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Polícia e Segurança Pública

Almas

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Marielle Francisco da Silva, uma pessoa normal, igual a qualquer outra, sujeita a sofrer ações violentas numa cidade marcada e dominada pelo crime organizado. Marielle continuaria assim, anônima na sociedade, não fosse sua projeção na política (vereadora pelo Partido Socialismo e Liberdade/PSOL, eleita em 2016), não fosse sua militância em defesa dos direitos humanos, não fosse sua luta contra abusos cometidos pelas autoridades, sobretudo por parte de policiais em oposição direta aos moradores de comunidades carentes – pobres miseráveis, os “menos favorecidos” defendidos por ela, que justificavam hastear a bandeira da igualdade.

Marielle, de raça negra, fazia parte do “Bonde de intelectuais da favela”, socióloga e mestre em administração pública, fez currículo com muito suor e dedicação. Marielle incomodou muita gente poderosa, não conseguia esconder o seu lado de “delatora fervorosa” nos discursos que fazia. Talvez por isso ela tivesse que pagar um preço extremamente elevado pelo seu “forçado silêncio”. A carioca “da gema” Marielle Franco, assim conhecida, nasceu no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, no dia 27 de julho de 1979 e foi brutalmente executada com pelo menos 04 (quatro) tiros na cabeça no dia 14 de março de 2018, aos 38 anos, 07 meses e 15 dias. A ação dos assassinos aconteceu no bairro Estácio, Centro do Rio de Janeiro, quando Marielle voltava de um evento chamado “Jovens Negras Movendo Estruturas”, realizado num bairro vizinho, Lapa. Anderson Pedro M. Gomes (39), que dirigia o veículo onde se encontrava Marielle, também morreu alvejado, muito embora não fosse o alvo principal.

A ativista Marielle Franco nos últimos dias criticava com veemência a intervenção federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro. Duas semanas faz que ela tinha assumido a função de relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do RJ, criada especificamente para acompanhar a atuação das tropas federais na citada intervenção. O episódio da morte da vereadora Marielle não colocará em xeque o modus operandi da intervenção federal por dois motivos: primeiro, porque foi uma decisão política tomada pelo presidente Michel Temer, que fará de tudo para que nada estrague o seu projeto de poder; segundo, porque as forças policiais já receberam a exclusiva missão de capturar os assassinos, não para fazer justiça tão somente, mas para dar satisfação ao público interno e aos organismos internacionais.

O Rio de Janeiro está sob o domínio do tráfico de drogas e armas, comandado por facções criminosas da mais alta periculosidade, com ramificações internacionais, capazes de eliminar qualquer pessoa que interfira nos seus negócios e tirar do seu caminho qualquer obstáculo colocado por grupos rivais. O Estado, falido pela ação de políticos corruptos, foi cooptado por organizações sediciosas nas quais autoridades públicas foram admitidas como associadas.

A munição original utilizada pelos criminosos que mataram Marielle Franco com tiros de pistola calibre 9 mm é do lote UZZ-18 vendido para a Polícia Federal de Brasília em 29 de dezembro de 2006 pela CBC – Companhia Brasileira de Cartuchos. Leia-se matéria jornalística: “A munição desse mesmo lote foi usada na maior chacina de São Paulo em 2015, quando 17 pessoas morreram, e nos assassinatos de 05 pessoas em guerras de facções de traficantes em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Na época da chacina de São Paulo foram apreendidas cápsulas de outros quatro lotes de munição, que pertenciam, além da PF, à PM paulista e ao Exército”. O maior desafio do governo federal, já que se intrometeu na questão, é descobrir quem desviou a munição colocando-a nas mãos de bandidos e como isso se deu.

Muita água ainda vai rolar debaixo da ponte. Provavelmente algumas perguntas ficarão sem as devidas respostas. De todo modo, quando a mesma história é contada por muitas pessoas ao mesmo tempo (imprensa, autoridades, testemunhas, gente comum, pela própria polícia) acaba sendo modificada e os fatos deturpados, dificultando a compreensão e impossibilitando a sua comprovação. Tenho dito que é prudente “dar um tempo” para que as coisas se acomodem, para que as emoções exacerbadas deem lugar à razão. O caso Marielle é complexo, vai muito além de simples achismo segundo campos teóricos particulares.

Nada mais choca o país, independentemente do grau do ato perpetrado. As cenas macabras se sucedem no quotidiano da sociedade e as pessoas permanecem em estado de torpor, não se movem, não sentem nada, apenas opinam momentaneamente até que o dia seguinte as faça esquecer. A morte trágica da vereadora Marielle Franco é apenas mais uma, contabilizada na estatística do mapa da violência que cresce em progressão geométrica, não só no Rio de Janeiro, mas também em todo o Brasil – 60.000 cadáveres são jogados nas covas anualmente. Quantos destes mereceram atenção por parte das autoridades?

Momentos estarrecedores, como o da morte da vereadora Marielle Franco, são explorados indevida e politicamente pelos plantonistas de ocasião. Tirar partido da desgraça alheia é oportunidade que não deve ser desperdiçada. Há quem sinta prazer em parar o carro na estrada para tirar fotos das vítimas fatais de um acidente, dilaceradas, e depois divulgá-las nas redes sociais. É aquela coisa: “Eu divulgo, mas também apareço na imagem”. Nas profundezas da razão, um pensamento: “Permaneço vivo e os meus semelhantes mortos; é a vida”.

“A questão é que a tal Marielle não era apenas uma ‘lutadora’; ela estava engajada com bandidos! Foi eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores. […] Qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro. […] Ela, mais do que qualquer outra pessoa ‘longe da favela’ sabe como são cobradas as dívidas pelos grupos entre os quais ela transacionava” – afirmou no Facebook, anteontem, sexta-feira, 16 de março de 2018, a desembargadora Marília Castro Neves do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ). Na verdade, tudo se sabe e nada será revelado conforme os “fatos reais”. Seja como for, um dia a cobrança da dívida chega, e como chega! Tem e faz sentido a mixórdia paralela construída. Tem “cachorro grande” escondido no canil da pátria – uns ladram, outros não.

Num domingo de outono, 03 de abril de 2005, eu escrevi o artigo abaixo, de título “Trinta e uma almas”. Um texto com sentimento, que revela fato cruel, que aponta falhas no sistema, que denuncia a sublevação dos órgãos de segurança, que demonstra claramente a total desvalorização da vida humana. Repito: Nada mais choca o país, independentemente do grau do ato perpetrado. As cenas macabras se sucedem no quotidiano da sociedade e as pessoas permanecem em estado de torpor, não se movem, não sentem nada, apenas opinam momentaneamente até que o dia seguinte as faça esquecer. Leia.

Trinta e uma almas

Quinta-feira, 31 de março de 2005. Dois dias antes da morte do papa João Paulo II, a Baixada Fluminense era palco da maior chacina da história do Rio de Janeiro, onde 30 pessoas inocentes, inclusive crianças, foram sumária e covardemente executadas sem a mínima chance de defesa. Não há justificativa, nem perdão, ainda que paire a suspeita do crime ter sido motivado por vingança e represália de policiais militares, com fortes indícios de antecedentes criminais, que se sentiram ameaçados pela ação “linha dura” imposta pelo comandante da corporação onde estavam lotados – um crime puxando outro. Vamos ver se agora os holofotes se voltem para esse crime hediondo, selvagem e cruel e iluminem o quanto antes as caras dos algozes.

O fato – torpe na sua essência – merece destaque na mídia até que tudo fique esclarecido e os culpados condenados ao rigor das leis dos homens. A Justiça precisa agir rápido antes que o corporativismo da Polícia prevaleça, encontrando meios de dificultar as investigações e acabar inocentando os verdadeiros autores dessa atrocidade. Nunca, o lado animal do homem irracional ficou tão em evidência. A chacina de Vigário Geral, também no Rio, deixou sequelas incuráveis e profundas chagas nos cariocas, nos brasileiros e no resto do mundo.

Espero que esse triste e abominável novo episódio não se converta em estímulo para a ação desafiadora de outros grupos de extermínio propostos a superá-lo. Temos que acordar da hipnose coletiva e reagir frontalmente. Basta! Contra a força maligna tem que haver resistência. Se existir Céu, rogo à alma de João Paulo II para que receba e conforte esses 30 espíritos que tiveram na Terra um desenlace doloroso, inesperado e agoniado – pessoas que perderam a vida por nada. Há muito eu não chorava – hoje, em silêncio, eu consegui chorar.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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