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Política

Indústria da morte – 1ª parte

Indústria da morte – 1ª parte

O Brasil, reconhecidamente, é um país com vocação pacifista. Este conceito foi construído ao longo de toda a sua história. Fazemos parte de um sistema dos que lutam pela paz universal. Os discursos dos nossos governantes, sobejamente carregados de mensagens subliminares, fazem-nos acreditar nisso. Compadecemo-nos com a dor dos nossos irmãos, dilacerados por minas terrestres, vítimas fatais de guerras sem sentido, estimuladas por países que pregam a igualdade dos povos e democracia plena. O sangue jorrado apenas é um toque artístico na saga política, um matiz indispensável na máquina econômica mundial.

Brasil, produtor e exportador de armas

Bomba de gás lacrimogêneo brasileira usada no Bahrein. (Foto: Divulgação)

Parabenizo os jornalistas Daniel Santini e Natalia Viana da Agência Pública do Yahoo Notícias pela brilhante matéria “Brasil, produtor e exportador de armas”, divulgada recentemente, que levanta a redoma que cobre a política externa brasileira, sobretudo quanto à comercialização de armas leves, convencionais, Made in Brazil, trazendo à opinião pública os bastidores do Itamaraty e do Ministério da Defesa, responsáveis pela aprovação de toda a exportação de armas, inclusive não letais. Existem lados íntimos e ocultos nessa relação que precisam ser revelados; este caso representa, apenas, a ponta do iceberg submerso no planalto central. No cenário internacional, o caso, por si, não terá tanta repercussão. A diplomacia brasileira saberá minimizar o vexame, talvez o primeiro de 2012. Outros estão a caminho.

Bahrein é um arquipélago de trinta e cinco ilhas (apenas três são habitadas), e ilhotas, localizado no Golfo Pérsico, a leste da Arábia Saudita e a noroeste do Qatar. Bahrein é a maior das ilhas, ligada à Arábia Saudita por uma ponte que foi inaugurada em 1986. País com 692 km² passou à condição de Emirado em 1971 e em 1973 foi promulgada uma Constituição estabelecendo o regime monárquico tradicional e criou um sistema bicameral de conselhos, um conselho consultivo e um conselho dos representantes. Centro produtor, ponto de refinação e embarque de óleo cru originário da Arábia Saudita (que o envia por um oleoduto submarino), o arquipélago de Bahrein se tornou estratégico para a região, sobretudo pela extração contínua e crescente de gás natural e petróleo. Nos anos de 2010 e 2011 o mundo árabe vivenciou uma enorme onda de protestos também desencadeada no Bahrein em fevereiro de 2011, que continua até os dias de hoje. A família monárquica Al Khalifa, através do seu exército (e de países vizinhos), vem reprimindo com rigor os manifestantes, deixando dezenas de mortos.

O artefato mostrado na foto foi recolhido por ativistas pró-liberdade no Bahrein, supostamente lançado por tropas que reprimem as manifestações pró-democracia. O gás tupiniquim teria sido usado nas ações de repressão, causando a morte de crianças. Segundo a ativista de direitos humanos, Zainab Al-Khawaja, em entrevista ao jornal O GLOBO, disse: “Há algum tipo de ingrediente que, em alguns casos, leva as pessoas a espumarem pela boca e outros sintomas”. Que gás é esse? Que toxina misteriosa é essa? Será que na nossa inocente latinha metálica tinha uma mistura de cianureto de bromo e arsênio? Alguém do governo poderia verificar? O Itamaraty exime-se de culpa, reconhecendo que não tem poderes constituídos para fazer investigações. A assessora de imprensa do Itamaraty chegou a afirmar: “É um contrato entre partes privadas. Pode até envolver um governo estrangeiro, mas, a responsabilidade pelo seu produto é da empresa”. Enquanto isso, o Ministério da Defesa observa à distância, mostra-se interessado e promete acompanhar o desfecho do caso. Aí a Inês estará morta, como as vítimas do nosso gás “não letal”.

Esta é a empresa produtora da bomba de gás lacrimogêneo encontrada no Bahrein

História da Empresa / Valores (parte): Acreditamos que a ética, a responsabilidade social, o respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos são a garantia da nossa credibilidade. A empresa promove parcerias com fabricantes internacionais, detentores de reconhecida capacitação no ramo de defesa, para o desenvolvimento de novas tecnologias não letais. Situada no Rio de Janeiro, no município de Nova Iguaçu, tem sua fábrica instalada numa área total aproximada de 1 milhão de metros quadrados vizinha da reserva biológica do Tinguá com 26 mil hectares, que é a maior reserva de Mata Atlântica do Estado do Rio de Janeiro. A Condor adota como política permanente a proteção da natureza, destinando 70% da sua área total para a preservação da floresta nativa, dos mananciais hídricos, da flora e da fauna, tornando o ambiente da fábrica uma ilha ecológica, em perfeita sintonia com o conceito “Não-Letais”.

O texto é envolvente. Falar em ética, responsabilidade social, respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos não é garantia de credibilidade. Não se pode falar em respeito aos direitos humanos quando o assunto é produzir armas, mesmo que “Não-Letais”, que são lançadas indiscriminadamente contra civis indefesos por tropas de repressão, ainda que governamentais, como foi o caso da bomba do Bahrein. Se alguém morre, perdão, foi por acidente. Segundo informações, a empresa CONDOR Tecnologias Não-Letais afirmou que não exporta seus produtos para o arquipélago do Bahrein, mas considerou que o faz para outros países da região, sem identificar quais. Porém, se os contratos firmados com os tais compradores oficiais os proíbem de revender os produtos da marca CONDOR, impossível rastreá-los por uma questão simples, o contrabando de armas no mundo inteiro é um negócio extremamente rentável / lucrativo, e que foge de qualquer tentativa de controle. Averiguar o que aconteceu no Bahrein é total perda de tempo. Prevalecerá a máxima “não foi a nossa empresa que vendeu diretamente para o agressor”. Ainda mais que não existe legislação internacional que regule o comércio de armas leves. Provavelmente alguém dirá: “A bomba veio da Arábia Saudita, atravessou sozinha a ponte que liga à Bahrein!”.

Posto isso, não há dúvida que episódios dessa natureza hão de se repetir envolvendo o nome do Brasil, sobretudo, pelo fato das suas exportações de armamentos leves, convencionais, crescerem no mercado internacional, e é impossível prever em quais mãos irão parar e em que circunstâncias serão utilizadas. A finalidade é só uma, ou seja, dar lucro aos fabricantes. A empresa CONDOR Tecnologias Não-Letais leva uma significativa vantagem sobre os seus concorrentes diretos; possui um “campo de teste” com 1.000.000 de metros quadrados. Nessa “Ilha ecológica”, como chamam, pode habitar outra espécie de Condor (Ave de rapina, de plumagem negra, cabeça e pescoço pelados), potencial nova vítima do Gás “Não-Letal”.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Um comentário sobre “Indústria da morte – 1ª parte

  1. Eu realmente não entendo qual é a revolta com as fabricantes de armamentos brasileiras. São indústrias estratégicas e vitais ao país. No caso da Condor, ela é, salvo engano, a única fabricante deste tipo de equipamento/armamento no Brasil e ainda conta com diversos produtos importados. Ela traz uma expertise necessária ao Brasil e que ainda consegue arrebanhar uma boa fatia no mercado internacional justamente pela necessidade de utilização deste tipo de armamento não-letal. E sim, a denominação “não-letal” é dada porque tais artefatos são projetados para causar um efeito não letal, ao passo que armamentos convencionais são por natureza ‘letais.’

    Mas ao mesmo tempo em que granadas de gás lacrimogênio e pistolas de choque, se mal utilizadas podem ser letais, uma cadeira, uma faca de cozinha e uma caneta também podem. E por mais que a Condor e outras empresas do setor não apenas ofereçam treinamento para a utilização de seus produtos, a responsabilidade por sua utilização correta é justamente daqueles que os deflagram, ou seja, se as forças policiais, seja lá de onde forem, não empregarem esse armamento não-letal de maneira adequada, não se pode culpar a fábrica tanto quanto não se pode culpar a Tramontina pela utilização de uma faca de cozinha em um caso de violência doméstica.

    Ao mesmo tempo, é um pouco difícil culpar qualquer fabricante por seus produtos serem revendidos à terceiros, visto que a fabricação deste tipo de equipamento não envolve qualquer tipo de tecnologia que seja considerada sigilosa pelo Governo Brasileiro, ou que necessite de peças de reposição ou de manutenção periódica, o que poderia acarretar em sanções por parte do Governo que inviabilizem a futura utilização deste tipo de equipamento pela parte que fez a aquisição junto ao fabricante.

    O Brasil ainda é fabricante de bombas aéreas convencionais e bombas ‘cluster,’ que infelizmente ainda é motivo de grande debate internacional devido à possibilidade de que algumas das ‘bomblets’ de uma ‘cluster’ não explodir e continuar ativa no terreno aonde foi lançada, transformando-se em uma espécie de mina terrestre. É difícil precisar qual o tamanho do inventário da FAB em relação à essas bombas, mas tenho quase certeza que é insuficiente para as necessidades operacionais. No caso da FAB, a bomba ‘cluster’ é imprescindível do ponto de vista tático. A FAB, por mais que venha tentando à grande custo modernizar-se, isso é feito de maneira lenta devido ao desinteresse político e popular à respeito do tema “Defesa.” A apenas poucos dias atrás foi feito o primeiro lançamento de bombas guiadas à laser por uma aeronave da FAB em um estande de tiro no sul do país. Estamos mais do que quarenta anos atrasados em relação à outras potências. Ter uma Força Aérea equipada com equipamentos de alta tecnologia para garantir um nível maior de precisão à uma operação de ataque ao solo, e ao mesmo tempo conferir à aeronave e, consequentemente, à tripulação daquela aeronave, uma maior chance de sobrevivência à própria missão em si, é uma das premissas constantes de qualquer Força Aérea.

    Infelizmente tal investimento em tecnologia militar no Brasil não é feito, fazendo com que dependamos de equipamentos antigos e obsoletos. Uma bomba ‘cluster’ confere um alto grau de letalidade e uma possibilidade de sobrevivência um pouco maior quando se tenta atingir determinados tipos de alvo, e é particularmente eficiente quando se precisa atingir diversos alvos em uma área relativamente pequena, como comboios de viaturas hostis ou baterias de armamento anti-aéreo. Não é apenas taticamente vantajosa, mas também é financeiramente vantajosa, já que se gastaria menos combustível e munição para se colocar esses alvos fora de combate.

    As alternativas são armamentos caros e dotados de alta tecnologia dos quais não temos nenhum ou simplesmente muito poucos, e mesmo assim a maioria ainda são de origem estrangeira. Devido ao baixo grau de investimento nas nossas FFAA, a indústria nacional consegue sobreviver através de suas exportações, que garantem sua sobrevivência, e com alguma sorte, consegue-se até investir o dinheiro das exportações em expansões ou mesmo em pesquisas próprias.

    O Brasil através de empresas como a Mectron e a Avibrás, por exemplo, também desenvolvem armamentos de alto grau tecnológico, como mísseis ar-ar, ar-solo, cruise, anti-tanques e anti-radar, a maioria deles está engatinhando, em eternas fases prototipais justamente por falta de investimentos por parte de seus maiores clientes, as FFAA do Brasil, que mesmo com os constantes cortes orçamentários, ainda conseguem reservar parte de seu orçamento para pesquisa e desenvolvimento, e que através de parcerias com setores industriais conseguem sanar algumas de suas necessidades operacionais. Tais tipos de armamento são de elevadíssimo nível tecnológico, cujo valor no mercado internacional é altíssimo. Mais uma vez, a exportação deste tipo de armamento é de vital necessidade para a sobrevivência do setor no Brasil, que por sua vez é de necessidade estratégica para a garantia da soberania nacional. Se algum dia tivermos que elevar o nível das nossas FFAA, teremos aonde recorrer, de onde tirar uma base para rápida expansão de indústrias bélicas. Hoje essa base está abaixo do nível considerado ideal, e muitas vezes já tivemos que reinventar a roda, por assim dizer.

    Outro ponto interessante que é sempre abordado em palestras acadêmicas sobre Defesa, é que a expansão do setor de indústrias de armamento no Brasil trará benefícios à outros setores da sociedade brasileira. Justamente a necessidade de pesquisa e mão de obra especializada arrasta consigo uma necessidade de investimentos em educação e infra-estrutura para que essa expansão possa ser realizada, e obviamente a resultante geração de empregos. No caso, o intuito do setor é de simplesmente suprir as necessidades operacionas das FFAA Brasileiras.

    Com acordos internacionais de aquisição de equipamentos de Defesa firmados com a França, por exemplo, no caso dos Helicópteros, a Helibrás pode fazer uma expansão de suas instalações em Itajubá (MG), para dar conta do pedido de aeronaves que servirão à FAB, MB, EB e à Presidência da República, ao passo que isso certamente trará uma necessidade de manutenção e facilitará a fabricação para o atendimento à aquisições de helicópteros por companhias civis, bem como exportações para outros países latino americanos.

    O mesmo acontece com EMBRAER, IMBEL, Mectron, Avibrás e diversas outras empresas que contam com quase nenhum apoio político e baixíssimos investimentos nacionais em cima de seus produtos para que possam sobreviver, modernizar-se ou expandir. E todas elas são fundamentais para o Estado Brasileiro. É sempre bom lembrar o que aconteceu com a ENGESA durante a década de 1980. Uma empresa fantástica que inovou, investiu por conta própria e que fechou as portas porque fez uma aposta equivocada e o Governo Brasileiro não estava lá para salvá-la. É necessário dizer que a empresa era fantástica do ponto de vista da engenharia, mas que realmente não tiveram a melhor estratégia de negócios, mas assim como o governo recentemente fez pela Avibrás, o mesmo deveria ter sido feito com a ENGESA. Talvez tenha mesmo sido um caso de se ter aprendido com o passado.

    O Itamaraty opera sob a aparente recomendação de mencionar ao mínimo possível qualquer tipo de transação envolvendo armamento justamente porque teme a repercussão midiática sensacionalista sobre o assunto, o que infelizmente acontece até os dias de hoje.

    Então, ao invés de criticarem os fabricantes de armamentos, que são vistos como os ‘filhos indesejáveis’ de uma potência industrial crescente, a sociedade deveria trazê-los para mais perto. Observar as vantagens oferecidas por uma forte indústria armamentista, a necessidade de sua existência para a manutenção do Estado Brasileiro, sua importância em caso de emergência nacional, e dialogar com os governantes as melhores maneiras de exportar os produtos oferecidos por elas para que os valores defendidos pela nossa Constituição não sejam feridos por produtos desenvolvidos e fabricados aqui.

    Se há mesmo alguma verdade na acusação de exportação indiscriminada de armamento brasileiro para clientes de agenda duvidosa ou repreensível, posso afirmar que boa parte da culpa desses atos é da própria sociedade brasileira e da mídia, que não se esforçam para entender quão estrategicamente vitais e importantes para o país são essas indústrias.

    Publicado por Leandro Costa | 09/10/2013, 15:26

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