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Política

Supremo Tribunal Federal – décima terceira parte

Supremo Tribunal Federal

décima terceira parte

Ontem foi um dia especial, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), “todos os anos, o dia 3 de maio é a data em que são celebrados os princípios fundamentais da liberdade de imprensa, para avaliá-la em todo o mundo, para defender a mídia de ataques contra a sua independência, e para prestar tributo aos jornalistas que perderam a vida no exercício de sua profissão”. Sem comemorações, a propósito do “estado de coisas inconstitucional”, apenas dediquei boa parte do meu tempo para fazer algumas reflexões prolongadas, como jornalista e observador político.

O assunto Fake News ainda está em evidência, despertando a atenção circundante. De certo modo, todos estão sendo atraídos para o problema, ou por ele induzidos. Sem entrar no mérito da entrevista de Lula à Folha de S. Paulo e ao El País, ninguém até agora questionou se dentro do que o presidiário petista respondeu aos jornalistas desses veículos, Mônica Bergamo e Florestan Fernandes Júnior, tem alguma notícia falsa, comprometendo pessoas e sistemas. A visão interpretativa pode achar muita coisa não condizente com a realidade dos fatos, ou achar, simplesmente, que não há nada de errado nas declarações de Lula. O julgamento fica a cargo de cada um, independente se considerar-se dono da verdade ou não – ao seu critério; como é o caso dos ministros da Suprema Corte, que julgam no calor das suas togas negras, com visões interpretativas pessoais discordantes.

Com ou sem respaldo nos maus exemplos, muito se tem falado sobre a influência das redes sociais no mundo moderno. Nessa perspectiva, pairam muitas dúvidas e poucas certezas. Nesse universo virtual, invariavelmente, todos os indivíduos com relativa clarividência se acham no direito de externar suas opiniões, ainda que sem fundamento lógico, e se sentem ofendidos quando contrariados por qualquer razão. A imposição de ideias, sem a devida contrapartida da discussão, não é saudável para as relações humanas, tão conturbadas nos dias atuais, fazendo com que as pessoas fiquem agitadas e alteradas desnecessariamente – reativas num processo subsequente. A retina faz enxergar; nas redes sociais sou oculto a ela; não apareço; crio coragem; sigo em frente com os meus ataques; dissemino mensagens, entre elas ofensas e notícias falsas, para mim verdadeiras; vingo-me sem ver a cara das vítimas. É desse jeito que funciona a comunicação virtual (na maioria dos casos), em obediência a estímulos dos mais diversos, inclusive o prazer – sensação agradável de prejudicar alguém; não por instinto, e sim por premeditação assumida. Isso alimenta o meu desgraçado ego.

Daí o mundo estar dividido, conceitualmente, entre bons e maus, entre bobos e espertos, entre inteligentes e ignorantes, entre o bem e o mal. Ricos e pobres se misturam em todas essas classificações, assim sendo, não se dividem. Literalmente, não há fórmula mágica para unificá-lo, o mundo, aliás, o planeta nunca experimentou uma “comunhão global”. Os indivíduos cada vez mais separados por fantasmas criados por eles mesmos, sem alheias interferências. Pessoas há que veem sombras o tempo todo. A propósito, visto que somos reflexo dos nossos próprios condicionamentos, portanto, por decorrência, o outro deixaria de ser uma espécie de “referência” no contexto das comparações, mas, não é exatamente o que ocorre na prática; de modo que precisamos uns dos outros para nos posicionar na sociedade dita organizada.

Entretanto, se houver o que chamamos de “comparação positiva”, numa segunda fase levaria ao crescimento individual; ora, se o outro pode, eu também posso. Naquele eu me fortaleço – máxima para ser interpretada. As “comparações negativas” sempre são os outros que as fazem. Fulano puxou o pai na desonestidade. Penso que podemos estar sendo “usados”, pelos outros (maus, espertos e inteligentes), como armas de agressão gratuita. Indivíduos se enganam quando imaginam que “estão usando” os outros para atingir os seus objetivos; na verdade, “estão sendo usados” sem que percebam. A batalha de palavras no contexto das redes sociais é também uma modalidade de vídeo game, onde grupos são fortes e poderosos, os demais nem tanto.

O mundo digitalizado está roubando, aos poucos, a nossa capacidade de pensar com critérios (razão, avaliação e escolha), de desenvolver raciocínio compatível com as “verdades”, com os “fenômenos da realidade”, ainda que aparentes (prováveis por natureza). Nesse ordenamento, torna-se imperativo que as tecnologias (em evolução) coloquem as pessoas reféns de si mesmas numa impenetrável prisão sem grades. O isolamento está inserido na multidão, assim como a solidão interior sentida no caminhar pelo concreto frio das cidades. Como se comunicar com isenção e interatividade se não somos capazes de compreender as diferenças, tampouco as transformações pelas quais as sociedades estão passando no mundo moderno? Apostamos no absurdo, acreditamos em verdades substratas. Procuramos incansavelmente chifres em cabeça de cavalo – o pior é que encontramos.

O “desapego do material”, como premissa de atitude individual, se distancia cada vez mais das comunidades consumistas, sobretudo plugadas – esta questão entra como agravante. De certo modo, o “imediatismo” (que me dê vantagem imediata) passou a ser regra de comportamento, e as pessoas pensam: tudo tem que ser pra ontem, o hoje perdeu o sentido, e o amanhã não faz parte da minha existência. E agora? Sem agourar, o profundo tédio, causado pelo “eu não consigo” e pela mesmice da rotina improdutiva, conduz à depressão, à perda de sentimento (ainda que o amor seja amovível), conduz à alternativa da morte pelo suicídio – último degrau da insanidade. Esse é o cardápio da vida moderna, consultado diariamente pelas sociedades virtuais, sobretudo pelos mais jovens, que melhor escolhem os pratos servidos.

“Penso, logo existo”. Quando o filósofo francês René Descartes disse essa frase, ele colocou a razão humana como a única forma de existência. Entendeu que a pessoa, ao pensar, levantava dúvidas sobre as coisas, portanto, pensando, a pessoa existia no contexto social. O questionar era saudável para marcar posição e provar a própria vida. Tal conceito, portanto, não se aplica diretamente à significativa parte dos internautas, porque estes, ao perderem a capacidade de pensar com racionalidade, “inexistem” dentro dos grupos virtuais (sem efeito real); os amantes dos teclados somem nas nuvens, o anonimato prevalece. Fisicamente eu não estou aqui! Não olho nos seus olhos – os tratos são pueris. É aquela coisa, finjo que não existo, engano os que me acompanham, e, no final, torço para que não “dê ruim”. Pra mim. Rimou!

A metalinguagem criando novos signos linguísticos – significantes e significados construindo formas de se comunicar, na maioria das vezes dificultando o entendimento quando há proposta de democratização da mensagem, ou seja, necessidade de ampliá-la ao máximo. Na medida em que primordialmente conjugamos as ações no “Imperativo” (+ negativo e afirmativo), o feedback (indispensável no processo da comunicação) estará comprometido; cujos resultados da transmissão da mensagem (informação) não serão medidos com precisão. Vale lembrar que “A imposição de ideias, sem a devida contrapartida da discussão, não é saudável para as relações humanas, tão conturbadas nos dias atuais, fazendo com que as pessoas fiquem agitadas e alteradas desnecessariamente – reativas num processo subsequente”. Sublinho.

A vida é um imenso teatro, onde cada um interpreta o seu papel. Nessa perspectiva, os atores não estão conseguindo quebrar a “quarta parede”. Leia-se: “A ‘quarta parede’ é uma ‘parede imaginária’ situada na frente do palco do teatro, através da qual a plateia assiste passiva à ação do mundo encenado. A quarta parede, portanto, é a ‘barreira imaginária’ que separa os personagens do público. A ação de uma peça, filme ou série acontece dentro dessas quatro paredes. Quando essa ‘caixa’ é rompida, acaba a ilusão de que o que se está vivendo (personagem) / vendo (público) é real”. Este conceito vale para os dois lados.

As redes sociais podem ser comparadas a bombas de efeitos múltiplos (hoje disponibilizadas em menores e eficazes embalagens, como os celulares), por uma simples razão: os perímetros da comunicação estão sendo rompidos com o emprego de uma tática militar conhecida como Blitzkrieg, ou Guerra-relâmpago. Nesse processo, os ataques brutais são de efeito-surpresa, com manobras rápidas, não permitindo a organização de defesas. Todos os flancos estão abertos. Com efeito, a desmoralização das pessoas e de Instituições é o objetivo principal daqueles que se comparam ao general alemão Heinz Wilhelm Guderian (Kulm, 17/06/1888 / Schwangau, 14/05/1954), o grande arquiteto da tática militar Blitzkrieg. Sem fronteiras de defesa, o controle social da guerra de informações (e mesmo o pretendido pela Justiça) fica sobremaneira comprometido e quase impossível. Foi deflagrada uma guerra silenciosa de comunicação, fazendo vítimas no conjunto da humanidade desarmada. As subtribos se multiplicam.

O submundo das redes sociais esconde um plano macabro de destruição em massa, a partir das mentes. A humanidade, uma vez plugada, não quer dizer, necessariamente, que está “antenada” para tudo o que está acontecendo a sua volta, dentro de casa e no interior da sua cabeça. O processo de dominação está em pleno funcionamento faz tempo. Pense nisso! As redes sociais começaram como brincadeira de criança; vamos dar as mãos e brincar de roda; o tempo foi passando; a música mudou; perdeu-se o compasso.

Nascido no Canadá, Herbert Marshall McLuhan (Edmonton, 21/07/1911 / Toronto, 31/12/1980), foi um intelectual, educador, filósofo e teórico da comunicação. Estava além do seu tempo, assim como tantos outros pensadores que passaram pela vida. Pouco mais de duas décadas antes de ser inventada a Internet, McLuhan já lançava uma luz sobre os seus efeitos culturais provocados nas pessoas, sobretudo no que se refere às radicais transformações sociais como consequência da revolução tecnológica com o advento do computador e do processo evolutivo das telecomunicações. McLuhan criou o termo “Aldeia Global” – leia as obras “A Galáxia de Gutenberg”, de 1962, e “Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem”, de 1964. Herbert Marshall McLuhan previu o futuro com propriedade, antecipou as consequências do “progresso das novas tecnologias eletrônicas”, como encurtar distâncias entre os homens, reduzindo o planeta Terra à mesma condição duma grande aldeia, onde os seus habitantes estariam conectados, independente das circunstâncias e das comuns identidades.

Não imaginava McLuhan que as pessoas não evoluiriam na mesma proporção dos Softwares, a ponto de compartilharem os seus benefícios. O que houve no “futuro real” foi a “desconexão” dos indivíduos dentro dessa concebida “Aldeia Global”, um fato concreto, que reduziu as distâncias, mas afastou os indivíduos de si mesmos, que passaram a não se conhecer, ainda que dentro do mesmo espaço. Segundo estudo de Marshall McLuhan, enquanto a imprensa tradicional cumpriria a sua função de individualizar a informação, a mídia eletrônica ficaria encarregada de “retribalizar” os indivíduos. McLuhan acertou nesse ponto, só que essa prevista “retribalização” provocou o surgimento de grande número de “subtribos”, com Modus operandi independente, portanto, dentro de uma única “Aldeia Global” atuam as “subtribos”, tribos secundárias que não se subordinam a uma tribo primária, porque até o presente momento não foi criada e/ou identificada.

As tradições orais estão sendo construídas sob a ótica da fragmentação, portanto, o espírito de unicidade deixa de existir. O meio é a mensagem em si, mas, não corrige os sentidos e sentimentos humanos. Tentar explicar os fenômenos dos meios de comunicação, bem como a sua relação com as sociedades atuais, à luz do pensamento do filósofo Herbert Marshall McLuhan, antes, talvez, sejamos obrigados a fazer uma regressão espiritual e conversar pessoalmente com ele, McLuhan, em outra dimensão da comunicação. Existe a probabilidade de os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) não fazerem isso, com receio de censurar a própria “Aldeia Global”. Seria, então, o ser humano do século XXI, a própria Fake News?

Continua…

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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