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Política

Polítitica – 14ª Crônica

Basta alguém falar em fome para despertar um forte sentimento de comoção e certa revolta na maioria das pessoas normais. A esmagadora maioria, desta maioria comum, é composta de gente humilde, de gente pobre, de seres humanos largados à própria sorte. Atualmente só pobre tem ajudado pobre, mesmo não tendo recursos que lhe permitam tal ação humanitária. Agora, até miserável está ajudando miserável, por força do modismo imposto. O que todos nós precisamos fazer, urgente e indistintamente, é deixarmos de ser pessoas contemplativas e casuístas, e, definitivamente, encararmos o problema de frente com a coragem necessária e partirmos para o seu enfrentamento, com os pés no chão, sem sensacionalismos baratos – só não vale encher a barriga primeiro.

O novo Presidente da República, produzido nas urnas no último 27 de outubro, vem a público anunciar, com alarde, a criação de uma Secretaria Emergencial para Combate à Fome, ou melhor, a SECF (Céquifi), tão logo assuma o governo em 1º de janeiro do próximo ano. Este mais novo monograma cai bem neste momento ímpar da sopa das siglas partidárias – desta sopa de letrinhas, infelizmente, os pobres e os miseráveis deste país não podem tomar, não por problemas estomacais e sim mentais, perdão, intelectuais.

Será que o novo “Rei” já abriu a temporada de caça em busca da popularidade ou do populismo? Políticos de renome no PT, perdão, PTI (Partido dos Trabalhadores Informais) estão melando o “projeto da fome”, dizendo que a sua efetivação dependerá de disponibilidade orçamentária ou de remanejamentos das dotações. O certo é que os R$ 6 bilhões de que necessitam (calcularam rápido), precisam ter uma fonte de aparição – e que não seja uma simples visão, uma fantasmagoria. Será que estamos diante da possibilidade de outro desvio de verbas? Nem quero pensar nisso. O povo não merece; ele só quer trabalhar para comprar a sua própria comida.

O PT, com auréola e asas de anjo, está pendurado em exemplos passados de ações de cidadania como reforço de tese. Pelo amor de Deus, nada contra as ações de cidadania, como a campanha “Natal sem fome” (que um dia vai acabar). Maravilha, os pobres e os miseráveis (alguns poucos afortunados) terão um dia de barriga quase cheia de comida, porque é Natal, e os outros trezentos e sessenta e quatro (pula para 365 dias quando o ano for bissexto) cheia de vento, de dores e de desesperança. Entretanto, vamos procurar entender alguns pontos ainda considerados obscuros pela maioria daquela maioria de indivíduos regulares. O que os produtores de alimentos agrícolas e industrializados e o comércio estão fazendo com relação ao assunto da fome? Como se sabe, toneladas e mais toneladas de alimentos anualmente estragam nos silos e nos armazéns aguardando melhores preços de mercado. Outras tantas se perdem no transporte deficitário ao longo das nossas estradas precárias – isso é vergonhosamente histórico. Por sua vez, o comércio de gêneros alimentícios não promove, como deveria, a cesta básica disponibilizada às classes menos favorecidas. Nos produtos que a compõem estão embutidas as margens de lucros dos varejistas ou atacadistas, ou atravessadores, sem diferenciações. Se calhar, dentro dela muito provavelmente vamos encontrar produtos com datas de validade vencidas ou prestes a vencer e alguns dos quais voltam para as prateleiras, revalidados, e com os preços de venda remarcados, sobretudo quando o seu baixo giro apontar para o risco de perda total.

Há algum tempo, verificamos situações sugestivas e também inusitadas no segmento supermercadista. Destacamos duas: primeira, algumas lojas de varejo estão colocando caixas para a coleta de alimentos na entrada principal, destinados aos necessitados (teve gerente que até sugeriu um cartaz do tipo canta freguês: Compre aqui e deixe ali”); segunda, algumas redes de supermercados estão doando produtos (alimentos) com datas de validade prestes a vencer e outras mercadorias danificadas e que supostamente seriam “rejeitadas visualmente” pelos “consumidores normais” – perfeita reedição dos festivais de xepas.

Esta questão da criação da Secretaria Emergencial para Combate à Fome – tudo com letra maiúscula como o tamanho da fome dos brasileiros, literalmente – ainda vai deixar muita gente com ânsia de vômito antes da primeira “garfada”. Prova disso é que se espera muita pancadaria quando o governo for discutir as alíquotas de ICMS incidentes sobre os produtos da cesta básica, e outros, no momento da Reforma Tributária; se houver.

Não me causam mais indignação as atitudes dos nossos governantes. Há muito, estou devidamente anestesiado como boa parte do povo brasileiro. Nenhum dos candidatos, principalmente postulantes ao trono do Rei, falou em “controle da natalidade” nas suas plataformas e campanhas políticas. Os nossos pobres e miseráveis, que habitam as periferias em condições subumanas, se reproduzem como ratos nos guetos imundos. O pão lhes falta para o sustento da carne, e religião para o da alma, mas são ensinados a votar nas urnas eletrônicas, como cegos, e a propaganda lhes ordena que este foi, é, e será o único caminho da salvação.

Aqueles outros nossos irmãos brasileiros – inclusive os políticos – que ganham milhares de reais, dezenas de milhares, centenas de milhares e milhares de milhares de reais, concordariam com a “doação voluntária” de parte dos seus vencimentos e mordomias a favor dos pobres e dos miseráveis; dos seus iguais irmãos? Iguais, só na boca dos políticos em períodos de campanha. Lembro-me da frase de Talmude: “O pobre faz mais bem ao rico aceitando a sua caridade, do que o rico faz ao pobre oferecendo-a”.

O modelo econômico brasileiro é singularmente perverso e corrupto, contempla a concentração de riquezas, de haveres e de bens. Consequentemente, a distribuição de renda torna-se inadmissível, desumana, cruel, deplorável e imoral. A negligência do Estado com relação aos mais necessitados só tem provocado a elevação da curva estatística das desigualdades sociais. Como reflexo desta política – centrada nas elites – verifica-se uma tremenda distância entre ricos e pobres, muitos dos quais já reduzidos à condição de miseráveis. As classes economicamente intermediárias estão deixando de existir; daqui a pouco desaparecerão das estatísticas oficiais. Quantos são os ricos deste país tropical? Um por cento da população ou um por cento da camada considerada economicamente ativa? Não importa, porque 1% é 1% e sempre será. Os abastados afirmam que o bolo das riquezas está bem dividido: migalhas catadas pelos pobres no chão, enquanto os miseráveis lambem a sujeira dos pratos. Antes de falar em combate à fome, o governo precisa rever alguns valores e conceitos. O camarão fica ofendido quando dizem que ele tem merda na cabeça.

De nada adianta o governo vangloriar-se do superávit das exportações, da produção recorde de grãos, da “retomada do desenvolvimento”, ou do “crescimento sustentável”, se a base da pirâmide social não receber a sua devida parte, o seu quinhão, por justiça; se faltar pão e feijão na mesa dos obreiros do progresso dos outros; se a esmagadora massa continuar sendo oprimida, tiranizada e excluída, ficar à margem do processo evolutivo. A bem da verdade, em qualquer sistema de governo sempre existirão classes, categorias e níveis sociais distintos como formadores da população, da chamada sociedade organizada. No entanto, o que se pressupõe é o iminente risco do desencadeamento de marchas anárquicas, caso o manômetro da caldeira social deixe de registrar a pressão provocada pela combustão da ganância, da usurpação, do desdém, do egoísmo e do desprezo.

Os ricos – preciosos brasileiros – ao longo do tempo, foram se infiltrando na política, conquistaram poder e assumiram os postos de comando mais importantes da nação, com três finalidades: primeira, defesa do seu feudo; segunda, defesa dos seus interesses pessoais e terceira, para ficarem mais ricos.

Cheguei à conclusão de que as desigualdades sociais têm origem. A base da pirâmide social continua pagando a conta, não apenas com suor e lágrimas, sobretudo, com a alma. A corrupção tem destruído silenciosamente o tecido social. Uma mínima parcela da população detém 50% da riqueza nacional. Não adianta contrariar esta estatística. Tenho dito que, para cada rico brasileiro, existe um exército de pobres e de miseráveis. Herbert de Souza, o Betinho, disse: “O Brasil é o país de maior concentração de riqueza do mundo. Um país capaz de ter o máximo possível para uma minoria e um mínimo absoluto para sua grande maioria”.

Provavelmente, ninguém tenha culpa disso. A culpa cabe a Deus que deu ao homem a capacidade do raciocínio – não a inteligência – e aí criou o dinheiro como moeda de troca e fez dele a razão primeira da sua vida. Eça de Queiroz foi muito feliz quando disse: “Onde aparece o ouro, o terrível ouro, imediatamente os homens em redor se entreolham com rancor e levam as mãos às facas”.

Com barriga cheia ou não.

Se o saco está vazio, ações de mobilização são implementadas pelos governantes no sentido de enchê-lo. O povo, em fila indiana, será a formiguinha que carregará nos ombros a moeda – alcunhada com o título de imposto –, uma a uma, de sol a sol, dia e noite, noite e dia, por toda a vida. Amaldiçoado este trabalho, porque o formigueiro tão cedo não verá cheio este saco, enquanto na fileira ao lado existirem criminosos de colarinho branco dispostos a realizar, sem pudor, um trabalho contrário: o de esvaziá-lo, num ritmo extraordinariamente acelerado e com desmedido frenesi.

Por razões sobejamente conhecidas, a fome terá cadeira cativa na mesa da maioria das famílias brasileiras. Subliminarmente, o conceito de “fome” não se prende tão somente ao grande desejo de comer; escassez ou falta de viveres – o povo sentirá fome de oportunidades, de justiça, de educação, de democracia, de cultura e de inteligência; estes pratos jamais serão servidos pelos donos do restaurante Brasil.

A base da pirâmide social, banguela e desnutrida, saúda a chegada do novo Rei. Por muito tempo a esperança será o seu principal alimento. O seu novo Rei, por necessidade, em primeiro lugar fumará um charuto cubano e beberá um Romanée-Conti, antes de voltar os seus olhos para as formiguinhas que o conduziram ao trono.

Esta sociedade de insetos não tem consciência de que seria muito, seria por demais esperar de um ser igual, que quando este subisse ao poder, não se esquecesse, jamais, daqueles que embaixo ficaram – com suas bocas abertas como filhotes de pardais no ninho –, e continuarão, por longo tempo, por muito tempo mesmo, a mercê de exploradores da ignorância.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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