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Esportes

Coisas do Futebol – 2ª parte

Coisas do Futebol – 2ª parte

Em outubro de 2004 eu escrevi este artigo esportivo – sei que foi naquela data porque guardo os manuscritos comigo na gaveta da cômoda. Boa parte dele foi parar nos jornais porque era um assíduo colaborador da coluna Opinião do Leitor, embora as vezes perdia a paciência com a mídia impressa pelo fato de ela sempre suprimir palavras, fazer desaparecer parágrafos, alterar o conteúdo, mexer na pontuação, enfim, coisa de jovem jornalista ou perseguição de velhas raposas da caneta. O mais interessante é que os textos que escrevi naquela época são tão atuais que chegam até a balançar as arquibancadas.

Romário uma vez disse que é o maior jogador do Brasil, depois da geração Pelé. Há de se considerar um fato: a história do futebol brasileiro, antes e depois de Pelé. São duas épocas distintas, separadas por gerações, que aprenderam a torcer pelos seus times do coração em escolas diferentes. Jogar futebol, por amor à camisa, que despertava o espírito patriótico e causava arrepio na pele, é um sentimento que ficou no passado. Hoje, a possibilidade de se assinar contratos com clubes internacionais, na casa dos milhões de dólares, sobretudo Euros, estimula espetáculos individuais, em detrimento do conjunto – o importante para o jogador é ser estrela e produto em destaque na prateleira esportiva. A pátria de chuteira foi trocada por uma polpuda conta bancária. O jogador do terceiro milênio tem canela de cristal, não entra em dividida, torna-se presa fácil dos chacais empresários. A imprensa esportiva colabora.

O futebol é um esporte coletivo, portanto, o jogador não joga sozinho, depende dos passes dos seus companheiros. A partir daí, nascem as famosas jogadas de placa. O futebol arte acabou na década de 70, poucos anos depois da conquista do tricampeonato mundial. Nem comento sobre as Copas de 74 e 78. Cartolas passaram a investir no futebol como empresa comercial e os jogadores tratados como mercadoria vendável. Aparece, nesse contexto, um divisor de águas: a mídia criando ídolos e heróis para a idolatria do povo.  No país das metáforas, o uso excessivo de adjetivos pela imprensa especializada (o que já virou regra na mídia), como “Fenômeno”, “Fabuloso”, “Imperador”, “Rei do futebol”, “Rei da bola”, “Magnífico”, e tantos outros, se encarrega de forjar personalidades esportivas (alimentando o ideário da massa), até mesmo sem os jogadores merecerem os tais qualificativos. Que desagradável! Galvão Bueno que me perdoe, ele é o maior culpado, e ainda dá uma de babão, fazendo caras e bocas.

O próprio Pelé sabe (ele é humilde) que tem muito que agradecer a Pepe e a Coutinho, seus leais companheiros do Santos. Romário, antes de pensar em se titular herdeiro do trono, deveria citar os seus parceiros dos times, pelos quais passou (Olaria, Vasco, Flamengo), que o ajudaram a construir uma carreira de sucesso. Atletas são estigmatizados pelo que fizeram, dentro e fora do campo, e nunca pelo que se julgam ser. No gramado, dentro das quatro linhas mágicas, são 11 as posições e funções desempenhadas, portanto, não existe o melhor, nem o maior jogador. O pior jogador deixa que a mídia eleja. Sem a interferência de fontes eletrônicas de comunicação, vamos dar oportunidade para que os torcedores, de arquibancada, julguem também. E que se faça justiça à bola. Ah, se ela pudesse votar, ou reclamar dos maus tratos…

Acho que não, os torcedores são levados pela paixão – quando se é (não estar) apaixonado a razão fica irracional. Os “Geraldinos” e os “Arquibaldos” devem estar se perguntando como os times do Rio de Janeiro chegaram a esse ponto. Eu, particularmente, arrisco algumas opiniões, sem correr o risco de ser apedrejado pelas torcidas apaixonadas. Não é de hoje, os dirigentes dos grandes clubes do Rio de Janeiro não conseguem desatar o nó que os prende, digamos assim, à “máfia administrativa”, tornando clara a incompetência em gerir a “coisa pública” chamada futebol. Os jogadores têm levado para dentro do campo a instabilidade provocada pelos dirigentes fora dos gramados e não raras são as vezes que assistimos cenas deploráveis de violência e xingamentos generalizados, até mesmo dirigidas a colegas do próprio time. Por sua vez, as comissões técnicas não cansam de utilizar o velho expediente do “precisamos de reforços” e, achando-se num mato sem cachorro, fecham os olhos para a realidade. Se tudo isso não bastasse, os juízes parecem que entraram na onda do desinteresse coletivo e têm cometido erros clássicos de arbitragem, influenciando nos resultados dos jogos, escorados na impunidade. Lembram-se da campanha promocional das Notas Fiscais, realizada pelo Governo estadual e pela Federação de Futebol do Rio, para motivar a ida dos torcedores aos estádios? Eu sei que os torcedores têm memória curta, só se recordam das vitórias dos seus times. Mas, a aludida campanha promocional, por si só, não resolveu o problema – ainda falta muita coisa, a começar pela reeducação dos jogadores, compromisso e profissionalização dos dirigentes.

Veja o exemplo do Campeonato Brasileiro, que obedece a norma de pontos corridos. Sou a favor de qualquer critério, desde que previamente pactuado com os times e por eles homologado. As regras são claras. Os cartolas, que comandam o futebol brasileiro, é que ainda não aprenderam a administrar os seus clubes como as empresas legalizadas fazem. O bom jogador não pode ser olhado o tempo todo como mercadoria em escassez e, portanto, supervalorizada no supermercado das conveniências – da mesma forma, é ilegal a produção em série de atletas de laboratório; veja o exemplo do Zico.  Acho que a proposta de pontos corridos não é a questão mais importante. O que tem que ser discutida é a tabela de jogos, cujas rodadas se entrelaçam com outros campeonatos. Isso é mau para os jogadores pelo desgaste decorrente. E, sabendo da brevidade da carreira, os jogadores objetivam a rápida conquista da fama, implantam canela de cristal e se deixam colocar na cristaleira internacional. Mergulhada em todos esses problemas está a nova geração de torcedores que, por obra do destino, festejam o não rebaixamento dos seus times com a mesma paixão que eu comemorei o Tri. Só com uma diferença: naquela época, os jogadores tinham mais amor à camisa.

Temos assistido a campeonatos marcados por erros grosseiros e estúpidos de arbitragem, e nada acontecendo aos sopradores de apito! Os Bandeirinhas são meros atores coadjuvantes, cegos por conveniência e cúmplices explícitos das burradas cometidas pelos seus pares. Os torcedores, coitados, esses continuam se matando nos balcões dos bares. Aos cartolas do futebol, a recompensa do produto das maracutaias, o resultado financeiro das tramóias obtidas no tapetão e conchavos firmados com a CBF. Nada mal para um país exemplo ímpar de honestidade. Ninguém mais se incomoda de mostrar a cara, nem a imprensa esportiva que cria ídolos de barro para o deleite e contemplação da massa de torcedores regionais brasileiros – eternos sonhadores, fiéis escudeiros, carentes de boas referências, órfãos do patriotismo.

Augusto Avlis

Leia Coisas do Futebol – 1ª parte

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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