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Crônicas Aforísticas

O maior dos homens

O maior dos homens

Como jornalista, tive a oportunidade de assistir a algumas palestras proferidas por Kleber Adorno (*). Como acadêmico, defendi tese sobre a temática na cadeira de Filosofia. O autor do texto “A lealdade não é cega”, com sua peculiar retórica – s.f. (1) Arte de discursar; eloquência; oratória. (2) Tratado ou livro que contém as regras do bem falar ou do bem escrever –, estabeleceu uma visão divisionária, e nas colunas da compreensão agrupam-se aqueles indivíduos que, supostamente, as compartilham.

A lealdade não é cega; digamos que ela é subentendida. Sofrem de cegueira aquelas pessoas que não conseguem desvendar as verdadeiras intenções daquelas outras que professam lealdade, a que tempo for. Intenção: s.f. (1) Plano; intento; pretensão. (2) Propósito firmado; vontade determinada. Vamos recorrer ao conceito acadêmico de lealdade: s.f. (1) Franqueza; sinceridade; cordialidade; fidelidade. (2) Executor de obrigações. O adjetivo “leal” significa: (1) Franco; sincero; cordial. (2) Cumpridor de compromissos; fiel. Mas, a natureza humana, excetuando-se os demais seres que formam o universo, obediente sequaz das suas próprias regras, valendo-se da arte da divinação, manda de volta para o espaço os preceitos celestiais.

Quando contrariados os interesses – Interesse: s.m. (1) Lucro; proveito; vantagem. (2) Empenho; cuidado; diligência. (3) Direito; conveniência. (4) Importância. (5) Parte que se tem em uma sociedade comercial –, o indivíduo, travestido de sensato, parte para o jogo decisivo, ainda que sem os apetrechos de segurança, mesmo sabendo de antemão que tal procedimento pode suscitar fraturas expostas; no corpo e na alma. Somos falsos indulgentes, talvez porque somos dotados de 2/3 de emocionalidades, geralmente sobreestimadas, e 1/3 de razão. Os sentimentos à flor da pele – a sensibilidade exorbita; ultrapassa os limites do justo ou do razoável. Bendita razão. Razão: Faculdade do espírito com que o homem reflete, compara, conhece e julga – geralmente menoscabada. A razão é o próprio ponto de vista; uma questão de ótica; uma questão de prisma – modo particular de ver ou considerar as coisas. Não há como mudar isso. A fragilidade humana será sempre questionada.

Uma formiga nos pica e logo a esmagamos. Até o cão mais fiel é capaz de morder a mão do seu dono quando este lhe faz um gesto de afago. Isto é circunstancial. A confiança não é só um sentimento de quem confia; ela é, sobretudo, uma via de duas mãos. A formiga e o cão desempenharam o seu papel. Também o homem, na disputa de um gole d’água é capaz de matar o camelo, ainda que se arrisque a atravessar o deserto a pé. Onde está a lógica? Por isso, o estudo das leis do raciocínio, ou da justeza do raciocínio, parece-me que está fortemente presente na parte da vida psíquica da qual não se tem consciência. Isto é verossímil. A imagem que a lealdade projeta não carrega sombra.

Outro prato salgado de digerir: a ética. Remoemos; ruminamos ressentimentos. Ética: s.f. (Filos.) Conjunto de regras e de valores ao qual se submetem os fatos e as ações humanas, para apreciá-los e distingui-los; moral. Os códigos de ética, e as suas regras como bengalas, estão aí não para serem seguidos, e sim para serem quebrados, porque não passamos de clichês. Temos que nos esforçar para sermos puros de intenções; verdadeiros; autênticos; mesmo que para isso tenhamos que esquecer a nossa raça – ainda que momentaneamente. A subserviência tem sido um dos males dos séculos. Do indivíduo que se submete servilmente (servil) a alguém não se espera a tão desejada lealdade, como presunção.

Nervos dando lugar a feixes de egocentrismos. O egocêntrico faz do próprio eu o centro de interesses; estabelece modelos comportamentais. Na verdade, o egoísta sofre de recalques – (Psic.) Ação ou efeito de excluir do domínio da consciência ideias, sentimentos, desejos, que vão se instalar no subconsciente –, frustrações (desilusões, decepções, malogros). Isto tem uma influência direta no conceito de “lealdade”, quando dele parte tal atribuição. O egoísmo é o amor exclusivo a si mesmo, sem cuidar dos interesses alheios. Que se danem os outros!

A lealdade está para quem a percebe, assim como a beleza está para os olhos de quem a vê. O conceito de feio para mim pode representar o belo para outra pessoa. De modo que a lealdade é uma questão de percepção, o juízo de valor que cada qual faz do seu semelhante. Vivemos num mundo de ‘achismos’, porém, de poucas certezas. Entre amizade e lealdade existem diferenças sutis; daí é comum se estabelecer confusão. A amizade – no sentido de afeto de amigo; apreço; estima; dedicação; camaradagem; coleguismo – é um sentimento amovível, muito embora tal afirmação possa parecer paradoxal. Por necessidade, elegemos um ‘melhor amigo’. O nosso ‘melhor amigo’ também elege um ‘melhor amigo’. Será que o ‘melhor amigo’ do nosso ‘melhor amigo’ somos nós?

Fenomenologicamente, os simples mortais cometem erros quando julgam ou prejulgam – ninguém deveria ter esse direito. O tribunal da vida, mais cedo ou mais tarde, julgar-nos-á. Não há como fugir dessa realidade. A mais aparente paz pode se transformar numa tormenta sem precedentes. Nas relações humanas existe de tudo: céu de brigadeiro, formação de nuvens cinzentas, relâmpagos, trovoadas, bonança, enfim… Vivemos e nos comportamos como se fossemos eternos. A efemeridade da nossa existência parece não nos incomodar. Empinamos o nariz e colocamos os pés na estrada. Carregamos a bandeira do “Não façamos aos outros aquilo que não queremos que nos façam”, todavia, no primeiro momento de risco real aos nossos interesses pessoais, tratamos logo de colocá-la a meio-pau. Verdade é que ‘a dor física não significa, necessariamente, a redenção da alma’. O modo de ser ou estar; a situação; o conjunto das condições físicas e morais de uma pessoa precisam ser repensados. Nem por isso o estado de espírito venha sofrer adaptabilidades.

Estamos todo o tempo exercitando, mas não passamos de ‘incógnita’ na equação da vida. Na prova dos nove, não sobra nada. Uma filosofia oriental para a nossa reflexão:

“O maior dos homens é ninguém”

Augusto Avlis

(*) Kleber Branquinho Adorno, mais conhecido como Kleber Adorno, nasceu em Goiânia em 17 de dezembro de 1953, é escritor, poeta e político brasileiro. Foi Secretário Estadual de Cultura de Goiás e Deputado Estadual. Começou sua vida pública como escritor. Publicou o primeiro livro aos 13 anos de idade. Trabalhou como piloto civil, advogado, professor universitário, filósofo, articulista e político. Foi presidente da União Brasileira de Escritores, Seção Goiás (UBE-GO) por dois mandatos.
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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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