ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA – Segunda parte
Há 40 anos eu concluí o Curso de COMUNICAÇÃO SOCIAL, com habilitação em JORNALISMO, em julho de 1986. Total de carga horária cursada: 2520. O diploma foi devidamente registrado no MEC – Ministério da Educação e Cultura nos termos da Portaria MEC/DAU nº 71 de 21/10/1977. Posteriormente registrado no MT – Ministério do Trabalho, REGISTRO DE PROFISSÕES REGULAMENTADAS, conforme menção na CTPS. Não foi por falta de convite de emprego por parte de um grande veículo de comunicação, fato é que, à época, preferi permanecer onde estava, numa multinacional cervejeira, na qual ocupava cargo de COO (Chief Operating Officer) na área de Marketing. O piso salarial do jornalista estava muito aquém do que eu ganhava na empresa.
Em 31/03/1992 eu fiz a minha adesão à ABI – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA como Sócio Colaborador. A minha ficha de inscrição e a Carteira da ABI foram assinadas pelo então Presidente, Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, nascido em 22 de janeiro de 1897 na cidade de Recife, PE, e falecido em 16 de julho de 2000 (103 anos) na cidade do Rio de Janeiro, RJ. Barbosa Lima Sobrinho foi Advogado, Escritor, Historiador, Ensaísta, Jornalista e Político. A sua história é um exemplo a ser seguido.
Eu tive o imenso prazer de conhecer, pessoalmente, o Barbosa Lima Sobrinho quando fui fazer a minha adesão na sede da ABI, Rua Araújo Porto Alegre, 71, Edifício Herbert Moses, no Centro do Rio de Janeiro. No balcão da Secretaria eu preenchi de próprio punho a ficha de inscrição, o atendente levou-a ao presidente para assiná-la. Dois minutos depois volta o assistente com a ficha na mão e cara de poucos amigos.
– Olha, o presidente quer falar com você.
– Comigo? Perguntei.
– Sim, com você mesmo.
– Adianta o assunto, por favor. Completei o curto diálogo.
– Ele não vai assinar a ficha sem antes falar com você. Me acompanha, por favor.
– Dá licença senhor presidente. Pedi gentilmente.
– Pode entrar e sente-se. Respondeu o presidente.
– Obrigado. Respondi.
– Por que você quer ser membro da ABI? Perguntou Barbosa Lima Sobrinho.
– Quero ser membro da ABI porque é muito importante para minha carreira conviver com ilustres jornalistas que fazem parte desta brilhante Associação. Oportunidade para trocar experiências e discutir o Brasil que temos.
– Hã? Então faz o seguinte: vai ali naquela sala e tente pegar o “de acordo” de algum jornalista que esteja por lá. Só depois disso volte aqui com a ficha assinada por ele.
– Dá licença, o senhor é jornalista? Perguntei ao primeiro idoso que encontrei.
– Sim, sou jornalista. Estou aqui descansando do almoço! O que você quer, meu filho?
– O presidente me pediu que um jornalista assinasse a minha ficha de inscrição antes dele, como referência ou aprovação. Desculpe-me pelo incômodo.
– Só isso? Me dá a ficha aí que eu assino. Volte aqui qualquer dia desses pra gente almoçar e conversar um pouco.
– Obrigado. Respondi.
– Senhor presidente, dá licença, ficha assinada.
– Muito bom, me dá a ficha. Pediu Barbosa Lima Sobrinho, assinando-a prontamente. “Parabéns, seja bem vindo à ABI, as minhas portas estarão sempre abertas.”. Completou ele.
Esse dia ficou gravado na minha cabeça, até hoje, sobretudo a tranquila imagem do então presidente da ABI, Barbosa Lima Sobrinho. Estive com ele meia dúzia de vezes, sempre atencioso. Anos depois, vítima de assalto à mão armada no Rio, na frente de casa, lá se foi a minha carteira com dinheiro e documentos, com a minha carteira da ABI junto. Não estava fazendo questão do dinheiro e dos documentos, só da carteira assinada por Barbosa Lima Sobrinho. Perda irreparável. Continuei contribuindo como SÓCIO COLABORADOR, mesmo sem a carteira de associado. A 2ª via da carteira da ABI foi assinada, à época da solicitação, pelo então presidente Paulo Jerônimo de Souza, que sucedeu Domingos Meirelles. Guardo-a comigo, longe dos assaltantes.
Os jornalistas dessa geração mal formada jamais terão a oportunidade de vivenciar história como essa que eu acabei de contar. Com desempenho medíocre da profissão, a maioria deles sequer desnuda a notícia, desseca os fatos, faz autópsia dos acontecimentos paralelos. Triste constatar isso, mas é a pura verdade. A “indústria cultural”, composta pelos veículos e meios de comunicação, perdeu a essência do jornalismo raiz e doutrinou os profissionais de imprensa, transformando-os em papagaios ventríloquos. Recomendo a esses psitacídeos que façam leitura do livro “O problema da imprensa”, um clássico do jornalismo brasileiro, escrito por Barbosa Lima Sobrinho; traz uma análise crítica da imprensa nacional. O livro foi editado pela primeira vez em 1923, ainda que decorridos tantos anos, o seu conteúdo permanece extraordinariamente atual. Sei que muitos dos papagaios ventríloquos, que eventualmente lerão este meu artigo, não se interessarão pelo livro. Contudo, afirmo de cadeira, que é uma grande contribuição à formação dos profissionais de jornalismo. Grandes homens constroem a sua própria história. Não há defesa da Democracia sem cultura aplicável.
Augusto Avlis
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