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TV - Variedades

Wagner Moura. Meleca no ator

Wagner Moura – Meleca no ator

Li no Observatório da Imprensa www.observatoriodaimprensa.com.br matéria escrita pelo ator Global, Wagner Moura, editada no jornal O Globo, na sexta-feira, 30 de maio de 2008, no caderno Televisão, de título “Meleca no ator”. Por que só agora, depois de quatro anos? Estava na Europa na ocasião. Fui pra lá tomar banho de cultura, aproveitei o ensejo e fiquei longe das trapalhadas tupiniquins. Comentava com o meu filho Thiago um assunto bem parecido com este e ele me recomendou que acessasse o citado site e, com certeza, iria “gostar muito” do texto escrito por Wagner Moura:

Meleca no ator

Quando estava saindo da cerimônia de entrega do prêmio APCA, há duas semanas em São Paulo, fui abordado por um rapaz meio abobalhado. Ele disse que me amava, chegou a me dar um beijo no rosto e pediu uma entrevista para seu programa de TV no interior. Mesmo estando com o táxi de porta aberta me esperando, achei que seria rude sair andando e negar a entrevista, que de alguma forma poderia ajudar o cara, sei lá, eu sou da época da gentileza, do muito obrigado e do ‘por favor’, acredito no ser humano e ainda sou canceriano e baiano, ou seja, um babaca total. Ele me perguntou uma ou duas bobagens, e eu respondi, quando, de repente, apareceu outro apresentador do programa com a mão melecada de gel, passou na minha cabeça e ficou olhando para a câmera rindo. Foi tão surreal que no começo eu não acreditei, depois fui percebendo que estava fazendo parte de um programa de TV, desses que sacaneiam as pessoas. Na hora eu pensei, como qualquer homem que sofre uma agressão, em enfiar a porrada no garoto, mas imediatamente entendi que era isso mesmo que ele queria, e aí bateu uma profunda tristeza com a condição humana, e tudo que consegui foi suspirar algo tipo ‘que coisa horrível’ (o horror, o horror), virar as costas e entrar no carro. Mesmo assim fui perseguido por eles. Não satisfeito, o rapaz abriu a porta do táxi depois que eu entrei, eu tentei fechar de novo, e ele colocou a perna, uma coisa horrorosa, violenta mesmo. Tive vontade de dizer: cara, cê tá louco, me respeita, eu sou um pai de família! Mas fiquei quieto, tipo assalto, em que reagir é pior.

O táxi foi embora. No caminho, eu pensava no fundo do poço em que chegamos. Meu Deus, será que alguém realmente acha que jogar meleca nos outros é engraçado? Qual será o próximo passo? Tacar cocô nas pessoas? Atingir os incautos com pedaços de pau para o deleite sorridente do telespectador? Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos; pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores que faz, por exemplo, com que uma emissora de TV passe o dia INTEIRO mostrando imagens da menina Isabella. Estamos nos bestializando, nos idiotizando. O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.

Digo isso com a consciência de quem nunca jogou o jogo bobo da celebridade. Não sou celebridade de nada, sou ator. Entendo que apareço na TV das pessoas e gosto quando alguém vem dizer que curte meu trabalho, assim como deve gostar o jornalista, o médico ou o carpinteiro que ouve um elogio. Gosto de ser conhecido pelo que faço, mas não suporto falta de educação. O preço da fama? Não engulo essa. Tive pai e mãe. Tinham pais esses paparazzi que mataram a princesa Diana? É jornalismo isso? Aliás, dá para ter respeito por um sujeito que fica escondido atrás de uma árvore para fotografar uma criança no parquinho? Dois deles perseguiram uma amiga atriz, grávida de oito meses, por dois quarteirões. Ela passou mal, e os caras continuaram fotografando. Perseguir uma grávida? Ah, mas tá reclamando de quê? Não é famoso? Então aguenta! O que é isso, gente? Du Moscovis e Lázaro Ramos também já escreveram sobre o assunto, e eu acho que tem, sim, que haver alguma reação por parte dos que não estão a fim de alimentar essa palhaçada. Existe, sim, gente inteligente que não dá a mínima para as fofocas das revistas e as baixarias dos programas de TV. Existe, sim, gente que tem outros valores, como meus amigos do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que estão preocupados é em combater o trabalho escravo, a prostituição infantil, a violência agrária, os grandes latifúndios, o aquecimento global e a corrupção. Fazer algo de útil com essa vida efêmera, sem nunca abrir mão do bom humor. Há, sim, gente que pensa diferente. E exigimos, no mínimo, não sermos melecados.

No dia seguinte, o rapaz do programa mandou um e-mail para o escritório que me agencia se desculpando por, segundo suas palavras, a ‘cagada’ que havia feito. Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência. E contra a audiência não há argumentos. Será?

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Isso dá Pânico! Realmente eu “gostei muito”. A impressão que eu tenho é que o fato aconteceu ontem. Caso eu resolvesse copiar abaixo a matéria Big Brother Brasil, BBB – 1ª e 2ª partes, postada neste Blog em 06/02/2012, na Categoria TV – Variedades, eu não precisaria escrever mais nenhuma palavra daqui pra frente; por si só, explicaria, analiticamente, a experiência vivida por Wagner Moura. Infelizmente, sou obrigado a generalizar, muito embora tenho que admitir que as únicas diferenças existentes no comparativo entre as emissoras de televisão, guardando-se as devidas proporções, é o poderio econômico e a espessura do telhado de vidro, variáveis essas determinantes para se granjear audiência com relativa fidelidade. A péssima qualidade dos programas produzidos é comum. Comuníssimo, também, a vulgaridade e a banalidade.

Os canais abertos de televisão têm na sua programação estampado o retrato falado do povo brasileiro. Fenomenologicamente, há uma explícita identificação entre mídia e telespectador Um é a cara do outro. As televisões brasileiras são sistemas interligados de canalizações destinadas a despejar o lixo comunicacional, por elas produzido, diretamente nos aglomerados populacionais como se fossem “esgotos sociais”. Esse lixo se traduz em programas recheados de mensagens subliminares que objetivam manter o povo sáfaro. O povo, embevecido, é pego na armadilha. Essa é mais uma questão que me faz crer que o Brasil não é um país sério – se colocarmos uma lona vira circo, se colocarmos uma cerca vira hospício. O Brasil continua sendo um país do futuro – se houver educação no presente. Para aqueles que não leram a matéria BBB – 1ª e 2ª partes, selecionei meia dúzia de parágrafos pertinentes. Leiam abaixo, mas, é importante a leitura dos textos na íntegra pelo conteúdo informativo.

– Jurei por um bom Deus nunca mais ler, escrever ou comentar sobre o Big Brother Brasil, por questões pessoais, de foro íntimo, não revelável. A intelectualidade quando atinge a um nível mediano, constrói uma barreira de autodefesa contra o bombardeio de boçalidades, chuva de porcarias, festivais lúgubres e cenas de burrice explícita, ações essas provocadas pela mídia comercial. Também se o fizesse, jamais correria com medo de represálias por parte dos Deuses maléficos que habitam o sistema comunicacional. […] Os fatos são substantivos e as circunstâncias adjetivas.

– Madrugada de sábado, dia 8 de janeiro de 2012. No programa “Altas Horas”, primeiro do ano, o apresentador, “ex-jornalista” Pedro Bial, leva uma saia justa do Boni e fica com cara de ovelha tosquiada. Bial passou tremenda vergonha com piada do BBB feita por Boni. Serginho Groisman perguntou para Bial se ele vê TV, e ele respondeu: “Eu gosto de coisa ruim na TV”. Aí, Boni, valendo-se de sua peculiar retórica aguda, disparou sem piedade sua metralhadora giratória: “Então você assiste ao BBB”. Sorrisos amarelos, gargalhadas estapafúrdias fora de tom e pensamentos de “Bem-feito”, “Fo… dane-se”, “Toma papudo”, tornaram-se a tônica da pauta de Groisman por um bom tempo do programa. A ordem do dia custou a ser retomada.

– Quinta-feira, 19 de janeiro de 2012. Recebi, por e-mail, sob o título “Mude de canal, você tem o controle”, um Artigo escrito por Luiz Fernando Veríssimo. […] “Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A nova edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência”. E termina dessa forma: “Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída a nossa sociedade”.

– Entrar no jogo do “vale tudo” é decisivo para as emissoras de televisão que lutam pela conquista da audiência, cada vez mais fragmentada. Granjear a fidelidade, ainda que temporária, dos espectadores, hoje não depende tanto da qualidade dos programas exibidos, na medida em que o nível de exigência deles caiu nos últimos anos. Com reduzidas doses de anestésicos comunicacionais, se consegue grandes efeitos de idiotização. Neste caso, a qualidade é uma variável questionável. O público espectador se enlouquece, vai ao delírio, quando as TVs usam expedientes apelativos e golpes baixos, que já fazem parte do processo de catarse; a rigor. Por consequência, rapidamente os objetivos são alcançados, não obstante, na contrapartida, ocorre a inversão de valores – o que menos importa para as TVs –, sobretudo quando os resultados apontados pelas pesquisas especializadas ratificam a liderança de audiência em horários específicos (nobres).

– Os patrocinadores, anunciantes, batem palmas e as emissoras faturam como nunca. Tudo o que foge à regra, atrai e estimula. Estamos frente a questões deveras emblemáticas. Rotular o ruim como a única e, talvez, a última alternativa de entretenimento, sem dúvida, provocará várias consequências desastrosas e sinistras para a formação desta como das próximas gerações. Longe de ser simpático a quaisquer manifestações de censura coercitiva, estou convicto que, para determinados casos, a aplicabilidade de “regras de conduta” é plenamente factível para que o efeito multiplicador do “lixo cultural” não se converta em problema sem solução. Fenomenologicamente, para captar e capturar – atrair e prender – a audiência da massa de espectadores é mais do que certa a implementação imediata de ações descompromissadas com o bom-senso e o pudor. A disputa pela audiência parece recrudescer e não há regras nesse jogo. Os telespectadores não param de consumir produtos ruins – é o ‘real-imaginário’ dando sinais imperativos.

– Lamentavelmente, estamos todos submetidos – subjugados – a tristes espetáculos que nada contribuem para o desenvolvimento cultural do nosso povo; muito pelo contrário, ajudam a destruir o pouco que de bom ainda existe. Talvez se queira construir uma ponte entre o modelo tradicional de comunicação e outro que permita a quebra, sem preconceitos, das regras que regem, ainda que duvidosamente, o atual sistema, transformando-o num produto secundário. Como pano-de-fundo, surge, com premência, a necessidade da “experimentação do novo”, que coloca, habilmente, em destaque, os telespectadores em primeiro plano na ordem de prioridades estabelecida pelos criadores desses macabrismos. Entretanto, esta mídia de futilidades não tem o direito de tratar os diferentes públicos como se fossem “objetos manipulados pelos prazeres subjetivos”, porquanto é notória a sua missão: completo deleite das mentes como desejo expresso. O importante é gozar; não importa como e por qual lado.

Por essas e outras é que eu considero as televisões brasileiras como as “Genis” da vez. Ouça a música “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque, e verá que tenho razão. Em tempo: Um produtor de TV acabou de me ligar e colocou uma questão de ordem: “Geni da vez é o povo”. O produtor não quis se identificar.

“Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!”

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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