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Naturismo

A nudez vestida

A nudez vestida

Senhores Naturistas, por gentileza, deixem as suas roupas espirituais no guarda-volumes”.

 

Recomendo este aviso na entrada de todas as áreas reservadas à prática do naturismo, estejam elas no Brasil quanto no exterior. A sua afixação deve ser em local de boa visibilidade que permita uma leitura obrigatória. Que a construção do guarda-volumes obedeça às normas técnicas vigentes e possua espaço suficiente para grandes quantidades.

Mesmo sem as vestes, os homens não conseguem se desvencilhar das mazelas oriundas do convívio sociológico tradicional. Os humanos não conseguem largar determinados vícios de comportamento como se segura uma bolsa cheia de dinheiro ou jóias. A ausência de roupas não significa, necessariamente, estar naturalmente nu, despido. O desnudar-se vai muito além do ato de tirar as roupas que cobrem temporariamente o nosso corpo. Decorre desse processo uma atitude sublime, subliminar, um sacramento que, apagando os pecados originais, admite os naturistas num mundo ainda desconhecido, distante da nossa vil pretensão. O incorpóreo, o imaterial perde a beleza, muito embora a natureza nos aponte para a sua contemplação, como forma de consolo, e não nos damos conta disso. Somos superiores, intocáveis.

Como participar de um processo de mentalização, como agir misticamente, como desenvolver a espiritualidade, se nos preocupamos demasiadamente com quem está do nosso lado, no sentido de vigiá-lo, de persegui-lo, de criticá-lo, de desaboná-lo, de perturbá-lo, de limitá-lo, despojá-lo, humilhá-lo, preferencialmente na presença de semelhantes? Não, definitivamente não temos a relativa competência para romper com os padrões previamente estabelecidos. Não, não queremos tapar os olhos para que as visões “permaneçam acesas”. Se nego o meu igual estou negando a mim mesmo. Somos reflexo dos nossos condicionamentos? Arrogamos qualidades inexistentes, a insolência nos devora, a indulgência impossível.

No outro eu me completo. A subjugação é determinante para o alimento do meu ego. Cresço nas diferenças apontadas e delas extraio a essência do saber. Corro, mas não saio do lugar; busco, mas não encontro; tento me encontrar e me perco; no espelho da vida, não me vejo; somos seres sem sombra; não existimos. Somos anjo e demônio; virtude e pecado; grito do silêncio. Somos a dor sentida; um nó na garganta; fel na boca; lágrima seca. Somos escravos da ira; a real metamorfose da ignorância assistida, sem estágios intermediários. Somos página virada; uma obra mal acabada; um poema sem rima; uma falta absoluta. Somos órfãos da sensatez; imagem pálida do horizonte perdido; a saudade que não se quer ter. A pureza de intenções, quimera. Quem somos? Não sei!

A energia da renovação e mudança está fragilizada, o que dificulta a abertura das portas para o perdão, para a harmonia e para o equilíbrio interior. O som da liberdade deve ser entoado como oração. Somos seres transmutáveis. O desenvolvimento de canais energéticos depende somente de nós; façamos por merecer a descoberta de novos caminhos para que o nosso adormecer e o nosso despertar estejam conectados com todos os seres vivos deste planeta – talvez nos encontremos no tempo e no espaço verdadeiramente naturista.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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