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Política

Qualidade de vida – 3ª parte

1O uso desta imagem não é ato de sensacionalismo, tem um importante significado, destacado simbolismo em oposição à realidade defendida pelos nossos políticos. Uma cena comum que se multiplica nas periferias de muitas cidades brasileiras formando cinturões de pobreza, longe de ser uma abstrata descrição do descaso e da negligência. Uma realidade que comove quem não tem nada a ver com ela, mas que também não se mexe para torná-la melhor. Do nosso lado fingimos que não vemos pessoas procurando restos de comida nas latas de lixo para matar a fome e, com um pouco de sorte, encontrar o que sobrou do lanche do McDonald’s comprado por alguém de classe muito superior. Retrato falado de um mundo dividido, separado pela “necessidade básica” do acúmulo de riquezas por uma minoria que respira ar diferente e se alimenta de forma conveniente. Falta-nos capacidade para sentir a dor alheia porque não a sentimos na carne e na alma e também porque não fomos nós que perdemos as oportunidades na vida. Por onde andarão os pais dessas crianças? Se é que têm família! Uma pergunta que também não nos interessa na medida em que as respostas não mudarão o quadro de completa desolação, apenas as desculpas estimularão os políticos no exercício de mais promessas em períodos de campanhas eleitorais, enquanto os veículos de comunicação capturam as imagens do flagelo social para comover a audiência. Amanhã será um novo dia, a cidade acordará para o trabalho e tudo continuará exatamente como está. Até quando?

Será que os nossos políticos corruptos, Made in Brazil, se sensibilizam, se comovem? Na verdade eu acho que não. Pessoas sem escrúpulos jamais conferem os danos que causam aos semelhantes. Seguem em frente e não olham pra trás. É dessa maneira que procedem os corruptos e os corruptores, porque a via da corrupção tem sempre duas mãos. Se, pelo menos, pudéssemos ver um pouco de vergonha na cara dessa escória, mas isso é algo impossível. No Brasil se consegue sujar dinheiro limpo para depois lavá-lo. Totalmente desprovida de espírito humanitário essa classe de políticos jamais pensa antes de desviar os recursos públicos para fins particulares – dispensa-se o relato de fatos porque são sobejamente conhecidos – e para realimentar a sanha. Bem disse Herbert de Souza: “O Brasil tem fome de ética e passa fome em consequência da falta de ética na política”. Digo que ser pobre não é defeito, é uma contingência da vida; errado é separarmos as pessoas como as indústrias classificam produtos no processo de controle de qualidade; errado é deixarmos os pobres e os miseráveis sem teto, sem comida, sem cuidados, sem dignidade, sem esperança. O pouco que sobrou da sociedade civil organizada tenta fazer a sua parte, mas o governo não faz a sua – esse é o problema.

O mais “novo antigo” caso de corrupção na Petrobras leva-nos à reflexão. Fala-se num suposto esquema de propina que desviou R$ 10 bilhões da estatal em contratos superfaturados, esquema esse engendrado por políticos de vários matizes. O chamado “Petrolão”, que rotula a versão do “Mensalão 2”. A Petrobras (Petróleo Brasileiro S.A.) é uma empresa de capital aberto, cujo acionista majoritário é o Governo do Brasil, de modo que é uma empresa estatal de economia mista. Como estarão pensando os demais acionistas com relação ao escândalo? Que providências tomarão? Eu não sei, só sei que estamos vendo o resultado do trabalho de milhares de funcionários da Petrobras sendo jogado literalmente no lixo e ser convertido em pó, ou melhor, em propina. Boris Casoy, famoso jornalista e apresentador de telejornal (Jornal da Noite, na Band, além de ser um dos âncoras da rádio BandNews FM), repete com propriedade uma de suas frases de efeito: “O Brasil precisa ser passado a limpo”. O Brasil é muito grande e certamente nessa operação faltará borracha, papel e lápis também faltarão – gente para reescrever a história é escassa. Porém, um passo gigantesco para a moralização do país será dado na direção de auditorias e fiscalização rigorosa de todas as empresas onde o governo federal tem administração direta ou indireta. Há muito tempo foi identificada nas estatais a necessidade de assepsia geral, desentupimento das vias de esgoto e punição exemplar dos responsáveis pela sujeira. Infelizmente, temos a certeza de que não conseguiremos matar todos os germes patogênicos da política nacional nessa primeira lavada.

No linguajar economês, o Brasil entrou tecnicamente em “recessão técnica” por ter registrado dois trimestres consecutivos de crescimento negativo. O IBGE divulgou os dados dos seis primeiros meses do ano, sendo que revisou para baixo o trimestre janeiro a março passando o índice de 0,2% positivo para – 0,2%; já no segundo trimestre, abril a junho, o PIB despencou 0,6%. Desculpas esfarrapadas não faltam na boca dos políticos da situação. Na verdade, se a economia não cresce, não há desenvolvimento sustentável, e se isso não ocorre, pela lei da física, os vagões saem dos trilhos por falta de velocidade contínua. A inflação bate na porta dos 7%, se bem que a percepção é de já ter passado dos 10% faz tempo. A correção de metas pelo governo mais parece uma operação de enxugar gelo em pleno deserto escaldante. Sombrio cenário econômico que fatalmente reduzirá os investimentos nos setores produtivos e na infraestrutura do país. O PIB em 2014 deverá ficar abaixo de 0,5%; em 2013 foi de 2,5%; em 2012 foi de 1% e em 2011 de 2,7%. Quatro anos consecutivos de crescimento pífio. O fato é que o crescimento do país pode ser comparado à masturbação de menino no período da puberdade – o gozo se dá em gotas.

Como podemos falar em qualidade de vida para a população se todas as condições básicas dependem dos bons resultados econômicos? Mas também o bom desempenho na economia por si não é o bastante. Num país onde há concentração de riquezas a população de baixa renda, ainda que economicamente ativa, é excluída do fator distributivo da renda. Soma-se a isso a ação predatória do governo federal, que arrecada muito e gasta mal, deixando de proporcionar serviços públicos de qualidade a quem deles precisa – em boa parte do território nacional esses serviços essenciais até inexistem. O governo brasileiro, sobretudo no período de 12 anos sob a bandeira do PT, se especializou na formação de quadrilhas “Topo de linha”, oficialmente capacitadas para a prática sistêmica da corrupção, seja ela ativa como passiva. Todo dia os noticiários são recheados com informações que não gostaríamos de saber. Empresas públicas assaltadas por aqueles que deveriam preservá-las, pelos políticos nos quais depositamos confiança através do voto. Com a mesma facilidade que se tira um doce da boca de uma criança o erário é sangrado. Os corruptos de colarinho branco, e punhos de renda, estão tirando o pão da boca do povo. Essa é uma posição pragmática, contudo, a forma de repercussão pode desencadear a indispensável cobrança. Às vezes, o cidadão fica no meio de uma encruzilhada e não sabe qual caminho escolher. Na dúvida, pega qualquer um sem saber aonde chegará, e quase sempre se perde no meio dele, mas, como bom brasileiro, não desiste e continua o estirão.

Nota de rodapé: Herbert José de Souza (61), conhecido como Betinho, nasceu na cidade de Bocaiuva, MG, no dia 03 de novembro de 1935 e morreu no Rio de Janeiro no dia 09 de agosto de 1997. Betinho era sociólogo e foi ativista dos direitos humanos, criou e dedicou-se ao projeto “Ação da cidadania contra a fome, a miséria e pela vida”.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

4 comentários sobre “Qualidade de vida – 3ª parte

  1. sim concordo com vc, isso é uma grande verdade,será que um dia muda? não só as crianças sofrem como as pessoas idosas, com suas aposentadorias chulas, sendo roubadas com um indice de reajuste pra lá de velho e ainda tem que contribuir com 11%. Qual será pior?

    Publicado por nair | 12/09/2014, 02:12
    • Estamos vivendo tempos difíceis. Já vi muita água passando por baixo das pontes brasileiras. Confesso que o atual quadro político é preocupante e não vejo saída, senão a longo prazo. A atual geração está totalmente descompromissada, perdeu importantes valores e, sobretudo, além de refém das drogras, é considerada órfã do patriotismo. Não percamos a esperança, caso contrário será o fim.

      Forte abraço,

      Augusto

      Publicado por augustoavlis | 12/09/2014, 06:56
  2. A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE. TENHAMOS MUITA FÉ.

    Publicado por nair | 30/09/2014, 21:36

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