>
Você está lendo...
Esportes

Coisas do Futebol – 1ª parte

Coisas do Futebol – 1ª parte

Ouvi a Copa do Mundo FIFA de 1958, que ocorreu de 8 a 29 de junho, então com oito anos de idade, pelo rádio do meu tio Belmiro. Ele era casado com a minha tia Zulmira, irmã da minha mãe Sylvina, e morava do lado da minha casa no Rio de Janeiro, na Rua Major Conrado nº 353, a minha tem o nº 361. O bairro, Cordovil. Era um rádio elementar em que se emprega o cristal de galena. O som saía entrecortado e não entendia bem o porquê. Muitos anos depois, já no segundo grau, numa aula de química vim a saber que galena é um mineral de chumbo e enxofre. Para captar melhor o sinal vindo da Suécia o meu tio Belmiro esticou fios pelo quintal, acho até que eram os arames que ele roubou do varal de roupas da minha tia Zulmira. Ele sabia muito bem se virar, mesmo com toda a sua surdez adquirida nos campos de batalha da Itália na 2ª Grande Guerra. A gente repetia para ele tudo aquilo que ouvíamos no rádio; às vezes mentíamos sobre os autores dos gols, exceto quem se tornou campeão.

A 6ª edição da Copa do Mundo contou com 16 seleções, sendo 12 européias e 4 sul-americanas: Suécia, Alemanha Ocidental, Áustria, França, Tchecoslováquia, Hungria, União Soviética, País de Gales, Iugoslávia, Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia, Argentina, Brasil, México e Paraguai. Aquela foi a primeira participação em Copa do Mundo de Futebol para a União Soviética, País de Gales e para a Irlanda do Norte. Lembro-me perfeitamente das cinco grandes goleadas daquela Copa (colecionava um álbum com figurinhas): Tchecoslováquia 6 x 1 Argentina, França 7 x 3 Paraguai, Hungria 4 x 0 México, França 4 x 0 Irlanda do Norte. Mas, a maior delas foi a que deu o primeiro título mundial ao Brasil, que derrotou os donos da casa por 5 x 2 na partida final realizada no dia 29 de junho de 1958 às 14:00 horas no Estádio Råsunda em Estocolmo com um público de mais de 50.000 pessoas. O placar ficou consagrado porque registrou o maior número de gols em finais de Copas e também a maior diferença entre gols marcados.

Uma figurinha carimbada era a do jogador Just Fontaine, um dos mais importantes do futebol da França, que marcou 13 gols em 58, consagrando-se o maior artilheiro em uma única edição da Copa do Mundo de Futebol, até hoje nunca superado. Foi homenageado pela FFF em 2005 como o maior jogador francês dos últimos 50 anos. Mas, também temos que nos orgulhar do nosso escrete. Sob o comando do técnico Vicente Ítalo Feola, tive o prazer de ver jogar muitos dos jogadores por ele escalados (porque assistia aos videotapes 15 dias após o término de cada jogo pela extinta TV Rio, inaugurada em 1955), como o goleiro Gilmar (Santos), De Sordi (São Paulo), Bellini (Vasco), Nilton Santos (Botafogo), Orlando (Vasco), Zito (Santos), Didi (Botafogo), Garrincha (Botafogo), Vavá (Vasco), Pelé (Santos), Zagallo (Botafogo), Castilho (Fluminense), Djalma Santos (Fluminense), Mauro (São Paulo), Oreco (Corinthians), Zózimo (Bangu), Dino Sani (São Paulo), Dida (Flamengo), Joel (Flamengo), Mazzola (Palmeiras), Pepe (Santos), Moacir (Flamengo). A Copa do Mundo de 1958 revelou Édson Arantes do Nascimento (Pelé), então com 17 anos, sendo eleito no decorrer da sua carreira o maior jogador de futebol de toda a história mundial. Preciso dizer mais alguma coisa?

Futebol, Paixão Nacional. O Brasil de chuteiras. A Taça do Mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa. Pra frente Brasil, salve a Seleção. Deu pra arrepiar, eu sei. Nos meus primeiros dez anos de vida meu pai me ensinou que futebol é um simples jogo de bola, inventado pelos ingleses, aperfeiçoado pelos brasileiros, disputado entre dois times de onze jogadores titulares cada – com outros tantos na reserva –, cujo objetivo é fazer uma bola de couro entrar no gol do adversário sem intervenção das mãos. Gozado que o conceito de gol revela que o sentido do gol é colocar a bola para fora do campo por um lugar específico, guarnecido por uma rede. Cada time defendia o seu território com sua legião de soldados e a ordem era invadir o campo do inimigo impondo-lhe derrota humilhante. Descobri mais tarde, por conta própria, que os times de futebol eram comandados por técnicos lunáticos, geralmente subordinados a dirigentes amantes de dinheiro e não da glória pela conquista de títulos.

Aprendi que a bola não era qualquer corpo esférico – uma esfera de borracha, couro, etc., para brinquedo de criança ou prática de certos esportes –, era a mais temida e letal das armas. A bola de futebol era mágica, hipnótica. A paixão que ela despertava ia muito além do padecimento; do sofrimento; a bola era o ícone do sentimento intenso de amor ou ódio, dependendo do lado que ela entrava. O fanatismo e a parcialidade passam a ser inquestionáveis.

Gritar, gesticular, torcer pela vitória da equipe esportiva do coração é mais do que um gesto de explosão, é um ato de contrição. Ah, coração, parece não aguentar tanta emoção! Dentro do gramado, as linhas separam bons e maus, heróis e vilões, vítimas e carrascos. Somos todos irmãos no ideal e estranhos ao pé da bandeira, vestimos a camisa e calçamos a chuteira. Quando ouvimos o hino nacional nos arrepiamos, choramos emocionados, balbuciamos a letra olhando pros lados, rubros de vergonha até o primeiro gol. A partir daí nada mais importa – o tempo pára; a vida pede um tempo. Política, religião, problemas familiares, dívidas, confusão; é meu irmão, não vem não. Uma coisa é certa: não tem pra ninguém, vamos papar todo mundo; aposto com quem quiser; pode escolher; uma birita, uma caixa de cerveja, e se preferir uma grana eu caso; e tem mais, dou sempre um gol de vantagem.

Meu camarada, formado o escrete, sem surpresas ou chiadeiras, sem tempo para treinos e entrosamentos, o negócio é confiar no técnico, na fraqueza dos adversários e na sorte. Os jogadores estarão jogando para a ‘platéia internacional’, mesmo porque eu faria a mesma coisa com tantos milhões de dólares ou euros rolando nos contratos. Mas não é hora para especulações financeiras. É hora de colocar a seleção brasileira em campo e vencer todos os jogos. Goleada? O placar é o que menos importa. Temos plenas condições de chegar à final de qualquer Copa do Mundo. Na possibilidade de um fatídico tropeço não iremos arrancar os cabelos, muito pelo contrário, teremos motivo para mais um porre. Como atenuante, lembremos que do tri ao tetra esperamos 24 anos. O hexa pode esperar.

Peço ao meu bom Deus que a patrocinadora Nike não nos faça reviver a Copa de 98. Rasgar as bandeiras, despintar o chão, desfazer a decoração, quebrar as cornetas, maldizer a nação, nada disso, sinceramente, está nos meus planos, e acredito piamente que também não está no projeto da esmagadora maioria dos brasileiros. Conquistar a Copa do Mundo de 2002 foi uma redenção. O Brasil foi campeão do mundo pela 5ª vez, depois de derrotar a Alemanha na final por 2 a 0 e chegou ao pentacampeonato, inédito, igualando-se à Alemanha em número de finais (três) consecutivas. A campanha do Brasil deixou saudades: ganhou da Turquia por 2 a 1, da China por 4 a 0, da Costa Rica por 5 a 2, da Bélgica por 2 a 0, da Inglaterra por 2 a 1, da Turquia por 1 a 0. Isso! Bola pra cima, ou melhor, pra dentro do gol. Otimismo. Seremos campeões! “A taça do mundo é nossa. Com brasileiro, não há quem possa! Eta, esquadrão de ouro”. Lembram? Do Penta para 2014 são apenas 12 anos! O tempo voa, passa rápido. Quando acordarmos do sonho, irremediavelmente, estaremos dentro da corrida eleitoral rumo ao hexa, perdão, na direção da expiação política. Deixa pra lá; depois de mais uma caipirinha, nos poremos a dormir de novo, após fazermos um gol de placa nas urnas – mas, poderemos ter um pesadelo com os eleitos.

Augusto Avlis

Leia Coisas do Futebol – 1ª parte

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Trackbacks/Pingbacks

  1. Pingback: Coisas do Futebol – 2ª parte « Opinião sem Fronteiras - 29/02/2012

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 152 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: