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Política

Supremo manicômio – Décima oitava parte

Supremo manicômio – Décima oitava parte

Eles já sabem o que fazer quando perderem.

Revista Timeline – Lacombe, Allan e Max. Sexta-feira, 25 de setembro de 2026, às 07:50 horas. Leia abaixo a íntegra da matéria.

Cinco anos de decisões que mexeram no tabuleiro, um Supremo em guerra interna e uma campanha que desidrata. Faltava só uma desculpa. E ela acabou de ser protocolada.

RIO DE JANEIRO, 24 de setembro de 2026 — Na quinta-feira passada, dia 17, Eduardo Bolsonaro parou em frente ao prédio do Departamento de Estado, em Washington, e disse uma frase que muita gente em Brasília tratou como exagero: “Eu vejo a preparação de uma narrativa pra tentar anular a eleição brasileira”.

Ele citou a Romênia. Citou a sessão do Supremo de dois dias antes, em que ministros associaram a crise do caso Master a uma trama contra a democracia. E disse ter levado a preocupação a integrantes do governo Trump.

Foi chamado de alarmista. De exilado ressentido. De quem enxerga fantasma em tudo.

Seis dias depois, o fantasma ganhou número de processo.

O que foi protocolado.

Na quarta-feira, dia 23, a onze dias do primeiro turno, a coligação de Lula, “Brasil Pronto pra Mais”, entrou no TSE com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral contra Flávio Bolsonaro, o vice Alfredo Gaspar e o próprio Eduardo. O processo é o de nº 0602222-72.2026.6.00.0000 e está com o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva.

A acusação é de abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação. A tese central é uma só: interferência estrangeira. Segundo a coligação, Flávio e Eduardo teriam transformado sanções, tarifas e ataques às urnas, articulados com autoridades americanas, em armas contra Lula.

Para sustentar isso, a ação cita a Rockbridge Network, organização conservadora americana que tem o vice-presidente JD Vance entre os fundadores e cujo articulador no Brasil, segundo a petição, trabalha no comitê de Flávio em São Paulo. Cita um estudo sobre terras raras, sob a suspeita de que o patrimônio mineral brasileiro estaria sendo oferecido em troca de apoio eleitoral. E cita a fala de Flávio a embaixadores sobre a origem das urnas e uma live de Eduardo com o consultor argentino Fernando Cerimedo.

Os pedidos vêm em escada: depoimentos, ofícios ao Itamaraty, à PF e às big techs e, depois, quebra dos sigilos bancário e fiscal. No fim da escada, a cassação do registro ou do diploma de Flávio e de Gaspar e a inelegibilidade de Flávio e Eduardo por oito anos.

No mesmo dia, o PT foi ao Supremo pedir inquérito da Polícia Federal sobre “interferência estrangeira”, com possibilidade de busca e apreensão na campanha de Flávio e na sede nacional do PL. A base apresentada foram posts de perfis estrangeiros no X, publicados entre 18 e 21 de setembro, favoráveis a Flávio. O próprio partido admite que não conseguiu identificar quem pagou, e se houve algum pagamento por eles. A campanha de Flávio diz desconhecer as publicações.

A receita que já funcionou uma vez.

Quem acompanhou 2023 vai reconhecer os ingredientes. Embaixadores. Desconfiança nas urnas. Uso de uma estrutura que não pertence ao candidato. Foi com essa receita que o TSE tirou Jair Bolsonaro da disputa.

Segundo o Conjur, a petição resgata até a tese do 7 de Setembro de 2022, aquela em que o tribunal decidiu que abuso de poder alcança também “o poder indevidamente apropriado por terceiro”. Foi o argumento que condenou Braga Netto, que não tinha cargo público. Agora ele reaparece para dizer que Flávio e Eduardo, sem cargo no Itamaraty, se apropriaram da diplomacia brasileira.

O roteiro que eliminou o pai está sendo reciclado para o filho.

O juiz com nome e sobrenome.

O detalhe mais revelador, porém, não está no conteúdo. Está no endereço.

O pedido de inquérito no Supremo não foi sorteado. Foi pendurado num processo que já tinha relator: a ADPF 1178, uma ação proposta em 2024 pelo Instituto Brasileiro de Mineração para impedir que municípios processem empresas em tribunais no exterior. Mineração. Prefeituras. Cortes estrangeiras. Nada que tenha a ver com urna ou campanha. Sublinho por conta.

O relator é Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula, indicado por ele ao Supremo. O gancho é uma decisão dele, de agosto de 2025, que declarou sem efeito no Brasil atos unilaterais estrangeiros. O PT quer estender essa tese à eleição. Segundo o blog de Caio Junqueira, na CNN, a ideia dos governistas é justamente driblar o comando do TSE, hoje nas mãos de Kassio Nunes Marques e André Mendonça, dois ministros que não foram indicados pelo PT.

Bucareste, dezembro de 2024.

Eduardo citou a Romênia por um motivo.

No dia 6 de dezembro de 2024, o Tribunal Constitucional romeno anulou o primeiro turno da eleição presidencial, vencido pelo candidato de direita Călin Georgescu com cerca de 23% dos votos. Faltavam dois dias para o segundo turno. O fundamento foram relatórios de inteligência sobre uma campanha coordenada no TikTok atribuída a um ator estatal estrangeiro.

Milhões de romenos acordaram sabendo que o voto deles não valia mais nada. Não houve tanque na rua. Houve um acórdão.

O golpe do século XXI não precisa de farda. Precisa de uma narrativa, de uma petição e de um tribunal disposto a aceitá-la. Sublinho por conta.

A régua que muda de lado.

No mês de maio de 2025, em Nova York, Luís Roberto Barroso contou que, quando presidia o TSE, pediu três vezes ao governo americano declarações de apoio à democracia brasileira, uma delas ao Departamento de Estado. E explicou: os militares brasileiros, disse ele, não gostam de se indispor com os Estados Unidos.

O presidente da Justiça Eleitoral buscou uma potência estrangeira para produzir efeito sobre as Forças Armadas do próprio país, com Joe Biden na Casa Branca. Aquilo se chamou defesa da democracia.

Hoje, com Donald Trump no poder, aproximação com Washington virou motivo para cassar chapa. O ato é o mesmo. Mudou quem se beneficia dele.

Um tribunal que já mexeu no tabuleiro.

Nada disso nasce do zero. Em 2021, o STF anulou as condenações de Lula por uma questão de competência e devolveu a ele a urna. Em 2022, o TSE atuou como nunca na campanha, e na diplomação de Lula o então corregedor Benedito Gonçalves foi flagrado dizendo “missão dada é missão cumprida” a Alexandre de Moraes na cerimônia de posse de Lula. Barroso soltou o “perdeu, mané” em Nova York e, depois, num evento da UNE, disse que “derrotamos o Bolsonarismo”. Em 2023, veio a inelegibilidade de Jair. Em 2025, a condenação a 27 anos e 3 meses e a prisão.

Cada uma das decisões formam um padrão que o eleitor comum enxerga sem diploma em Direito: a Corte deixou de ser árbitro e passou a ser jogador.

A Corte ferida.

Só que 2026 trouxe algo novo. O Supremo está sangrando.

Desde 1º de setembro, quando Mendonça tornou público o relatório da PF sobre o celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a Corte vive a pior crise da sua história. Segundo a imprensa, o material mostra mensagens do banqueiro para um contato salvo como Alexandre de Moraes e indica que o ministro editou o contrato de cerca de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório da esposa, Viviane Barci. Dias Toffoli já tinha deixado a relatoria em fevereiro, depois de reportagens sobre a empresa da família e um resort ligado ao entorno de Vorcaro. Mensagens do mesmo celular citam ainda pagamentos associados ao filho de Kassio Nunes Marques, que nega qualquer serviço ao banco.

Na sessão de 15 de setembro, transmitida ao vivo, houve bate-boca, impedimentos, suspeições e nenhuma decisão. No dia 10, Lula já tinha ido ao SBT dizer que Fachin precisava “pegar esse processo e trazer pra ele” e “colocar ordem na casa”. Um presidente candidato dando nota, em rede nacional, ao presidente do Supremo.

Por que isso importa para o seu voto.

De um lado, uma campanha que desidrata. A maioria das pesquisas, mesmo com todas as suas tendências e vieses já conhecidos, mostram Flávio numericamente à frente de Lula.

Do outro, um tribunal acuado, dividido e com a credibilidade no chão, que precisa urgentemente voltar a vestir a capa de guardião da democracia.

No meio, a narrativa que serve aos dois ao mesmo tempo: a narrativa de ameaça estrangeira. Ela dá à campanha um argumento para depois da urna. E dá à Corte um inimigo externo capaz de fazer o país esquecer o Master.

Há ainda o TSE, que o PT tenta contornar mas que vai julgar a ação contra a chapa de Flávio. Sua presidência está nas mãos de Kassio, pressionado publicamente pelas mensagens do celular de Vorcaro. Tribunal sob pressão é tribunal vulnerável, venha a pressão de onde vier.

Eu não estou afirmando que a eleição será anulada. Estou dizendo que o alerta de Eduardo deixou de ser especulação. O manual existe, foi testado na Europa, e as primeiras páginas da versão brasileira foram protocoladas ontem, com data, número e relator escolhido.

Nos próximos dias, eu vou observar três coisas: a velocidade com que Dino tratar o pedido de inquérito, o andamento da ação no TSE e, principalmente, se a expressão “interferência estrangeira” começar a aparecer em decisões depois de 4 de outubro.

Os romenos descobriram tarde demais que o voto pode ser desfeito sem um único tiro. Nós ainda temos dez dias para prestar atenção.

Em 2026, o grande teste da República talvez não seja a nossa controversa urna eletrônica. Talvez seja o que alguns ministros estarão dispostos a fazer depois que ela for aberta.

Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.

Meus comentários.

Depois de uma matéria como essa, você é obrigado a parar, dar uma profunda respirada e pensar no que vai escrever, ainda que opinativamente, com base em uma opinião estritamente pessoal. Pois bem. Se o Supremo Tribunal Federal teve a competência de escrever uma peça teatral de título “8 de janeiro”, imaginem vocês, amigos leitores, do que ele seria capaz de fazer para anular as Eleições deste ano, caso o Lula perca nas urnas. Continuemos a pensar. Deixando de lado os nomes das autoridades que vociferaram a maldita frase, eu vou repeti-la com todas as letras: “Eleição não se ganha, se toma!”. Minha mãe tinha o costume de atear fogo nos ratos que ela conseguia aprisionar dentro de gaiolas, isso depois de um belo banho de álcool. Os ratos comuns, inclusive os camundongos, morriam mais rápido. Com frequência, a minha falecida mãe capturava ratos-pretos, de esgoto, também chamados de rattus- rattus. Era uma sensação romântica ouvir as suas prolongadas chias ou guinchas, como queiram. Moral da história: tem ratos que demoram mais a morrer do que os outros.

Continua na Décima nona parte.

Augusto Avlis

Navegue no Blog  opiniaosemfronteiras.com.br e você encontrará 1.142 artigos publicados em 16 Categorias. Boa leitura.

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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