens livres nas suas convicções, acreditando que a liberdade de expressão e manifestação do pensamento, prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos, é um instrumento capaz de combater a opressão. As injustiças e os algozes de Tim Lopes já fizeram dele um mártir. Infelizmente, com a morte de Tim Lopes, não cessará o processo da violência contra os profissionais da comunicação. Outros jornalistas e fotógrafos tornar-se-ão vítimas dela, por um motivo qualquer, sob os olhos míopes das leis e das autoridades. Essas baixas somente servirão para engrossar as estatísticas de corpos frios, como o gelo do inverno. Novos nomes provavelmente serão adicionados em um memorial qualquer, para a contemplação das próximas gerações igualmente vítimas de sistemas.

Cabe, portanto, a cada um de nós, a tarefa de apontar, publicamente, as irregularidades e os desvios de conduta dos homens que representam as leis brasileiras, para que atos como esse não se perpetuem e para que os bandidos não se sintam protegidos pela sombra do poder constituído. Os marginais homicidas são vistos como um grupo estruturado, legalmente organizado, e toda a população, sem paz, acuada, inquieta, insegura, indefesa, envergonhada, com o coração apertado e clamando por justiça, está se sentindo condenada, prisioneira e esquecida dentro do seu próprio habitat, rogando por um Deus desconhecido.

Hoje, eu consegui chorar.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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