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Política

Carta a Eduardo Cunha

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Eduardo Cosentino da Cunha

Praça dos Três Poderes – Câmara dos Deputados

Gabinete: 510 – Anexo: IV

CEP: 70160-900 – Brasília-DF

dep.eduardocunha@camara.leg.br

Senhor Deputado Federal,

Vossa Excelência não me conhece, como também não conhece os cidadãos eleitores. Somos os brasileiros sem rosto, para os quais os políticos falam sem ter que olhar nos nossos olhos. Em primeiro lugar, humildemente, eu peço perdão por usar uma foto sem permissão de Vossa Excelência, capturada na Internet em meio a milhares, mas, foi a que melhor reflete o momento atual – a abertura das portas do Inferno à vossa frente, o que explica a vossa cara de espanto e de poucos amigos. Em segundo lugar, eu tive dúvida sobre qual pronome de tratamento a empregar, porém, numa breve pesquisa descobri que para as autoridades do Poder Legislativo eu deveria usar “Vossa Excelência”. Na verdade, eu confesso que gostaria de chamá-lo de Filho da Puta, sem aspas, uma forma de tratamento direto, curto e grosso. Vossa Excelência fez por merecer. Nesse terceiro milênio da era Cristã, é estratégico ser amigo de Deus e do Diabo, consoante a necessidade de se fazer jogo duplo. Recrudesce a luta pela sobrevivência.

Sou um simples homem do povo, um pobre trabalhador que rala diariamente para ganhar o pão, pego trem lotado com a marmita debaixo de braço e na maioria das vezes engulo às pressas o rango frio, azedo talvez. A obra na qual trabalho não pode parar, de modo que a digestão faço com uma pá na mão. Pego o mesmo trem de volta pra casa, cantarolando um pagode do Zeca. Chego em casa, já é noite. Beijo a patroa na testa, fiel mulher que me espera com a sobra de macarrão do almoço e um ovo frito por cima; os moleques, dois, alimentados com pão e “mortandela” da marca Confiança, estão brincando com os filhos do vizinho, coisa saudável, nada de mocinho e bandido com armas de plástico ofensivas – na campanha do desarmamento eles trocaram um revolver de cor azul e uma pistola de cor laranja por dois pintos, que morreram na mesma semana, eu até acho que foi de propósito porque as aves sabiam que iriam em breve pra panela com tomate amassado da feira e cebola de promoção. Os dois pintos jamais chegariam à idade adulta. Tablets e smartphones, nem pensar, só vistos em anúncios de jornais, aqueles coloridos dos encartes, chamativos por orientação do Marketing destrutivo.

Uma coisa que Vossa Excelência não sabe é o significado de dignidade. Viver com pouco e ter uma família feliz, unida, trabalhadora – ah, eu esqueci de dizer que os meninos limpam quintal e catam recicláveis para ajudar no sustento. A escassez tem o poder de fortalecer as pessoas que vivem e convivem juntas. Deitar a cabeça no travesseiro de espuma ruim é gostoso quando não pinta sentimento de remorso e, com satisfação, dizer “fiz a minha parte”. Acordar de madrugada sobressaltado não tenho costume, só no dia seguinte para começar tudo de novo – não é sina, é dever. No final de semana, sempre que falta carona pra praia, bato uma pelada com a rapaziada e no final um churrasquinho no bar do seu Manel com asas de frango temperadas compradas no EPA, prestes a vencer, e linguiça de 5ª que quase some no braseiro de tanto pingar gordura de mau cheiro. É muito provável que Vossa Excelência não saiba que a felicidade não está nos bens materiais que possuímos, mas nos prazeres que usufruímos dentro da nossa realidade, além disso, tenho a plena consciência que dinheiro não se come e não compra tudo que se quer. Amizade sem interesse só na pobreza.

Não pretendo falar mais sobre a minha pessoa, até porque o objetivo desta carta é outro. Vossa Excelência está pagando um preço muito elevado por desconsiderar os verdadeiros valores da vida, aliás, poucos anos faltam para a vossa morte. Nascido carioca em 29 de setembro de 1958, Vossa Excelência tem 57 anos, quatro a menos do que a jornalista da TV Globo Sandra Moreyra, que morreu de câncer, aos 61 anos, no Rio de Janeiro, na última terça-feira, 10 de novembro de 2015. Para morrer basta estar vivo, já dizia a minha avó portuguesa Thomázia de Jesus Ferreira. Vossa Excelência pode estar carregando dentro de si uma grave doença, sem cura. Digo isso porque o meu santo protetor, São Jorge (Ogum Beira-Mar), me autorizou. O vosso maldito dinheiro (confessada a propriedade) não será colocado no vosso caixão. Recomendarei aos familiares um epitáfio na lápide: “Não fui dono de nada, apenas assumi a posse transitória dos bens”. Se adquiridos desonestamente a Justiça provará.

Atos de corrupção são repudiados pela maioria dos brasileiros, todavia, há aqueles que julgam normais as ilicitudes praticadas por políticos, mesmo porque os que concordam gostariam de estar no lugar deles, roubando o erário, metendo a mão grande no dinheiro público, não se importando com nada, dando-se bem no decurso do mandato, que pode ser só um. Então, o político desonesto deve pensar: “Tenho que arrumar a minha vida agora e depois tentar voltar na próxima eleição”. Cerca de 99% dos políticos desmoralizaram a profissão de ladrão, aquele ladrão de outrora que tinha código de ética no exercício da atividade. O bandido do político de hoje age na tremenda cara dura, mente e julga que somos todos idiotas. Vossa Excelência pode ficar tranquilo porque os seus pares são iguais (1% é diferente) e têm rabo preso. Para que determinadas ratazanas escapem ilesas, outras são induzidas a cair nas ratoeiras. Na toca dos ratos também há a figura da rainha; o rei rato comanda a abertura de novos esconderijos. Talvez a solução para salvar temporariamente o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), Eduardo Cunha, perdão, Vossa Excelência foi escolhido para a imolação em ritual macabro. Disso o senador Fernando Collor entende, tanto que teve os seus carros de luxo devolvidos após três sessões de magia negra. Até a economia é movida pela corrupção no Brasil, sem ela todo mundo fica perdido, batendo cabeça e sem saber o que fazer.

Filhos das Putas; Vossa Excelência pode se classificar dentro deste conceito, assim como os juízes de futebol. Xingar a mãe viva ou morta não é problema, mesmo na cova ela reconhece a escolha do filho. Esposa, filhos e parentes próximos emprestam os seus nomes à quadrilha para pulverizar o produto da corrupção. Virou moda na podre política brasileira – o Diabo rende homenagens pela criatividade diabólica. Obras de arte, jóias, carros, iates, imóveis, dinheiro em paraísos fiscais, são desejos de consumo do crime organizado, que se manifesta nos seus vários matizes e facções homologadas. As ideologias são mutantes e o roubo continuado dever de ofício. A relação é espúria em ambiente de canibalismo; uns comendo os outros; todo mundo comprometido consigo mesmo. Fodam-se os que me contrariarem. Apostar todas as fichas na impunidade é regra parlamentar; mercadejar a falsa honestidade começa na campanha política. O Brasil é um paraíso de ladrões e continuará assim por longo tempo, de tal modo que os honestos são forjados com forma da impotência. O modus operandi dos ladrões se molda a depender das oportunidades. Vossa Excelência bem conhece as Casas de Leis na sua maior intimidade – particularidade que vos dá relativa vantagem se ameaçar abrir a boca (sem delação premiada) e revelar os segredos de Roma. Para isso Vossa Excelência precisa ter coragem e compromisso com o país, a meu sentir não tem. Sobra escárnio sobre a vossa mesa e sorriso amarelo em sua boca. Bazófia, simplesmente presunção de vossa parte; vaidade excessiva que só prejudica.

Pessoas que estão na base da pirâmide social (em classes mais baixas do que cu de cobra) comentam nos bares da esquina que o STF, STJ, CGU, TCU, AGU, TSE, e todas as siglas partidárias são representações das facções criminosas brasileiras. Exagero. Não perco tempo em demover esta ideia da cabeça da “raia miúda”. Basta procurar entender o instituto do Foro privilegiado (Prerrogativa de foro ou de juízo) para que um ponto de interrogação se instale na nossa cabeça napoleônica. O político ladrão deveria ser julgado como um batedor de carteiras comum e banido definitivamente da política. Vossa Excelência me conceda perdão pela minha ignorância. O povo professa impropérios e os políticos exibem sensibilidades. Estou certo? O ladrão de galinhas deve se considerar um merda, enquanto os ladrões de melhor estirpe estimulados pelos maus exemplos vindos de cima. No fundo, no fundo, eu acho que Vossa Excelência está cumprindo religiosamente o vosso papel como bom religioso (evangélico) que é. Roubar foi uma missão dada por um Deus de pano. Não adianta ajoelhar-se frente ao altar da devassidão e pedir clemência aos santos de pau oco – muitos já terão virado a cara ao falso fiel, libertino, pervertido, depravado, corrompido. Que apareça algum filho da puta (outro) disposto a atirar a primeira pedra – nessa iminência, o PT roubaria as pedras.

Se Vossa Excelência cair, que tenha a hombridade de carregar outros políticos do mesmo saco juntos, ainda que não sejam farinha. A presidente Dilma Rousseff deve estar dando graças ao seu Deus (dela) pelo fato de Vossa Excelência ter se tornado a bola da vez, o que fez desviar o foco que pairava sobre ela. Com isso, a incompetente ganha tempo fora da mídia da denúncia. O “Fora Cunha” está tomando corpo por todo o Brasil. Agora é tarde para Vossa Excelência gritar “Fora Dilma” com a aceitação do processo de Impeachment, também pudera, o douto presidente da Câmara dos Deputados trocou a caneta Montblanc pelo pé de cabra. Se não me falha a memória, há quem afirme que Vossa Excelência perdeu a credibilidade para tomar essa decisão, a do Impeachment, e continuará sem ela, a credibilidade, mesmo que a Comissão de Ética (?) da Câmara dos Deputados não acate o pedido de vossa cassação – pela prática de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e, sobretudo, pelo fato de ter mentido na CPI da Petrobras omitindo contas no exterior –, formulado pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e pelo Partido Rede Sustentabilidade (PRS). Tá todo mundo mentindo, até o Papa Francisco sobre as finanças do Vaticano, contudo, é bem provável que a verdade externada por Vossa Excelência acabará prevalecendo sob o manto sagrado do corporativismo. Novas ondas de lama chegarão à Brasília. Não se pode afirmar a salvação de todos – soterrados muitos ficarão, e que o meu Deus verdadeiro permita que Vossa Excelência seja uma dessas pessoas.

Defendo de peito aberto o afastamento imediato do parlamentar acusado pelo cometimento de algum tipo de crime para que possa se defender em “liberdade assistida”. Mas como afastar os parlamentares corruptos sob suspeita (e os do Poder Executivo também) se eles próprios criam determinadas situações e legislam a favor dos interesses pessoais e de grupos nefastos? Infelizmente, temos que admitir isso. Manter-se no cargo é o objetivo do político, sobretudo quando denúncias pesam contra ele. O mandato é o maior e o melhor escudo de defesa, por isso, Vossa Excelência deve estar dando uma de equilibrista de circo para manter o cargo de presidente da Casa a partir do momento que foi envolvido nas investigações da Lava-Jato. Malditos os procuradores da República que fazem parte da força-tarefa da Operação Lava-Jato; deveriam “lavar” outra coisa, bem longe dos probos políticos. Vejam só o grande rebuliço que causaram no país. Nunca dantes na história do Brasil… Imagine, Vossa Excelência, a raposada entrando num lotado galinheiro – de nada adiantará as galinhas gordas pedirem proteção ao galo Paulão; este será comido primeiro.

Os militares estão se lixando pra tudo que está acontecendo. Vocês não quiseram a abertura democrática? Agora aguentem a rebordosa. A malversação do dinheiro público foi a primeira providência tomada pelos líderes civis depois que tomaram o poder da República das bananas. Já era esperado. O deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PP-RJ), capitão da reserva do Exército Brasileiro, disse que “O grande mal do Brasil hoje é o PT”, um discurso que mantém vivo, todavia, recomendo a sua volta ao quartel, pelo menos duas vezes por semana, para coordenar a limpeza das armas e verificar o estoque de munição para qualquer eventualidade. Concordo com Bolsonaro numa coisa, a sua frase, e reafirmo as minhas duas palavras, armas e munição.

Vossa Excelência possui um currículo de dar inveja, chancelado pelo PMDB. Foi eleito deputado federal pela primeira vez em 2002 (pelo PPB) e reeleito nas eleições de 2006, 2010 e 2014 (pelo PMDB), cujo mandato terminará em 2018, isso se Vossa Excelência resistir ao fogo cruzado, ao fogo amigo. Vossa Excelência presidiu a Telerj no governo Collor, comandou a CEHAB – Companhia Estadual de Habitação e Obras no mandato de Anthony Garotinho. Em 1º de fevereiro deste ano foi eleito presidente da Câmara dos Deputados com 267 votos, onde está até hoje. Leia-se: “Na sua trajetória política destaque do seu envolvimento com PC Farias. No ano de 1989, Paulo César Farias convidou Eduardo Cunha, perdão, Vossa Excelência, a se filiar ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN) e a fazer parte do núcleo da campanha do então candidato Fernando Collor de Mello. Na época, Vossa Excelência atuou como tesoureiro do Comitê Eleitoral de Collor no Rio de Janeiro. Em 1991, atendendo à sugestão de PC Farias, Collor nomeou Cunha para o comando da Telerj, a então empresa fluminense de telecomunicações. Como presidente da companhia, o TCU – Tribunal de Contas da União constatou irregularidades na contratação de servidores sem concurso, tratamento privilegiado a determinados fornecedores e falhas na licitação para a edição de catálogos telefônicos. Responsável pela implementação da telefonia celular no Rio de Janeiro, Vossa Excelência envolveu-se em um escândalo de superfaturamento, quando foi descoberto que ele havia assinado um aditivo de US$ 92 milhões a um contrato da Telerj com a fornecedora de equipamentos telefônicos NEC do Brasil, empresa controlada pelo empresário Roberto Marinho, em vez de abrir nova licitação. Com a descoberta do Esquema PC em 1992, que culminaria no Impeachment do presidente Collor naquele mesmo ano, foi exonerado da presidência da Telerj em 1993, já no governo Itamar Franco. Investigado no Esquema PC, Cunha (Vossa Excelência) negou ter participado das atividades ilegais descobertas neste esquema de corrupção”.

Qualquer coisa que fale, além disso, é “chover no molhado”, correr o risco de ser redundante. Vossa Excelência, por descuido, pode ter roubado, ou melhor, se apropriado de dinheiro público nos cargos públicos que ocupou no passado. Embora negue veemente e peremptoriamente a corrupção passiva no montante de US$ 05 milhões no Petrolão (eu acho que é mais), um alento põe a cabeça pra fora no parto da proposta de repatriação de dinheiro, digamos, “quase sujo”. A Câmara dos Deputados aprovou na noite desta quarta-feira, 11, por 351 votos a favor, 48 contra e 05 abstenções, a Lei da Repatriação, ou seja, a regularização dos recursos enviados ao exterior sem a devida declaração à Receita Federal. Ela anistia os crimes de sonegação fiscal e evasão de divisas, entre outros. No apagar das luzes, o PSDB conseguiu aprovar um destaque que proíbe detentores de cargos, empregos e funções públicas de direção e eletivas, nem ao respectivo cônjuge e aos parentes consanguíneos e afins, até o segundo grau ou por adoção, de se beneficiarem da respectiva Lei. Isso fere de morte os políticos envolvidos na Lava-Jato que tenham recursos no exterior, porque não poderão se beneficiar do programa. A Lei de Repatriação não é perfeita, seria infantilidade acreditar que se aplicaria tão somente a “recursos lícitos”, portanto, é extremamente difícil fazer a separação, sobretudo nos casos de lavagem de dinheiro. O declarante tem que dizer que o dinheiro não tem origem criminosa. Mas, como separar isso, o quase ilícito do totalmente ilícito? As portas estão abertas para a “legalização” de dinheiro sujo, além de outros bens. Vossa Excelência poderia branquear todas as verdinhas que possui nas quatro contas na Suíça se houvesse tempo para isso. As autoridades são benevolentes desde que a mídia não toque no assunto ou se houver o milagre da reprodução dos peixes.

Vá se ferrar procurador-geral da República, Vossa Excelência Rodrigo Janot; vá encher o saco de outro; vá procurar a sua turma – esse seria o desabafo de Vossa Excelência. Com o dinheiro limpinho da Silva, Vossa Excelência poderia mandar matar os seus desafetos – importante consultar o PT, especialista em assassinatos de políticos e posterior limpeza da área para apagar as provas. O país vive uma crise moral e ética sem precedentes, face aos sucessivos escândalos de corrupção. Os mecanismos de controle do Estado são ineficientes, tornando a transparência pública um conto de fadas. Como transformar o Brasil em um país sério? Sejamos claros, não existe meia puta, meio viado, meio corno ou meio honesto. Saiba Vossa Excelência que a discussão na prática apresenta contornos perigosos. Fico estarrecido só de saber que Vossa Excelência, ferrenho evangélico, um parlamentar conservador, defensor dos valores tradicionais, contrário à união estável homoafetivo, que não concorda com a descriminalização do aborto e da maconha, que não aprova a regulação da mídia, se envolve com corrupção até o pescoço. O Impeachment da presidente Dilma Rousseff não está nas mãos de Vossa Excelência. Os vossos atos de ofício carecem de legitimidade, aliás, os atos de todo o Congresso Nacional – a legislatura 2015 deveria ser anulada na sua plenitude. Não há segurança jurídica no Congresso, basta ver a lambança que os parlamentares estão fazendo nas votações em Plenário, num completo desserviço ao Brasil. Enquanto isso, levantamento feito por peritos da Polícia Federal aponta prejuízo de R$ 42 bilhões nos cofres da Petrobras por conta do esquema de corrupção. A PF se baseou nos superfaturamentos de 27 empreiteiras somados aos percentuais de propinas pagas aos diretores da estatal e, sobretudo, aos Partidos Políticos e políticos da base aliada do governo (PT, PMDB e PP). O prejuízo tende a aumentar consideravelmente depois que a perícia for feita em outros setores da Petrobras. Vossa Excelência está conseguindo dormir direito?

Vossa Excelência deve acreditar na premissa de que o povo brasileiro não tem memória. O que chama a atenção é que quanto mais Vossa Excelência tenta explicar a origem do dinheiro no exterior, quanto mais fala, mais se enrola, e, o que é pior, não convence ninguém. Vossa Excelência pode perfeitamente ter viajado 37 vezes à África, como poderia ter viajado 43 vezes, 52, 71, 89, 105 vezes, na década de 80, ao antigo Zaire, hoje República do Congo, promovendo a venda de carne enlatada, arroz e feijão – suponho que também enlatados. Conforme vossa afirmação, trabalhou como mascate antes de entrar na vida pública em 1990. Um detalhe importantíssimo para ser considerado no vosso currículo, a profissão de “mascate”, um indivíduo que percorre as ruas vendendo tecidos, jóias, quinquilharias e outros itens inexpressivos. Vossa Excelência insiste que os US$ 05 milhões são frutos do seu trabalho como mascate. A quem Vossa Excelência quer enganar? Nem entro no mérito do potencial de compras da República do Congo; para gerar uma comissão de US$ 05 milhões, pela venda de carne enlatada, arroz e feijão (in natura ou enlatados), pergunto objetivamente: quanto foi o faturamento total decorrente das vendas? Onde está o Contrato de Representação Comercial? Como Vossa Excelência pode ter viajado 37 vezes à República do Congo na década de 80 se vosso primeiro contato com a podre política brasileira ocorreu trabalhando para as campanhas de Eliseu Resende, então candidato ao governo de Minas Gerais pelo Partido Democrático Social (PDS) na eleição de 1982, e de Moreira Franco, candidato ao governo fluminense pelo vosso Partido Político PMDB, no pleito de 1986? Haveria tempo para viajar 37 vezes a um país tão distante e exercer as atividades de mascate, mesmo com tantos compromissos que as campanhas políticas exigem? A história não bate; realmente o povo brasileiro não tem memória.

A árvore da corrupção tem raízes profundas, floresce em todas as estações do ano dando boa produção de frutos, cujas sementes germinarão no pomar da desgraça. Não guardo nenhum sentimento de amor ou ódio por Vossa Excelência, apenas imensa pena – triste para quem sente e deve ser uma tortura para quem a causa, se pintar o complexo de culpa. Sou um simples homem do povo, um pobre trabalhador que rala diariamente para ganhar o pão. Se a corrupção no Brasil fosse reduzida pela metade, talvez me sobrasse dinheiro para comprar uma marmita com compartimento térmico e assim evitar que a comida azedasse. No trem lotado, ainda encontro um tempinho para ler o livro de classe, por esse motivo, eu não sou burro do ponto de vista da falta de informação, e detenho um pouco de inteligência e discernimento para compreender o cenário de trevas em que se transformou a nossa política e nos miseráveis que se tornaram os seus artífices. Desejo à Vossa Excelência, não sucesso, apenas a oportunidade de rendição e que procure refletir sobre a decepção que tomou conta de todos nós, este sim é um dos piores sentimentos porque mostra que fomos traídos, comprova que as pessoas nas quais confiamos não foram capazes de corresponder àquilo que esperávamos. Somos brasileiros com rosto e identidade, sem esperança, mas com o espírito patriótico que nos faz ouvir o Hino Nacional de pé, com a mão no peito e arrepio na pele.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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