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Política

Carta ao povo brasileiro

Carta ao povo brasileiro

Para falar com o “povo comum” eu tenho que sair desse universo, colocar-me num patamar pra não me deixar contaminar, ou seduzir, permanecer isento, salvaguardar as críticas, de modo que só precisarei ficar distante da “massa global”. Para falar com esse “povo comum” eu não necessitarei da mídia convencional e de horários nobres, nem de megafone. Falarei através de palavras escritas. Cabe ao “povo comum” interpretá-las se capaz for. Comprometo-me a usar a simplicidade no texto, ainda que possa dificultar a compreensão. De todo modo, penso que seria melhor deixar tudo como está, evitar provocações, não futucar feridas. Falar e escrever para um público pouco esclarecido, não necessariamente comum, me remete ao deserto, onde percebo um camelo olhando fixamente para a pirâmide de Quéops.

Camelos e pessoas têm muita coisa em comum – cada qual no seu deserto. Escrevo agora para o mesmo povo que não se cansa de dizer “Eu tenho vergonha de ser brasileiro”; simples palavras jogadas ao vento, sem justificativas maiores ou identificação de causas menores. O povo brasileiro deveria ser o “juiz natural” das causas públicas, todavia, não consegue enxergar essa importante missão, seja na objetividade quanto na subjetividade. A liberdade pressupõe respeito a determinados princípios, a valores inalienáveis. De nada adianta a cobrança de direitos sem o prévio cumprimento de obrigações pessoais. O livre arbítrio me dá o direito de agir segundo a minha vontade, de pensar e expor ideias. A partir do momento que prejudico o semelhante com os meus atos, a liberdade que tanto defendo passa a ser questionada. Ainda que o conceito de liberdade seja, na essência, utópico, eu considero inatingível a sua plenitude porque o individuo não é totalmente independente e autônomo. Viver em sociedade significa depender uns dos outros. Regra geral, isso faz sentido, porque nas comunidades, por menores que sejam, há sempre mãos estendidas para aqueles que querem andar com as próprias pernas. Talvez a falta de reconhecimento leva o indivíduo a blasfemar.

Você, cidadão comum, não deveria ter vergonha de ser brasileiro, porque não faz a sua parte. Nem por isso a sua cara fica vermelha por vergonha. Cobra do governo uma cidade limpa e joga lixo nas ruas e ainda varre toda a sujeira da sua porta e joga na do vizinho; combate com veemência a corrupção e não devolve o troco recebido a maior; quer levar vantagem em tudo; fala mal dos políticos nos quais vota seguidas vezes; fura fila de banco; não estuda, não tem hábito de leitura e se acha apto a dar opiniões sobre temas que não domina; se faz passar por idoso ou deficiente físico para ocupar vaga exclusiva de estacionamento; ouve som alto fora de horários permitidos; reclama da escola do filho, mas não tem paciência ou capacidade para lhe ensinar; omite-se perante atos ilícitos, e por vezes os estimula, enfim, essas são apenas dez situações, dentre tantas outras, que permeiam a vida cotidiana. Por que a culpa é sempre dos outros? A resposta é uma só, sem margem a erros ou dúvidas: Porque não nos assumimos como cidadãos de fato e de direito, com civilidade e espírito de justiça. É tempo de evolução.

Tá tudo bem, tá tudo legal – vamos levando enquanto Deus quiser. Levando como bom amante latino passivo. Pesquisa realizada no final de 2015 pelo Instituto britânico Ipsis Mori entre 33 nações avaliadas, chamada “Perils of Perception” (Perigos da Percepção), revelou que o Brasil é o 3º país mais ignorante do mundo. Segundo o estudo, os brasileiros demonstraram níveis de ignorância mais baixos do que os mexicanos (1º lugar) e do que os indianos (2º lugar). A ideia do Instituto Ipsis Mori era levantar “percepções” de grupos de pessoas sobre os seus próprios países. Ora, se a gente não conhece o próprio país, do ponto de vista de informações básicas, é fácil prever o futuro. Não? A “ignorância bruta” do povo brasileiro foi substituída por outra forma, ou seja, pela “ignorância sofisticada”, em razão do emprego das mídias (redes) sociais, onde a troca de insultos generalizados tomou conta do espaço que, teoricamente, deveria ser reservado para a troca de informações úteis, independente das relações sociais.

Cada povo tem o governo que merece. Ou será que cada governo tem o povo que merece? Seja qual for a afirmativa ambos se merecem, povo e governo, no meio do caos social e do descaso, do desprezo político. O Brasil é, reconhecidamente, uma República das Bananas latino-americana. Merecemos esta comenda porque o povo não reconhece o seu próprio valor, não sabe avaliar a sua força, desconhece as Leis. Leia-se: Constituição Federal de 1988Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. Sublinho. Então, por lógica, todo o estado de coisas pelo qual passa o Brasil é de total responsabilidade do povo, que tem o poder nas mãos e não sabe como usá-lo. Os políticos corruptos que se encontram no exercício dos seus mandatos estão lá porque o povo os colocou – eles não chegaram lá sozinhos, precisaram dos votos dos eleitores ignorantes. Lembre-se: O Brasil é o 3º país mais ignorante do mundo. Nos anos 80, época da redemocratização do país, Pelé disse: “Nós brasileiros temos que votar na pessoa certa, com seriedade, a gente não pode votar só porque a gente ganha um prêmio”. Imediatamente esta frase foi traduzida em miúdos: “Pelé disse que os brasileiros não sabem votar”. Por conta disso o Rei do futebol foi quase massacrado. Seja por mera interpretação, ou por força de expressão, a verdade é que hoje os brasileiros continuam não sabendo votar, de modo que perdem excelentes oportunidades para promoverem uma faxina ética na política brasileira. O eleitor se votasse com consciência e plena convicção, provavelmente exerceria o papel fiscalizador, mas, infelizmente, sabemos que não é isso que acontece na prática; terminada a eleição ele assume um comportamento acomodado, descompromissado, e, na maioria das vezes, esquece em quem votou e para que cargos eletivos. Os brasileiros não têm formação política, matéria na qual ficariam reprovados se ministrada nas escolas.

No Brasil, o quantitativo de votos prevalece sobre a “escolha qualitativa”. A qualidade do eleitor comumente se nivela à porcaria do político eleito. Qual a formação política dos jovens de 16 e 17 anos? Nenhuma, mas eles têm o direito de votar, por opção concedida. Qual a formação política de uma pessoa analfabeta? Nenhuma, mas ela também tem o direito ao voto em caráter facultativo. Qual a formação política dos eleitores considerados analfabetos funcionais? Nenhuma, mas eles votam. Qual a formação política da esmagadora maioria dos brasileiros? Nenhuma, mas essa maioria vota e pode definir os pleitos eleitorais. Onde queremos chegar com esse triste quadro, com essa dura realidade? Você não sabe? Como toda mudança de sistemas e paradigmas políticos tem que partir da iniciativa popular, então, resta-nos sentar e esperar. O passar do tempo inútil acaba com a suposta cautela do povo e com as expectativas, faz brotar a revolta e ações intempestivas – nesse sentido, as decepções poderão ficar pra trás à medida da tomada de iniciativas. Algo difícil, porém, não impossível. É tempo de reflexão.

A meu sentir, de nada adianta mudar o sistema político brasileiro e a lei eleitoral se o problema está na figura do “homem político”, que carrega consigo o maldito DNA da corrupção, de modo que enquanto não tivermos candidatos “considerados” honestos, éticos no comportamento e compromissados com a coisa pública, fica praticamente impossível mudar o lamentável quadro que tanto nos tem envergonhado aqui dentro e lá fora. As eventuais punições por parte da Justiça (muitas sentenças com caráter paliativo que não eliminam as causas da corrupção) são insuficientes, não corrigem de plano os políticos, não eliminam as más sementes e, sobretudo, não matam os herdeiros de práticas espúrias – estes sobrevivem a Tsunamis. Se o povo não sabe, pelo menos deveria desconfiar que no submundo da política brasileira existem interesses corporativos em jogo. Ministros que ocupam assentos em Tribunais Superiores, sobretudo de Justiça, têm demonstrado parcialidade e algum tipo de “relação promíscua” com a classe política – aqueles que negam tal fato no mínimo são cúmplices pela omissão. Importante dizer que esses magistrados (togados) não conseguem disfarçar as suas atitudes nos Tribunais, sobretudo em épocas de julgamentos. Do lado da plebe (casta inferior), percebe-se que não há entendimento do que se passa nos altos escalões, por simples razões: total ausência de capacidade intelectual, má formação educacional e falta de interesse a assuntos estranhos ao seu nível de compreensão. Quando se chora o leite derramado não há consolo.

A Operação Lava-Jato está colocando de joelhos a classe política (em todas as suas esferas de poder), as empreiteiras e as estatais. A “lavagem” do Poder Judiciário ficará para um futuro próximo, tendo em vista a necessidade da sua preservação, caso contrário se instalaria no país uma instabilidade sem precedentes, com prejuízo para a própria Operação Lava-Jato. Não resta a menor dúvida do envolvimento de figurões do Judiciário nos escândalos de corrupção na Petrobras e em outras estatais. Agora me parecem claros os motivos da reincidência dos políticos em práticas criminosas, em primeiro lugar porque não têm medo da Justiça pela razão colocada e, em segundo lugar, porque a certeza da impunidade decorre da relação promíscua. Políticos há que por época do Mensalão (Ação Penal 470 no STF) apesar de já terem cometido crimes e delitos, os cometeram novamente no Petrolão, ou melhor, não pararam de cometê-los com todas as “garantias constitucionais”.

Nojo, asco, repugnância, sentimentos de aversão. Os cidadãos mais esclarecidos devem estar amargando estas sensações com a divulgação dos depoimentos dos ex-executivos da maior empreiteira do Brasil, Odebrecht. A quebra do sigilo das delações premiadas desses “não menos bandidos” fez emergir o lamaçal produzido pela política brasileira – antes sentíamos o mau cheiro e agora pisamos no atoleiro. Revelações estarrecedoras que provam o quanto nós brasileiros estamos despreparados para o desfrute da liberdade imaginária, o quanto nós brasileiros nos desqualificamos como “juiz natural” das causas públicas. É para isso que tanto lutamos pela “Abertura Política”? É essa a Democracia que queremos? A “massa global” não entenderia que o processo de liberalização do regime militar, que se iniciou em 1974 e acabou em 1988 com a promulgação da Nova Constituição, cevou um monstro chamado corrupção, que hoje se alimenta vorazmente da ganância dos nossos representantes políticos civis.

A justiça social precede a harmonia social. Sem a primeira não existiria a segunda; ambas têm que coexistir. Aos olhos do povo desinformado as crises éticas viram paisagens e, dependendo da estação do tempo, não despertam interesse – o bonde passa e as imagens desaparecem na neblina. A casa Brasil não comporta reformas porque ela já caiu – a população passa por cima dos escombros e ainda chuta os tijolos espalhados. Afinal, o quê queremos? Fechamos os olhos quando deveriam estar abertos. O governo tenta aprovar as reformas prometidas há décadas, Previdência e Trabalhista, nem que para isso tenha que se submeter ao expediente do “toma lá, dá cá” e à distribuição obrigatória de pedras preciosas da coroa. A sociedade civil, dita organizada, ficou de fora dos jantares suntuosos do Palácio do Jaburu, mas não esquecida para pagar a alta conta deixada no prego. A saída do Brasil não é pela porta dos fundos.

Os políticos tentam sobreviver numa atmosfera insalubre e chegar respirando em 2018. Michel Temer (PMDB-SP), o vice-presidente disfarçado, foi incluído na “Lista” do relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Edson Fachin, mas, não pode ser investigado por atos ilícitos cometidos anteriormente ao seu atual mandato. Uma vez ladrão, sempre ladrão; uma vez corrupto, sempre corrupto. Mas, aqui nessas terras tupiniquins, a máscara do ladrão é tirada na mudança de ambiente e o corrupto não se diz ativo nem passivo. Já vimos este filme antes com seguidas reprises. Senadores e deputados federais agarram-se ao Foro Privilegiado com o mesmo ímpeto do baba-ovo quando gruda no saco do chefe. Entre feridos todos se fazem de mortos.

Salvar a própria pele é o que todos os políticos corruptos querem na tentativa de se reelegerem em 2018 e assim garantir a proteção do STF. Quem não chora não mama. Só tem um jeito de se acabar com o Foro Privilegiado (foro especial por prerrogativa de função), é o povo não votar nos políticos envolvidos com corrupção, sublinho, sobretudo aqueles investigados e denunciados na Lava-Jato. Sem mandato, os políticos viram pessoas comuns (virar cidadãos é outra coisa) e passam a responder nas 1ª e 2ª Instâncias de Justiça. Simples assim, basta o povo entender o verdadeiro poder que tem sem lançar mãos às armas; não se deixar manipular por falsas promessas dos políticos; não se imbecilizar pelo Marketing partidário e compreender que a faxina ética na política brasileira é a única saída para a reconstrução de um Brasil melhor para as novas gerações. O sistema político que aí está acabou. Afinal, todos nós deveríamos ser iguais perante as Leis brasileiras, conforme rege a Constituição Federal de 1988, segundo seu Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

Como os brasileiros, de um modo geral, têm memória curta, e, em inúmeros casos, a memória lhes falta, recomendo que a mídia disponibilize a relação completa dos políticos investigados, denunciados e condenados na Operação Lava-Jato antes das eleições de 2018, a tempo do povo pouco esclarecido se convencer de que neles não pode votar jamais. Povo brasileiro, não se sinta ofendido por tudo que foi dito. Se você não gostaria de estar classificado em uma das categorias “povo comum”, “cidadão comum”, “massa global”, “público pouco esclarecido”, “povo desinformado”, por entender que está num patamar superior, então, desconsidere esta carta e aproveite melhor o seu tempo lendo histórias infantis. Se perdão eu tivesse que pedir a alguém, esse alguém seria o camelo, por não compreender a sua opção de neutralidade quando olhava fixamente para a pirâmide de Quéops. Pelo menos, os animais do gênero ungulados artiodáctilos não dirão “Eu tenho vergonha de ser um Camelus dromedarius”, “Eu tenho vergonha de ser um Camelus bactrianus”. Lembre-se povo brasileiro: A ignorância coexiste com a desinformação. Ponto.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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