21ª Crônica
O Devasso – 1ª parte
O Bucolismo, o clima campestre, a tranquilidade, a paz e até certa monotonia se destacaram até então no Condomínio Village de Itaparica – 7ª Etapa, aqui em Vila Velha, ES, segundo os seus moradores mais antigos. Contudo, esta rotina fastidiosa – de acordo com a opinião dos mais novos – foi quebrada por uma moradora, ainda não identificada, que vem cumprindo, religiosamente, a sua agenda trissemanal de trepadas cronometradas. É de dar inveja. Infalivelmente, entre duas e quatro horas, essa cidadã histérica rompe o silêncio da madrugada com os seus gritos luxuriantes e escabrosos, com os seus gemidos de pomba rola, com os seus procedimentos agitadiços, denunciando mais um orgasmo atingido, cujo somatório, na média do período, deve chegar a seis – estatística orgástica confirmada por um economista da Secretaria Estadual da Fazenda. Pelo menos a circunvizinhança de uns cinco blocos de edifícios se deleita, também, com um prazer paralelo, ou seja, o da contemplação das belezas noturnas, já que não consegue dormir.
O pessoal do condomínio só se vê ou se reúne nos casos de calamidade pública, catástrofe, queda de gato duma árvore (junto com a árvore), enfim, em casos de morte por suicídio de gente conhecida, ou outro acontecimento marcante. Ti-ti-tis e mexericos são comuns nos encontros casuais, agora não tão dependentes do acaso assim porque o sexo praticado pela escandalosa se tornou o principal assunto do dia.
– Deve ser uma nova moradora. Moro aqui há 25 anos e ponho a minha mão no fogo por todas as mulheres que eu conheço, até porque jamais se prestariam a esse papel infame e promíscuo.
Comentou a viúva do 301, segurando um saco de pães com a mão esquerda, enquanto que a mão direita fazia o sinal da cruz. Esta senhora desamparada, nesse entretempo, já estava no pátio da 7ª Etapa tentando arregimentar um grupo de pessoas militantes, sob o seu comando, que marcharia com a missão de descobrir a verdadeira identidade da atriz pornô ou de uma possível candidata à prostituta rainha vilavelhense.
Formado o movimento revolucionário, juntaram-se a esse esforço organizado outras tantas mulheres solteiras, descasadas, carentes, mal amadas, velhas e novas, felizes, infelizes e parturientes, feias e bonitas, santas e santos, pastores e fiéis, gays, lésbicas e homossexuais, homens bons e ruins, empregados e desempregados, de terno e mal-ajambrados, bêbados ou quase, enfim, tinha de tudo, inclusive menores fugitivos da FEBEM, gente de toda a raça e credo – ficaram de fora os políticos por uma questão lógica: não tinha espaço para mais putas e oportunistas de ocasião.
Não se sabe donde, mas o fato é que apareceram faixas, cartazes e até panfletos com anúncios de críticas em linguagem violenta, cantada em verso e prosa pelos amotinados:
– Fora vagabunda.
– Coloque uma mordaça sua vadia e ordinária.
– Não se atreva a mexer com os nossos maridos.
– Lugar de meretriz é na zona.
– Vá embora sua piranha e leve o descarado do seu amante junto.
– Fora FMI.
– Fora Lula.
– Eh, seu juiz vai tomar no C@#!$%U.
– George W. Bush, o Anticristo.
– Em defesa da sacanagem silenciosa.
– Vá para Brasília que lá é o seu lugar.
E a sacanagem continua…
Augusto Avlis
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Pingback: Um cavalo chamado “Heury” « Opinião sem Fronteiras - 31/10/2012