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Consultoria & Marketing

Estou devendo na praça

Estou devendo na praça

Amargar o desemprego é como sofrer uma derrota, uma perda inesperada. Quem já viveu essa sensação sabe o que estou dizendo. Acordar no dia seguinte e perceber que a rotina do dia a dia foi abruptamente quebrada, que o desânimo tomou conta de você, que não sabe pra onde correr e o que fazer – uma experiência extremamente desagradável. Um filme que a maioria dos trabalhadores já assistiu em reprises.

Aparece uma chance de emprego, você entra numa guerra de currículos, vai pra seleção após várias etapas difíceis, participa de entrevistas, e lá no final o departamento de Recursos Humanos (RH) veta a sua admissão só porque você estava com o nome sujo na praça. Você perde a oportunidade do emprego a prevalecer essa exigência. E aí você se pergunta: Como fazer agora para pagar as dívidas? Se não conseguir trabalho não consigo pagar as dívidas; sem pagar as dívidas não consigo trabalho. Uma roda viva, que leva, mas traz você ao mesmo lugar, ao mesmo ponto. E agora, como sair dessa?

Quando você escuta este desabafo de um jovem que acabou de ser preterido da vaga de emprego, provavelmente fica sem reação, sem saber o que dizer para confortá-lo. Pois é. Fatos como esse aconteceram inúmeras vezes e talvez ainda aconteçam. Por absurdas regras funcionais, empresariais ou coisa que o valha, mata-se a esperança de quem precisa trabalhar, estudar e progredir na vida. Um futuro sem perspectivas, projetado por um presente incerto.

Na década de 90, mais precisamente em 1993, eu estava executivo de uma multinacional do ramo de bebidas, e recordo que passei por uma experiência que me marcou profundamente. Precisava contratar três Representantes de Marketing responsáveis pelo suporte operacional às franquias do grupo (unidades de produção e comercialização). Sempre fazia questão de acompanhar todos os passos da contratação, seleção, testes, dinâmicas, entrevistas, mas, a palavra final era minha – não podia ser diferente, até porque os profissionais trabalhariam sob meu comando. Por fim, identificamos as três pessoas. Para minha surpresa, apresenta-se o RH trazendo um problema. O melhor dos três não poderia ser contratado porque estava com o nome sujo na praça – informação passada pelos órgãos de proteção ao crédito. Jamais me calaria diante daquilo, então eu fiz algumas perguntas ao gerente do RH. Veja as minhas perguntas e as suas respostas.

Qual a dívida do rapaz?

R$ 2.000,00 segundo o SPC/SERASA.

Quanto ele vai ganhar como salário inicial?

R$ 3.500,00.

Você acha justo não contratar o rapaz?

São as regras da empresa, temos que cumpri-las.

Então me responda às últimas perguntas: Quantos dos funcionários que estão trabalhando atualmente na empresa têm nome sujo na praça? Por que a empresa não os demite por conta disso, já que não pode admitir pessoas devedoras?

Essas duas últimas perguntas ficaram sem resposta. As fiz porque sabia de antemão que alguns funcionários estavam com sérios problemas financeiros. Portanto, contrariei as normas existentes e assumi toda a responsabilidade pela contratação daquele rapaz. Com dois meses de trabalho ele pagou a dívida, limpou o seu nome na praça, pegou o comprovante da quitação e o entregou ao gerente do RH. Três anos depois ele foi promovido com méritos e assumiu o meu lugar na empresa – à época aceitei uma transferência com promoção vertical.

A propósito, costumo usar o verbo “estar” em vez de “ser” porque a gente ocupa determinado cargo momentaneamente. Por ocasião da nossa demissão da empresa, ou saída por conta própria, não levamos o cargo conosco, ele é da empresa, portanto nela fica à disposição do próximo candidato – e que este tenha nome limpo na praça para ter mais sorte. É sempre melhor dizer “eu estou executivo” do que “eu sou executivo”. Quando se perde essa condição a dor é minimizada ou potencializada a depender do verbo conjugado.

“Estou devendo na praça”, e vai continuar devendo se não conseguir um emprego que lhe dê a oportunidade de limpar o nome – ou, se não conhecer alguém que lhe estenda a mão e lhe dê crédito na palavra.

Frases do dia:

“Pimenta nos olhos dos outros é refresco”.

Augusto Avlis

Navegue no Blog  opiniaosemfronteiras.com.br e você encontrará 898 artigos publicados em 16 Categorias. Boa leitura.

 

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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