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Crônicas Aforísticas

O Prefácio

O Prefácio

Rodolfo foi encontrado morto no quarto do hotel em que se hospedara no Recife. A autópsia revelou a causa exata da sua morte: infarto agudo do miocárdio. Não teve tempo para a sua palestra, tampouco para terminar de escrever o prólogo do meu livro de crônicas. No dia do seu enterro, vestia o mesmo paletó azul marinho listrado, de sua preferência. Inexplicavelmente, uma ponta de papel se deixava mostrar em um dos bolsos. Puxei-o cuidadosamente, e foi aí que percebi que se tratava das primeiras linhas do prólogo prometido por Rodolfo. Guardei-o. Passado o primeiro abalo emocional, meus olhos fixaram-se na data (dia 10) e nas últimas palavras escritas: “Despedimo-nos com um forte abraço”. Não havia pontuação.

Este parágrafo está inserido na 1ª Crônica – Palavras de amigo, do meu livro Um cavalo chamado “Heury”, que pode ser lido integralmente neste Blog.

Meu amigo Rodolfo sempre me surpreendendo, mesmo depois de falecido. Uma das manias que tenho é a de fuçar guardados, já confessada anteriormente. Revolvo papéis com as mãos, não com a fuça (focinho, venta, cara, rosto), deixemos isso bem claro. Minha mulher costuma dizer que investigo, sondo, quando ponho as mãos em gaveta errada, por isso, ela trocou as chaves da sua cômoda de estimação. Pois bem, há pouco tempo bisbilhotando a última gaveta da minha escrivaninha – mesa com apetrechos para escrever –, achei um esboço de prefácio assinado por Rodolfo de Alcântara Jardim. Ele me prometera escrevê-lo tão logo terminasse o meu livro “Fórum do leitor” no qual compilei 300 artigos de interesse público. Leia o Prefácio:

Um convite de Augusto Avlis, recusar, jamais poderia – mesmo que uma intimação fosse a minha opinião. E por falar em opinião, tenho uma a dar: nunca deixe de ouvir o que os outros têm a dizer; fale o que tenha vontade de falar; escreva somente aquilo que não vá trazer complicações amanhã e fique sempre de olhos bem abertos. Essa de dizer que em terra de cego, quem tem um olho é rei, convenhamos, é pura balela. Em terra de cego, quem tem um olho é caolho. Todavia, se algum ficar ofendido, temos outra opinião, que poderá ser escrita, com todos os pingos e is: “Em terra de cego tem muita topada”.

Nunca é por demais tarde para se aprender que em boca fechada não entra mosca. Esta é outra máxima muito aplicada desde o tempo dos nossos avós – portugueses. Tem gente que fica com ela aberta, mas as moscas se negam a entrar. Quer um exemplo: se as moscas entrassem na boca do Lula toda vez que ele fala impropérios e asneiras, jamais repetiria o ato. Nem falo sobre os seus erros de concordância, sejam eles verbais como nominais. Coitado!

Todo veículo de comunicação impressa exige dos leitores algumas informações quando estes pretendem participar da coluna “Cartas” ou “Fórum” (Ao enviar a sua colaboração, por favor, não esqueça os seguintes dados: nome completo, assinatura – menos se for e-mail –, endereço completo, telefone, se tiver, número do CPF ou da Carteira de Identidade), ao mesmo tempo em que estabelece determinadas regras (Limite do texto: 15 linhas datilografadas ou mil caracteres. Poderá haver redução, quando necessário. Publicados ou não, os originais não serão devolvidos). O expediente jornalístico é claro. Entretanto, quando o tema abordado pelo leitor – sobretudo na forma de exposição do pensamento – conflitar com a linha editorial do veículo, muito provavelmente o texto será descartado ou sofrerá acentuada supressão, mesmo que, teoricamente, o jornal ou revista coloque que o espaço é reservado para os leitores mostrarem sua opinião sobre questões polêmicas.

Na verdade, quem tiver a sorte de ter a sua carta selecionada para publicação, saiba que terá boas chances de ver outras matérias de sua autoria publicadas num futuro próximo. Ainda que acreditemos que a censura tenha sido abolida, ela permanece presente numa forma de vida latente. Todo o cuidado é pouco quando adentramos no “espaço alheio”. Desse modo, nunca é demais um exame crítico da matéria antes de encaminhá-la – o ideal seria colocá-la à apreciação de outro leitor assíduo; desde que tenha opinião própria. É claro.

Conhecendo bem o Augusto Avlis como eu conheço, em algumas situações ele preferirá bater de frente com a opinião do veículo, por acreditar nas suas convicções. Percebi que Augusto Avlis construiu um “laboratório experimental” quando participou das colunas “Cartas” e “Fóruns” de um veículo de grande circulação. O jornalista carioca Zuenir Ventura, 74, sempre disse que:

“O Brasil e a imprensa são moralistas. A todo o momento enfrento esse dilema. Ainda há interditos morais, temas que são tabus. Não se pode nem ficar muito à frente nem muito atrás da sociedade. A imprensa não é a vanguarda da sociedade. Não pode disparar na frente, sob pena de provocar um curto-circuito”.

E por falar em moralidade, a conduta moral dos políticos, que habitam os 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território nacional, fez com que Augusto Avlis quebrasse um juramento, logo depois de ter concluído o seu terceiro livro “Política & Políticos, em quem acreditar?”: nunca mais escrever sobre política, políticos ou acontecimentos a eles relacionados. Entrementes, como bom “revolucionário cultural” (fica melhor dessa forma), Augusto Avlis passou a cometer alguns pecados dentro do espaço que lhe foi concedido na coluna dos leitores, contando com o perdão divino ou com a punição do Diabo. Com a mente sempre trabalhando em prol da absolvição, tudo fará para que o “Reizinho” jamais repita a frase: “Nesse povo que eu piso… Esta terra que eu amo!”.

Rodolfo de Alcântara Jardim.

Em alguma época; em algum canto desses 8.514.767 km².

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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