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Política

Julgamento do Mensalão – Quatro novos hóspedes

1O comentarista da Rádio CBN, Mario Sergio Cortella, no programa de sexta-feira, 22/11/2013 (06h37min), falou sobre o “Tédio Informacional” – “Aquilo que hoje interessa amanhã deixa de ser uma notícia porque já o foi colocado. A informação que já aconteceu, que já foi divulgada, torna-se menos interessante amanhã do que hoje”. Mas, isso não é um defeito do jornalismo, mesmo porque uma notícia nunca deixa de ser notícia – fatos divulgados são atemporais, viram ‘história registrada’; o momento da observação é que modifica o sentimento. O furo de reportagem geralmente causa espanto, desperta imediata atenção; a matéria divulgada pela primeira vez, de primeira mão, atrai os leitores, ouvintes, telespectadores (consumidores de notícias) quando a manchete é de seu interesse, ainda que o desenvolvimento do tema não responda de imediato a todas as suas perguntas ou mate as naturais curiosidades. A meu sentir, informações adicionais, para a complementação posterior da notícia dada, sempre trazem fatos novos, ideias colocadas numa ordem tal que não deixam transparecer que a Indústria Cultural está falando as mesmas coisas sob prismas diferentes – neste caso o artifício do “Ctrl C” / “Ctrl V” não funciona. Voltar à notícia no dia seguinte nos leva à compreensão e, sobretudo, à reflexão.

Vide exemplos no julgamento do Mensalão, nos crimes que chocaram o país, nos acidentes de grande repercussão, etc. A sucessão de fatos (que viram notícias em cascata) dá a real velocidade na sua divulgação e determina a “data de validade” (tempo de vida útil na mídia) de cada um deles segundo escala de valores e graus de interesse geral. No processo de comunicação de massa costuma ocorrer um fenômeno interessante: Coisas de real importância “passam” despercebidamente, exceto as briguinhas de porta de colégio. Panela quente sobre a mesa tende a arrefecer ao longo do tempo. Essa é uma das lógicas da Física. Na “mesa da comunicação” as notícias esfriam, contudo, tem sempre gente disposta a degustá-las em qualquer temperatura. É evidente que o acompanhamento da Ação Penal 470 não é mais o mesmo – com os mesmos níveis de audiência –, mas, é fato também que persiste boa parte de pessoas interessadas que aguardam o desfecho do Mensalão, sobretudo quanto ao destino dos réus condenados e que em pequenos grupos estão sendo conduzidos à prisão. A própria complexidade da AP 470 deu margem a desdobramentos, o que já era esperado por todos. Divergências de conduta, jogos de vaidades provocaram desarranjos psíquicos.

Quinta-feira, 05 de dezembro de 2013. O Ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal e relator da Ação penal 470, processo do Mensalão, expediu mais quatro mandados de prisão para famosos e ilustres réus condenados. Notificada sobre os mandados, a Polícia Federal foi incumbida de prender o Deputado Federal Valdemar Costa Neto (PR/SP), o ex-Deputado Federal Pedro Corrêa (PP/MT), o ex-Deputado Federal Carlos Rodrigues, o Bispo Rodrigues (Antigo PL, hoje PR) e o ex-Vice-Presidente do Banco Rural Vinicius Samarane. Valdemar Costa Neto foi condenado a 07 anos e 10 meses de prisão, sendo 02 anos e 06 meses por Corrupção Passiva e 05 anos e 04 meses por Lavagem de Dinheiro. Foi absolvido do crime de Formação de Quadrilha. Logo após o STF determinar a sua prisão imediata na quinta-feira, 05/12/2013, Valdemar Costa Neto renunciou, também imediatamente, ao mandato de Deputado Federal, evitando, assim, segundo ele, mais um “constrangimento institucional” à Câmara, repetindo o que fizera em 01 de agosto de 2005 motivado pelas denúncias do seu envolvimento no escândalo do Mensalão. Em 2006 ele volta à cena do crime, perdão, à Câmara dos Deputados, comprando votos. Em 2010 consegue se reeleger graças às palhaçadas do Deputado Federal Tiririca (1,3 milhão de votos dos eleitores que não levam o Brasil a sério), portanto, Valdemar Costa Neto foi carregado no colo como criança dependente. Pedro Corrêa foi condenado a 07anos e 02 meses de prisão, sendo 02 anos e 06 meses por Corrupção Passiva e 04 anos e 08 meses por Lavagem de Dinheiro. Foi absolvido do crime de Formação de Quadrilha (02 anos e 03 meses), caso contrário, a sua pena total seria de 09 anos e 05 meses de prisão em regime fechado. Bispo Rodrigues foi condenado a 06 anos e 03 meses de prisão, sendo 03 anos por Corrupção Passiva e 03 anos e 03 meses por Lavagem de Dinheiro. Vinicius Samarane foi condenado a 08 anos, 09 meses e 10 dias de prisão (Regime fechado), sendo 05 anos, 03 meses e 10 dias por Lavagem de Dinheiro e 03 anos e 06 meses por Gestão Fraudulenta. O Supremo Tribunal Federal o inocentou dos crimes de Evasão de Divisas e Formação de Quadrilha.

Os “Heróis da Resistência” não são tão resistentes como propagam, ou melhor, demonstraram covardia quando “o bicho pegou”. José Genoino (PT/SP) foi o primeiro Deputado Federal a renunciar, fato ocorrido na terça-feira, 03/12/2013. O Deputado Federal André Vargas (PT/PR) encarregou-se de entregar a carta de renúncia à Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, que já sinalizava como certa a abertura do processo de cassação de Genoino. O Partido dos Trabalhadores – agindo como uma galinha que defende os pintos sob as asas – tratou logo de pedir a Genoino que abandonasse o navio: “Aí malandro, sai logo daí, urgente, porque os companheiros vão colocar na sua bunda, não há escapatória. Segura a aposentadoria de R$ 20.004,16 que dá pra garantir o leite das crianças”. O segundo foi Valdemar Costa Neto (PR/SP). Vem mais renúncia por aí. Medo da execração popular? Besteira, porque o povo não faz nada contra os políticos, só faz contra ele mesmo.

Os custos diretos para julgar a Ação Penal 470 já devem ter ultrapassado o quantum roubado pela quadrilha do Mensalão, isso sem falar nos custos indiretos e, sobretudo, nos “custos invisíveis”. Do ponto de vista da celeridade do processo, sem dúvida alguma deixou muito a desejar por “motivos visíveis”. Dentro do país, mensurar os efeitos negativos de um processo como o Mensalão tornou-se missão impossível; mais difícil ainda avaliar os estragos causados à imagem do Brasil junto à comunidade internacional – se bem que às vezes eu tenho a impressão que ela está pouco se lixando pra nós. As fraturas expostas no corpo institucional chegaram a um ponto preocupante, de modo que o mais renomado dos ortopedistas sentir-se-á incapaz de reconstituí-las ao estado original. Embora a eficácia da Lei Processual Penal no tempo (Dispõe o Artigo 2º do Código de Processo Penal que a Lei Processual Penal aplicar-se-á imediatamente, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da Lei anterior) não seja a maior das certezas, o sentimento que resta é a esperança do resgate da moralidade pública. Aos cidadãos honestos desse país, que mantêm funcionando a máquina Made in Brazil, independentemente dos “fatores climáticos”, eu pediria que não botassem as suas mãos no fogo por nada e por ninguém que tenha ligação com a política e o governo. Na perspectiva de os crimes políticos tornarem-se intermináveis, a indiferença parece ser a melhor opção. Neste caso, pedindo vênia ao comentarista da Rádio CBN, Mario Sergio Cortella, eu prefiro “Síndrome Informacional” a “Tédio Informacional”.

Augusto Avlis

Artigos políticos. Clique no Link: Livro Polítitica

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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