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Polícia e Segurança Pública

Drogas, epidemia mortal – 2ª parte

Drogas, epidemia mortal – 2ª parte

A triste conclusão a que se chega, é que os verdadeiros chefões das drogas, que de fato nunca são capturados, ninguém conhece, salvo os seus comparsas mais próximos. De onde “não se sabe”, continuam bem administrando o mercado das drogas como se fosse uma empresa legalizada; colocam testas-de-ferro à frente das organizações criminosas, fiéis escudeiros que, costumeiramente, se apresentam como responsáveis diretos pelo negócio e sempre estão dispostos a “segurar a onda” quando o “bicho pegar”.

Na verdade, quando presos, têm a certeza de que as algemas não ficarão por muito tempo apertando os seus pulsos, porque os “industriais das drogas” têm Know-How suficiente para tirá-los de qualquer encrenca. O seu dinheiro sujo, lavado ou não, tem o poder de aliciar autoridades da administração pública em quase todas as esferas; tem a força de corromper personagens importantes do mundo político e figurões a ele ligados; enfim, tem a faculdade de facilitar o total acesso e a infiltração dos soldados do tráfico (militantes diretos) nas polícias, com a finalidade, não só de “esquentar” o negócio vergonhoso, desonesto e fraudulento, como também, de estabelecer parcerias com os homens da lei, corruptos por profissão, visando interesses comuns. É o famoso “Toma lá, dá cá” do submundo do crime.

Com aliados desse naipe, o comércio ilegal das drogas corre livremente e na maior tranquilidade. É pública e notória a falência dos órgãos de repressão, da mesma forma o sucateamento da máquina policial. Na paralela, a impunidade continua sendo estimulada por quem deveria combatê-la, não com a cara, mas, com a devida coragem. Os nossos traficantes de carteirinha se dizem vítimas do sistema – podre nas suas bases –, e muitos alegam que chegaram onde estão protegidos pela sombra do poder. É aquela coisa: “Vai que eu garanto, mas traga resultado!”. Por sua vez, o chamado “Poder Paralelo” está se transformando em “Poder Unificado”. Prova disso, é que o crime vem se organizando, recebe financiamentos como qualquer empresa, se estrutura e se sofistica a ponto de se agarrar nas nossas instituições com seus poderosos tentáculos, num processo indolor.

Pelo menos, até aqui não há interesse que o planeta mude a sua órbita. Para se ter uma idéia da gravidade da situação, em matéria publicada num jornal de grande circulação no Rio, o rapper MV Bill, morador da favela Cidade de Deus, disse: “A polícia não pode ficar muito tempo nos morros, ela se limita a atacar os bandidos quando lhe convém, quando vem alguma ordem política, ou quando o arrego (propina) acaba”. Conveniências à parte, quando o tiro – disparado por um dos lados – é fatal, foi por acidente. “Desculpa, foi mal!”. A Justiça se mantém à distância. Põe distância nisso. Por missão, a polícia é uma instituição encarregada de manter a ordem pública e a segurança dos cidadãos, fundamentada num conjunto de leis e regulamentos específicos. Infelizmente, não vem cumprindo o seu papel constitucional. Alguém, urgentemente, precisa chacoalhar a árvore para que a “banda podre” da polícia caia estatelada – ou que a extermine de vez. Também vale arrancar a árvore, na impossibilidade de se alcançar os galhos.

Neste momento da realidade brasileira, não acredito em soluções em médio prazo, quanto mais em curto prazo. Enquanto houver atmosfera de total cumplicidade entre traficantes e maus policiais (ambos, deliberadamente, tomam parte em crime ou delito, são co-responsáveis diretos e coniventes na sua prática), e enquanto a corrupção policial, que, atualmente, já está chegando a um ponto insuportável, não for devidamente combatida na forma da lei, com isenção, com responsabilidade e, sobretudo, severidade extrema, a tal problemática das drogas, nas duas pontas, tráfico e consumo – que dantes não passavam de ocasionais –, só tende a se agravar e a se tornar insolúvel, um processo irreversível, pela regularidade e habitualidade.

Estatística estarrecedora: milhares de jovens, menores de dezoito anos, estão envolvidos diretamente com o tráfico de drogas na capital do Rio de Janeiro. Oitenta por cento deles trabalham “trepados” (armados) nas bocas-de-fumo cadastradas, perdão, levantadas. O efeito multiplicador, provocado por este número, por todo o Brasil, é extraordinariamente catastrófico. Outra questão a ser colocada nessa história toda, igualmente preocupante, é quanto à renovação constante do “exército do tráfico”, vez que as baixas são elevadas, e comuns, devido à guerra aberta entre os comandos das bocas-de-fumo pela disputa de novos mercados – são grupos com extrema rivalidade, hoje, em grande maioria. A ordem do dia é “passar o rodo”, não importando quem será “feito”.

Qual parcela da população favelada vive do comércio das drogas? Um, cinco, oito, ou dez por cento? Será que, verdadeiramente, isto importa? O certo é que os envolvidos têm emprego garantido – que já está se tornando formal com legislação própria –, sem as burocracias de praxe, sem a exigência de diplomas formais, sem a interferência do famoso “QI” (Quem Indicou), sem atestados de bons antecedentes, enfim, sem rigidez de carga horária e, sobretudo, com pagamento de salários de dar inveja a muito executivo do asfalto. Em cada esquina, em cada beco, o tráfico dispõe de um especialista em RH que tem por prática arregimentar jovens ociosos – novos soldados – que juram bandeira com a mão direita sobre o código de ética da facção criminosa, ao som do hino tocado pelos fuzis.

Num segundo passo, o gerente da boca coloca uma arma automática na mão deles, cujo treinamento se dá num corpo vivo, como primeira e derradeira prova de fogo. Os jovens, fascinados pelos agenciadores do tráfico, “compram” a idéia de poder e, sem perceberem, recebem o contrapeso dos riscos inerentes, por isso, morrem cedo demais – boa parte antes de completar a maioridade. A primeira regra, explicitada no manual de sobrevivência da “população carcerária virtual”, onde as grades são as toscas tábuas dos barracos, diz que a vida é o patrimônio menos valioso e que pode ser trocada por uma dívida de centavos. A regra número dois lembra que o dono da droga jamais pode levar um “banho”, uma “volta”, seja lá de quem for, sob pena de pagar com a própria vida e, comumente, com a dos seus familiares.

Essa mesma juventude, desocupada e improdutiva, sofre na própria pele as dores da falta de oportunidade, portanto, se converte em presa fácil. O não acesso aos bens de consumo pessoal, à educação estruturada, à cultura e ao lazer; tudo isso, aliado às desigualdades sociais, dá ritmo à escalada da violência. A “falta absoluta” e a escassez de renda são, apenas, mais dois temperos explosivos. A droga não é um componente fim nem primeiro, é, por natureza, o “meio”.

Diante disso, a “sociedade do bem” vem cumprindo convenientemente a sua parte: cria novos conceitos para ética, moral e valor e, sobretudo, procura dissimular o seu mais puro sentimento discriminativo, seletivo e racista – desgraçadamente ainda imperante. Se não bastassem todos esses fatores apresentados, dois outros não devem ser negligenciados: primeiro, a atual geração carece de boas referências, de ídolos, de ícones e, segundo, por incrível que pareça, nem mesmo as Forças Armadas (em franco processo de falência) estão querendo os jovens brasileiros nos seus quadros, muito pelo contrário, há pouco tempo estavam dispensando as tropas antes do tempo de serviço obrigatório em decorrência da falta de recursos – faltava dinheiro até pra comprar comida e suprimentos básicos, mas o Governo federal não parava de gastar dinheiro público com propaganda militar convocando os jovens em idade de alistamento, para que se apresentassem no Exército, na Marinha ou na Aeronáutica. “Brasil, um país de todos” – onde poucos são privilegiados.

Este é um capítulo para ser tratado com maior profundidade pela sua importância, na medida em que se pressupõe que o Governo federal desconsidera outro fato: As Forças Armadas podem resolver, em grande parte, ou toda, o problema porque passam os jovens brasileiros (rapazes e moças) que se encontram absolutamente excluídos do mercado de trabalho, mas, à mercê do tráfico por opção mais prática. Através de uma legislação específica, as três Forças principais, inclusive as Forças Auxiliares, promoveriam um recrutamento em massa, elevando o tempo de serviço obrigatório, sendo de dois anos para as mulheres e de quatro para os homens. Além dos treinamentos básicos, seriam ministrados outros cursos profissionalizantes, preparando-os para a vida civil e, a rigor, oferecido um amplo plano de carreira militar. Deixar a farda, só com emprego garantido na vida civil. As nossas fronteiras são imensas e precisam ser vigiadas e salvaguardadas. Há interesse?

Os governantes deste país precisam descer do pedestal e parar com essa mania do imediatismo, achando que o tempo se encarrega de fazer as pessoas esquecerem. Ora, se o tráfico está formando um exército, por que o “Brasil auriverde” não toma a dianteira e salva os seus próprios filhos, assumindo a paternidade de fato e de direito, e, sobretudo, lhes dê um banho de civilidade e patriotismo? Ainda há tempo, antes que tenhamos um “Iraque particular” dentro das nossas fronteiras, ou, quem sabe, uma Colômbia, uma Bolívia, ampliadas.

Como se produz traficantes como Fernandinho Beira-Mar, Dênis da Rocinha, UÊ, Robertinho de Parada de Lucas, CY de Acari, Escadinha, Meio-Quilo, a maioria já morta e provavelmente fumando o cachimbo da paz em alguma nuvem negra? O certo é que, aqui embaixo, o índio já deixou de fazer boa fumaça faz tempo. Quem comanda a “linha de produção” de marginais traficantes não tem o mínimo interesse em desligar a máquina, porque o mercado das drogas é promissor e a pedida aumenta frenética e aceleradamente na ponta do consumo – objeto de descriminação. Consumir drogas alucinógenas deixou de ser crime; essa realidade está se cristalizou, infelizmente.

A Lei da Oferta e da Procura se encarrega de regular o negócio, que se fortalece, na medida em que os preços das drogas no mercado de consumo tendem a aumentar na proporção direta do aumento da repressão policial armada – o que é difícil de conseguir fica mais caro. Por outro lado, os “donos das fábricas” se apresentam para a sociedade como “pessoas angelicais” e garantem guarida para o “produto traficante” que delas sai, além de estimularem o fiel desempenho da sua missão, e assim conseguirem maior participação no montante da moeda maldita, a qualquer tempo e custo.

Na verdade, muito dinheiro está em jogo no comércio das drogas ilícitas. Anualmente, o narcotráfico movimenta, no mundo, algumas dezenas, e talvez centenas, de bilhões de dólares, valor este superior, portanto, ao PIB de muitos países, segundo recentes estudos feitos por organismos internacionais. Mercado nada desprezível, com Marketing direcionado e empresas multinacionais “legalmente fundadas”. Para se ter uma idéia desse cenário, só na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, o tráfico movimenta cerca de R$ 50 milhões, mensalmente. É fácil compreender este valor. Na Colômbia, ou na Bolívia, se compra um quilo de cocaína por muito pouco se comparado com o preço de venda da droga depois de batizada. Traficantes possuem o “ritual do batizado” e chegam a apurar uma margem estrondosa de lucro da ordem de 1000%. Portanto, sobra dinheiro para alimentar a corrupção e estimular aqueles que dela se nutrem. Neste particular, repito, as fronteiras entre o bem e o mal se confundem; onde começa uma e termina a outra não sabemos. O mundo está caminhando para o colapso social, e isso é imperativo.

Pouco tempo se passou depois que outro mundo, o artístico, começou a consumir drogas como referência de valor positivo e como atitude agregadora de status. Olha só no que se transformaram os chamados movimentos para a “liberdade de manifestação do pensamento da juventude”, o mundo considerado real-normal, por ela, não poderia ser mais o mesmo depois de Woodstock. Muita coisa se passou; muita coisa mudou; muita coisa piorou.

Faço questão de enfatizar uma passagem de Waldir Paiva Mesquita: “É importante comentar e debater as drogas. Não podemos fazer de conta que elas estão fora de casa”. Por isso, repito: “É hipocrisia achar que jamais o problema das drogas atingirá um membro da nossa família e que tudo de ruim só acontece com os outros. Esta situação difícil, portanto, embaraçosa, pode perfeitamente ser minimizada e até mesmo evitada; é fundamental que os adolescentes não se sintam órfãos de pais vivos e que a troca de informações no ambiente familiar não seja interrompida pela falta de diálogo”. A imprensa tem dado uma contribuição valiosa, através de um jornalismo-denúncia, e cada vez mais compromissada com a veracidade dos fatos. Sem dúvida esse instrumento de informação complementar é indispensável na sociedade e para ela.

A relação entre tráfico e consumo, entre traficante e viciado, a cada dia revela novas surpresas. É temeroso fechar os olhos para uma dura realidade: o comércio ilegal das drogas está por toda a parte; está do nosso lado; desceu dos morros; saiu das periferias; parece um câncer que tomou conta do tecido social – uma doença transmissível. Todo o cuidado ainda é pouco porque ainda não foi descoberto um antídoto eficaz para o seu combate. Os “donos dos laboratórios” já patentearam todas as fórmulas.

Da janela do meu quarto contemplo o clarão provocado pelos disparos dos fuzis, enquanto o eco dos estampidos rompe o pouco silêncio da madrugada e não consigo dormir. No meio do tiroteio, o dependente de drogas – eternamente em conflito com a sua consciência – se vê numa encruzilhada e na qual placas de sinalização apontam para três caminhos a seguir: primeiro, ficar subordinado aos traficantes e sob o domínio do vício, deste costume pernicioso; segundo, por necessidade de salvação, buscar auxílio de quem o possa ajudar a sair do buraco e, terceiro, permanecer onde está e correr o risco de levar um tiro na cabeça. O medo, há muito, já deixou de influenciar na sua decisão.

Qual a avaliação do estado psíquico de quem está sob o efeito de um alucinógeno, como, por exemplo, o ácido lisérgico? Deve ser terrível para quem assiste e maravilhoso para quem faz uso dele. Qual a pena estabelecida para os consumidores de drogas? Essa, eu sei: nenhuma! Onde ficam os viciados nessa história toda – fonte alimentadora da máquina criminosa que produz violência, desgraça, novas vítimas, sofrimento e morte? Livres como pássaros na floresta, perdão, no ar, porque nem mesmo as nossas matas estão livres da ação predatória do homem – muitas árvores nativas são derrubadas para o plantio de maconha. Nas regiões Norte e Nordeste do Brasil isso acontece com relativa frequência. Acabar com a ilegalidade da produção, do tráfico, da comercialização e consumo de drogas, seria a saída? Não vamos nos iludir, tudo está conectado.

As pessoas estão se matando de livre vontade, ou estão se deixando matar por opção, pura e simplesmente. Quantos mais escravos do vício empenharão as suas almas por força da irracionalidade consciente, em troca do prazer subjetivo e na fugaz tentativa de viajar de um lugar inexistente para outro que não existe? Por conseguinte, este fenômeno não pode ser considerado “seleção natural” da espécie humana. Da mesma forma que não acredito em “controle populacional” promovido por algum extraterrestre para preservar os recursos naturais do planeta Terra face à anunciação de uma nova raça vinda do cosmos. É estupidez mesmo, quando as drogas surgem como principal causa do “suicídio coletivo”. Mas, com a certeza de que deve ter algum novo Anticristo encarnado e bem escondido, contando dinheiro sujo e dando gargalhadas num canto qualquer da Terra, porque esta matança é uma maneira extraordinariamente lucrativa de se fazer uma guerra silenciosa e de produzir muitas almas para o Inferno!

Augusto Avlis

Leia Drogas, epidemia mortal – 1ª parte

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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