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Naturismo

Eu me permito

Eu me permito

Imagine uma praia naturista ser transformada em monastério, repleto de cenobitas, vivendo austeramente. Não, não dá pra presumir. Como não dá pra conceber outro recanto naturista qualquer, onde a prática esportiva fosse monitorada, sob os olhos de uma pessoa encarregada de admoestar sobre a observância de estatutos rígidos, de dar avisos constantes ou de auxiliar na instrução segundo a sua vontade. Não dá pra compreender como questões relacionadas a lazer, bebida, churrasco, música, descontração, festa, confraternização, enfim, ainda sejam citadas em retóricas quando o tema é Naturismo; isso pode parecer enfeites exagerados na linguagem. Tais pontos, lembrados como se fossem os únicos citados na lista de presença em praticamente todos os eventos naturistas – os prazeres são destes inseparáveis –, de modo que não devemos tentar desvincular uma prática da outra como se desossa um pernil.

Nesse entretempo, em qual clima ou atmosfera devemos receber os novatos? Qual a imagem que devemos passar? Áreas naturistas não são abrigos de refugiados! Escrevamos placas de comunicação: É proibido proibir. Semântica à parte, as pessoas são atraídas a experimentar algo proibido porque é estimulante, a sensação é de devaneio, capricho da imaginação. Duvido que alguém saiba prescrever para os outros a dosagem correta dos medicamentosos – tarja preta – conhecidos como “Faça o que eu faço”, “Não vá na onda”, “Siga o exemplo”, “Fique na sua”. Como seria a vida se tomássemos esses remédios? Lógico, seria insossa, sem graça, sem espírito. Cuidado: Não se deixe contaminar pelo mau humor! A busca pelo equilíbrio evita transtornos emocionais. O autocontrole delimita os limites. O domínio de si próprio, esta não é a mensagem que todos pregamos? Aprendi com um médico que a pior ressaca é aquela causada pela intolerância.

Tim Tim. Saúde; a nossa; comemoremos. Confraternizemos, saudemos a vida. Traga-me um bom pedaço de carne mal passada, outra cerveja bem gelada – ligue o som. Dai-me um abraço amigo, sente ao meu lado, conversemos, conte-me tudo para poder contar comigo. Cantemos, pulemos, brinquemos, deixemos o nosso lado criança se manifestar e o adulto compartilhar um largo sorriso, uma lágrima, uma confidência. As amizades necessitam do fortalecimento das suas bases. O infortúnio é derrotado pela convivência fraterna. Permita-me dizer que entre nós não há diferenças. Percebes que a nudez nos nivela, coloca-nos em pé de igualdade. O mundo lá fora é bastante competitivo, a sociedade vestida vem perdendo os seus valores em progressão geométrica, sem escrúpulos. Permita-me dizer que aqui dentro não pode haver espaço para outras formas de relações, sobretudo conectivas. Permita-me ficar à vontade, sentir-me livre como um pássaro, que quase não tem a sua beleza observada, porque comumente as pessoas estão preocupadas com coisas menores, sem importância. As flores nos presenteiam com o seu encantamento e nos inebriam com o seu perfume, mas há quem as pise, sem piedade. Permita-me alçar o meu vôo, sem co-piloto.

Permita-me ficar nu para entender melhor as pessoas, caso contrário corro o risco de ser mal interpretado. Quanta presunção, quanta vaidade… Quem somos nós para proibirmos alguma coisa de alguém? Se não somos felizes, deixemos que os outros sejam. O respeito ao direito de ir e vir é uma via de duas mãos – não há retornos ou trânsito preferencial. Permita-me dizer que críticas destrutivas constroem desavenças espontâneas. Permita-me dizer que os antolhos foram concebidos para direcionar a caminhada num único sentido, ao passo que a visão periférica nos permite desviar dos obstáculos e encurtar distâncias. Eu me permito errar para aprender a consertar. As brincadeiras revelam seriedade, na mesma proporção que a concentração sem propósito nos conduz a reflexões sem sentido. As árvores perdem as folhas no outono, nem por isso deixam de dar flores na primavera e frutos no verão.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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