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Consultoria & Marketing

Um caminhão de prêmios

Um caminhão de prêmios

O Supermercado Carone – DRIFT Comércio de Alimentos S/A (Mandatária) –, com sede no Rio de Janeiro/RJ, está realizando uma campanha promocional, válida para o Estado do Espírito Santo, voltada aos seus clientes, no período de 14/05/2012 a 04/08/2012, denominada “Paris, aí vou eu” (Cert. Aut. /SEAE/MF nº 06/0158/2012), tudo de acordo com as normas estabelecidas. O único problema foi ler o regulamento na íntegra sem o auxílio de uma lupa – mais parecia bula de remédio. Mas, o que isso tem a ver com o nosso “case”? Tem tudo a ver.

Anteontem precisava comprar alguns produtos de reposição e, como de costume, fui a uma de suas lojas. Mantenho fidelidade à filial de Coqueiral de Itaparica, município de Vila Velha, de modo que me considero um cliente especial, com direito a três cafezinhos tomados no balcão de degustação mantido por uma indústria local e a um bate-papo com o meu amigo, xará, Augusto. Só não tem o Avlis. O bate-papo com o xará é a parte mais interessante – o ato de comprar também o é –, rola de tudo um pouco; falar mal do nosso amigo comum Elísio é certo, sobretudo quando esta vítima está ausente. Ele também faz a mesma coisa quando ausente estou. Juntos, os três, demonstramos atitudes angelicais, torcemos pelo mesmo time, ninguém se arrisca a falar mal do outro. Motivo: a matemática, como ciência exata, prova que sempre ficam dois contra um; além da questão da terceira pessoa assumir o papel de testemunha.

Conheço Paris, mas nada melhor do que retornar àquela maravilhosa capital francesa tendo as despesas pagas por alguém, nesse caso, pelo Carone – ou melhor, pelos melhores e maiores fornecedores do Carone. Isso não importa; o que importa é ir à Paris. Para ir à Paris tenho que comprar produtos, preencher os cupons, depositá-los na urna e pedir a Deus que me conceda a graça de ser sorteado. Pois bem, estava preenchendo os meus seis cupons quando fui abordado por um senhor aparentando ser mais velho, perdão, ser mais idoso do que eu. Com um semblante de desconfiado perguntou-me:

Senhor, bom-dia, desculpe-me perguntar-lhe, esta promoção é confiável; caso seja sorteado, irei mesmo à Paris e com direito a acompanhante?

Poderia falar qualquer coisa como resposta, até porque o Elísio não estava por perto naquele momento; se tivesse, certamente o que diria mais cedo ou mais tarde chegaria aos ouvidos do meu xará Augusto. Não que o Elísio seja agente do FBIFofoqueiro Brasileiro Infiltrado, é porque ele tem perfil do bom jornalista: transmite as notícias em tempo real, só que, às vezes, revela a fonte. O meu amigo Elísio é gente da melhor qualidade e tenho a maior admiração por ele. O meu xará Augusto concorda comigo. Então. Procurei ser o mais objetivo possível na resposta, até porque já tinha gente querendo a caneta emprestada para também preencher os seus cupons da promoção.

Senhor, nessa promoção o senhor pode confiar, aliás, em qualquer outra que o Carone faça direcionada aos seus clientes. Se fosse outra rede de supermercado, com certeza eu ficaria com o pé atrás, ou melhor, com os dois.

Estendi a resposta e acabei me estrepando. Despertei a normal curiosidade e o resultado foi que o solicitante da informação me pediu mais detalhes acerca do “outro supermercadista”. Com medo que o Elísio aparecesse – ele surge do nada como um Ninja –, anotei o endereço de e-mail daquele senhor para encaminhar-lhe um texto, de minha autoria, escrito há sete anos e meio, descrevendo o acontecido. Infelizmente não virou conteúdo de notícia. A propósito, revelarei parte do endereço de e-mail daquele senhor para minha garantia constitucional: @senador.gov.br. Leiam.

Uma grande rede de supermercado realizou, no período de 17/10 a 18/11/2004, uma promoção para todas as suas 72 lojas, sendo 09 no Espírito Santo e 63 em Minas Gerais, em comemoração aos seus 45 anos de fundação. A cada compra, os clientes recebiam um cupom que, além de preenchê-lo com as informações pessoais, deveria completar a frase: O EPA faz parte da minha história porque…. Todos os cupons seriam submetidos à comissão julgadora (05 pessoas), que selecionaria as 725 melhores frases, e os seus autores receberiam prêmios materiais. A divulgação dos contemplados aconteceu em 29/11/04. Segundo informações prestadas por uma funcionária da loja de Coqueiral de Itaparica (Vila Velha/ES), que não quis se identificar, mais de 5.000 cupons foram distribuídos nos Check-outs, preenchidos pelos clientes e colocados na urna, só nessa loja. Considerando a média de 5.000 cupons, as 72 lojas receberam um total de 360.000 cupons preenchidos. Será que os 05 avaliadores, em 10 dias, conseguiriam fazer uma boa escolha, depois de terem analisado, cada um deles, um total de 72.000 cupons, o que dá uma média diária de 7.200 cupons? Se isso não bastasse, a cláusula nº 07 do REGULAMENTO, estabelece: “O participante só poderá ser contemplado uma única vez, no entanto poderá participar com quantos cupons/frases desejar”. A listagem dos contemplados, por classe de prêmios, colocada nas lojas, aponta uma irregularidade: a cliente Mara Walkíria (Ipiranga/BH) ganhou dois prêmios, sendo 01 TV 20 polegadas e 01 CAMINHÃO DE PRÊMIOS. Imagino que tenha havido certo “direcionamento” dos melhores prêmios, enquanto os de menor valor, ou importância, foram simplesmente sorteados. Para descontentamento geral, as frases vencedoras não foram divulgadas; ainda que a regra desse à rede supermercadista o direito de não fazê-lo, mas o bom senso e a ética determinariam a divulgação pública das frases eleitas. Em qualquer concurso de redação o texto é divulgado, sobretudo na Internet. É crime induzir o consumidor ou usuário a erro, através de indicação ou afirmação falsa, ou enganosa, sobre o produto, inclusive a veiculação ou divulgação publicitária. Nas relações de consumo, superar as expectativas dos clientes não é mais a tônica nos negócios, muito menos tentar encantá-los momentaneamente – para conquistar a sua fidelidade, o comerciante precisa dar provas de confiança, credibilidade e, sobretudo, de honestidade. A existência de clientes que se sentiram, de um modo ou de outro, logrados com a citada promoção, é, sem dúvida, um grande prejuízo para a rede supermercadista que a implementou. Considerar os consumidores incautos é, no mínimo, irresponsabilidade. Clientes insatisfeitos não voltam mais – recuperá-los é tarefa quase impossível. Esses, assim como eu, saberão responder a esta pergunta: “Qual supermercado que engana você?”.

Tchau pra quem fica!

Frase do dia:

“Cuidado com promoções do tipo CARACU: A empresa realizadora entra com a CARA e o cliente consumidor entra com o C@#$%@U“.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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