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Política

Polítitica – 4ª Crônica

Holofotes ligados, câmeras posicionadas, contra-regras em alerta, porque vai começar o Big Brother Político versão 2002. A partir desta terça-feira, dia 20, entra oficialmente no ar o programa eleitoral, quando os partidos políticos, dentro do espaço de tempo que lhes é permitido, exibirão os seus candidatos aos brasileiros. Renova-se a cada período de dois anos o quadro de atores dos mais variados matizes – participantes contumazes de espetáculos de calhordices. Para alguns experts em mídia televisiva, inicia uma guerra real com munição também real. Em 2004, os atores de segunda linha, candidatos às Prefeituras e Câmaras Municipais, estarão também congestionando os salões de beleza.

No estrelato dos bastidores da política, faz sucesso um artista coadjuvante conhecido como Marqueteiro – prefiro chamá-lo de “Profissional da Comunicação Subliminar” –, cujo cachê chega à casa do milhão no plural, livre da bilheteria do filme ou da peça de teatro. Esses executivos da publicidade movimentam vultosas verbas, notadamente para a produção das campanhas dos candidatos a Presidente da República, chamada Brasil, Estado Democrático, onde já se questiona o “voto obrigatório”. País do futebol, onde o seu representante maior nesta modalidade de esporte um dia afirmou que o brasileiro não sabe votar. Ora, se todos jogassem bola como ele, certamente o voto seria facultativo, ou facultativa a “presença obrigatória” do eleitor na seção eleitoral, ou, quiçá, a própria eleição.

Os publicitários responsáveis pelas campanhas políticas sabem perfeitamente do poder do Marketing como “ciência da conquista” e têm consciência dos efeitos maléficos que a produção de uma comunicação de massa, fundamentada numa estratégia de linguagem que permite mecanismos de doutrinação, idiotização e dominação cultural, pode causar no público eleitor, principalmente quando este se deixar conduzir para um estágio de completa catarse. Portanto, longe das exposições de palanque, mas, momentaneamente pertos da fama, os publicitários ainda não descobriram que primeiro precisam criar a necessidade de consumo para depois criar o produto que venha a satisfazê-la. Para identificar a necessidade de consumo do povo o uso de uma lupa é dispensável, basta apenas olhar para o lado e constatar a sua carência de ídolos e líderes carismáticos, alguém que possa ser referência, por exemplo, de moralidade e de valores éticos. Estão descartados o Didi e a Xuxa de qualquer pesquisa nesse sentido.

O Marketing político tem por missão precípua três estágios fundamentais: primeiro, agregar valor específico, mesmo que subliminarmente, ao processo da comunicação política, focando a construção, a revitalização, a projeção e a preservação da imagem do candidato – em todas as suas escalas de representatividade – junto às comunidades em geral, órgãos de imprensa e mundo político, prevendo-se os reflexos internacionais; segundo, trabalhar procedimentos que denotem segurança e equilíbrio no trato das questões públicas e no relacionamento com as instituições formadoras de opinião, gerando confiança e credibilidade; terceiro, desenvolver a propaganda e campanhas publicitárias do candidato em consonância com os critérios e filosofias políticas traçados pelo grupo partidário, capazes de dar sustentabilidade ao colégio eleitoral.

Por premissa, o candidato passa a ser o produto e o Marketing político se sobrepõe a ele. Para que o Marketing produza os efeitos desejados, através de uma comunicação dirigida, não podem existir quaisquer formas de “ruídos” entre ele e o produto que se pretenda trabalhar ou “vender”, preferencialmente.

O “brief” é discutido numa linha reta envolvendo as duas partes do processo comunicacional. Interferências paralelas, notadamente provenientes de “fontes alheias” como jogos de interesses, costuras políticas e promessas postuladas colocam em risco as estratégias e podem expor a confidencialidade que o assunto requer. O que fazer? Como fazer? Quando fazer? Quais os meios apropriados? Estas são perguntas que devem ter as respostas definidas nos contatos em níveis superiores com a presença obrigatória do candidato.

Pesquisas de intenção de voto mostram tendências, mas também podem ocultar importantes informações, por vezes, confundidas com manipulação. O tamanho da amostra, idade, sexo, condição sócio-econômica e escolaridade dos eleitores são variáveis imperativas quando da formulação dos questionários. Na realidade, as pesquisas podem ser comparadas aos biquínis das mulheres: “mostram tudo, menos aquilo que a gente quer ver!”. As margens de erros e acertos, quando não interpretadas, fazem estragos, mas, os mercadólogos de previsões dizem que em pesquisas eleitorais a diferença de 2,4 pontos percentuais, para mais ou para menos, é desconsiderada, porque vale para todos os candidatos. Agora, vestindo a pele do eleitor, gostaria de saber qual fatia da massa crítica dos entrevistados escamoteia o desinteresse pela política; não acompanha o assunto ou não é politizada por várias razões; sem contar, é claro, com aqueles que mentem descaradamente – por sacanagem explícita, como os políticos.

O show vai começar. O Big Brother político terá a maior audiência de todos os tempos. No vale-tudo pelo prêmio de R$ 500 mil, desculpem-nos a falha, pela preferência do eleitorado, todos os candidatos evitarão jogar “M” no ventilador. Há de se considerar um fato: qualquer planejamento estratégico de comunicação perde a condição de ‘imexível’ e o seu caráter de unicidade. Sofrerá constantes alterações em decorrência dos rumos e desvios de filosofias impostos pelos candidatos concorrentes. Duda Mendonça, publicitário encarregado da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, sabe que serão muitas. Por outro lado, ninguém é suficientemente competente para prever que se o Lula raspar a barba crescerá de um dia para o outro dez pontos percentuais nas pesquisas de intenção de votos – implantar o dedo mínimo da mão esquerda, ou cortá-lo da mão direita, por enquanto, são pretensões descartadas.

Crises serão forjadas, assim como especulações. Frases prontas como “Temos que investir na produção”, “Temos que criar mais empregos”, “Temos que acabar com a fome e com a miséria”, “É hora de mudança”, “Temos que acabar com os ganhos fáceis provenientes do capital especulativo”, “Morte aos banqueiros”, etc. precisam ser repensadas, enfim, os publicitários devem procurar outros caminhos. Permitir que o produto chamado “candidato” deixe transparecer que pretende acabar com os ricos só para agradar a massa de miseráveis eleitores, é o mesmo que levar a erro de julgamento esses pobres incautos e estimular ainda mais a pobreza por vias indiretas.

O passaporte para a cidadania depende de cinco pontos capitais: casa; comida; saúde, educação e emprego (trabalho). As outras necessidades, secundárias, vêm a reboque, como transporte, lazer, enfim, o importante é que não se castre do cidadão o seu direito de ir-e-vir, a liberdade de opinião, a dignidade. De nada adiantará querer reinventar a roda. Os candidatos devem falar ao coração do eleitor, com simplicidade, sobretudo, abrindo mão de expedientes sujos e enganosos, porque não há mais espaço para isso; ou pelo menos não deveria existir.

O Marketing político tenta descartar o fisiologismo como recurso oportunista e está deveras compromissado com o passado do candidato, desde que revelado na sua essência. Opiniões de consenso revelam que o Marketing político faculta ao publicitário trabalhar com “todas as verdades”, com “meias verdades”, ou, se preferir, com “todas as mentiras”. Aí reside o perigo, na medida em que os maus profissionais acreditam que no mercado da informação tem público consumidor para cada um desses produtos criados. E é verdade!

Seja quem for o novo presidente, devidamente maquiado para não refletir as fortes luzes dos holofotes, dependendo de quem financiou o palco, este será capaz de estabelecer uma nova ordem política: “Todas as galinhas do reino para o rei”. Mas, também será capaz de enfatizar que o rei não deve deixar os seus súditos morrerem de fome, até porque eles precisam comer algumas galinhas para manter viva a espécie e cada vez mais forte o reino, antes que algumas raposas mais vorazes cheguem na frente.

E os “Profissionais da Comunicação Subliminar”, na plenitude do exercício da sua missão, não têm o direito de transformar a imagem do político vencedor em outra simples mancha na vidraça.

 Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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