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Política

O ladrão de porcos

O ladrão de porcos

Toda manhã passava um cara numa determinada rua com um saco de linhagem às costas. Carregava alguma coisa dentro. Era volumoso e parecia pesar. Passo a passo o homem seguia seu caminho, dia após dia. A sua rotina não incomodava, também não chamava atenção. Nesse processo tinha algo de curioso: no sentido contrário, ele trazia o saco vazio jogado nos ombros; quando voltava, o saco estava cheio. No primeiro trajeto, saco vazio; no segundo trajeto, saco cheio, e assim sucessivamente. Só aconteciam dois trajetos no dia. Deduz-se que o peso do que carregava deixava-o cansado a ponto de não suportar fazer a segunda viagem de ida e volta. Não parava, sequer entrava num bar para beber água, cabeça baixa, respiração ofegante.

O tempo fechou inesperadamente, nuvens negras, relâmpagos, trovoadas, pingos grossos, gente correndo, abrigando-se sob as marquises. Aquele homem seguia, sob a chuva torrencial no seu segundo trajeto, com o saco cheio. A chuva apertou, o barulho dos trovões parecia mais contundente, os relâmpagos assustavam. O belíssimo espetáculo da natureza fez despertar algo que parecia imóvel dentro daquele saco de linhagem, aparentemente mais imundo do que no dia anterior; talvez a própria água da chuva tivesse soltado o encardido do pano tosco. Olha que, de repente, movimentos visíveis dentro do saco, que se movia lentamente para o lado direito, para o lado esquerdo, para cima, para baixo. Não ventava, por isso, o homem que carregava o saco cheio no segundo trajeto balançava o corpo nos mesmos sentidos para justificar a quebra da inércia causada por quem ou outra coisa que fazia encher o saco. É o imponderável.

As pessoas começaram a sair debaixo das marquises, incrédulas, querendo saber o que era aquilo. O homem demonstrava desconserto, seus passos não eram os mesmos; as pessoas o seguiam em silêncio, mas com a curiosidade aguçada. O saco se movia o padre se benzia. Cruz credo dizia a beata fazendo o sinal da cruz. Quebrando a ausência de sons, um grunhido sai de dentro do saco cheio. Correria, tropeços, quedas, contusões, confusão. O homem que carregava o saco cheio no segundo trajeto assustou-se e eis que o animal põe a cabeça para fora do saco cheio. O homem tenta correr com o saco cheio, os grunhidos são mais constantes, as pessoas voltam a se reunir e partem para a ignorância: “pega, pega, pega, pega”. Um policial o agarra e o separa do saco cheio. O bicho cala e ouve-se a voz do herói policial: “Que porco é esse?”. O homem sem saco rebate: “Quem colocou esse porco aí dentro do saco?”. O homem completou: “Eu só carrego sacos vazios”. O homem sem o saco cheio levou um cachação e foi liberado. O povo liberou o policial e levou o porco para o abate.

Um político de plantão (descobrimos mais tarde que era candidato a vereador), aproveitando a multidão, tentou fazer campanha e perguntou: “O que é que aquele eleitor carregava dentro deste saco vazio que chamou tanto a atenção?”. As pessoas aos poucos davam as costas, seguindo o porco gordo em cortejo, enquanto o candidato ao executivo municipal pôs-se a falar sozinho. Um bebum, também de plantão na choça, respondeu categoricamente: “Ô meu irmão, um igualzinho a você”. Mandou mais uma: “Donde saiu esse, tem muitos outros, e é para lá que V. Exª quer ir”. Moral da história: ninguém quer assumir a paternidade dos seus porcos, nem mesmo o ladrão de suínos. O político, pra não perder o costume, roubou o saco vazio.

A filosofia popular é extraordinariamente irreprochável. Todo dia temos coisas para aprender. Até me dá vontade de formular um novo conceito para a política brasileira: “A política brasileira é uma grande pocilga, onde entram os porcos magros, e saem os porcos gordos”. A limpeza da pocilga nacional deve obedecer a alguns procedimentos básicos, a saber: trocar o oxigênio do país, usar a água do mar (há sal nela), escanhoar o chão onde os porcos pisaram, não colocar porcos vivos em sacos vazios. Trocar o povo. Putz, falei besteira! O arco-íris apareceu.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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