>
Você está lendo...
Naturismo

Nudismo

1Eu tenho hábitos antigos – confesso que não tinha a menor ideia que eram tantos –, sobretudo guardar recortes de jornais de tamanho e formato diverso (e também de outros informativos impressos pela mídia oficial) com matérias selecionadas a meu critério. Sempre acreditei que algum dia tais fragmentos de notícias serviriam para alguma coisa, como pesquisas, base para comentários atrasados, mas, na maioria das vezes, esses pedaços de papel gráfico, são jogados literalmente no lixo sem direito a segunda leitura. Esqueço, de repente, que estamos vivendo na era da Internet e tudo lá é encontrado com a sensação de ser algo novo e divulgado em tempo real. Há dias encontrei um desses tais recortes, com data de 21/07/2013, de título “Todo mundo pelado: naturistas paulistas brigam entre si pelo direito à nudez pública” – Daniela Moura (colaboração para a Folha) e Ricardo Senra, de São Paulo. Não irei repetir a matéria, de modo que se fosse para fazer isso eu teria “colado” o texto na íntegra, apenas externarei, com relativo atraso, a minha mais sincera opinião. Prometo que me expressarei de maneira direta, serei verdadeiro, como sempre fui e sou sem roupas, sem esconder o meu corpo nu e os meus pensamentos.

A declarada franqueza, tanto desnuda as intenções, quanto tenta arrancar o embuço da cara das pessoas. A propósito, estou escrevendo este artigo totalmente nu, literalmente. As opiniões, uma vez firmadas, não deveriam ser objeto de questionamentos, e sim de interpretações. Todo mundo pelado, vamos protestar nus por esse direito? Qual o problema de exibir o corpo se nós somos todos iguais, ou quase? Se isso for verdade, então, qual o motivo de tanta crítica? Os animais têm exposta a sua genitália, nem por isso causam espanto ou desmedido furor. Cães andando de um lado pro outro com o ânus pra cima, testículos pra baixo e pênis ereto, rodeando as cadelas no cio. Cavalos, que puxam carroças de materiais recicláveis, entulhos ou materiais de construção, com seus 50 centímetros de “minhápica” (pica equina) quase arrastando no chão, salvo as éguas que deles fogem. Pois é, ninguém reclama, fala mal, ou cobra providências do poder público. Essas coisas já viraram paisagem faz tempo. Onde está a imoralidade? Já vi muita gente trepando descontraidamente dentro dos carros em vias públicas; os caras ejaculando no pára-brisa, as garotas com o câmbio de marcha quase enfiado na vagina e pernas abertas sobre o painel. Legal.

Pedindo vênia aos que pensam em sentido contrário, existem feudos naturistas formados com objetivos exclusivamente financeiros, associações cobrando taxas anuais e/ou mensais dos seus associados, que não têm absolutamente nada a ver com “contribuição voluntária a título de manutenção”, nem por isso consideramos tal prática indecência ou imoralidade. Cada indivíduo tem um modo próprio de pensar, de compreender o que se passa à sua volta, de julgar segundo critérios pessoais. Modus Vivendi? Nos outros está o ridículo, não em nós. É comum a manifestação de pessoas que se dizem doutores ou experts na filosofia Naturista e, de tempos em tempos, professam besteiras na Net, quando a plateia é virtual. Críticas vazias apenas contribuem para confundir as mentes das pessoas, que não andam lá essas coisas, sobretudo pelas aflições do dia-a-dia. Naturismo, ou nudismo como preferem alguns, não se explica, se vivencia. Talvez essa seja a grande diferença entre o saber e o conhecer, entre a experiência e o achismo. Nessa construção a pedra fundamental ainda não foi lançada. Quem já experimentou sabe perfeitamente que a melhor terapia de grupo é aquela realizada com as pessoas sem roupa, totalmente desprovidas de vestimentas industrializadas. As polêmicas em torno da matéria são comuns.

Comunidades naturistas, sobretudo no Brasil, são vítimas da intolerância e da incompreensão. O direito de ficar nu cada vez mais se limita a ações isoladas, quer no ambiente doméstico como escondido nas pedreiras ou nas matas fechadas. Os ideais de liberdade esbarram no paredão da insensatez. Religiões professam falta de respeito na nudez, enquanto alguns dos seus ilustres membros praticam a pedofilia aos pés da Santa Cruz, fazem sexo com fiéis casadas e clandestinamente roubam dinheiro das igrejas e dos templos. Como falar em pudor e pecado? Deixemos o mérito da questão para outra oportunidade, de modo que este não é o fórum adequado. Vale ressaltar que a pura nudez não tem nada a ver com a sexualidade. Para Luís Fernando Beraldo, advogado e mestre em Direito Processual Penal pela USP (Universidade de São Paulo), “Nudez pura e simples, sem nenhuma conotação sexual, é um exercício do direito à liberdade de expressão e não configura crime nenhum”. O tabu sempre existiu e sempre existirá – permanecerá intocável nas cabeças napoleônicas. A hipocrisia agradece! Fato é que os “Naturistas” não conseguem o mínimo de organização, portanto, fica muito difícil defender filosofias – corpos dispersos não passam a impressão de grupo coeso. Falta liderança.

Imaginemos cabeças de gado pastando isoladamente umas das outras, de modo que não passam a ideia de rebanho. Cena bastante interessante, não? Vestidos e pelados jamais conseguem conviver pacificamente. Será vergonha de um lado ou falta de vergonha do outro? A segregação social é uma realidade da qual não podemos fugir. O conceito de pudor dá margem a várias interpretações, de sorte que qualquer, sim, qualquer, ponto de vista dá margem a questionamentos e muda os conceitos de “diferença”. Por que protestos em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil, acontecem com a participação das pessoas nuas? Seria para chamar atenção? Sabemos que para ser Naturista há regras a cumprir, assim como em qualquer sociedade organizada. Eu disse organizada. Quais regras seriam essas? Aquelas que atendessem aos interesses não explícitos? Por outro lado, a inoportuna radicalização (vista no exibicionismo), que se faz do próprio ato, é a mesma radicalização da crítica imposta. Como romper com os sistemas e padrões comportamentais se nós próprios os alimentamos com posições contrárias, sobretudo à nossa vontade só para agradar aos outros? Geralmente os hipócritas se escondem atrás das suas verdades, daquilo que acreditam ser correto. Vamos protestar nus, tirar as roupas em liberdade.

Que tal um banho de sol totalmente nu na Praça da República (originalmente conhecida como Largo dos Curros), um dos mais tradicionais pontos da capital São Paulo? Que tal participar de uma audiência pública no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, também nu? Que tal na Assembléia Legislativa ou na Câmara dos Vereadores de uma cidade qualquer? Um cidadão nu, simplesmente. Andando nu pelas ruas do Brasil o risco de assalto diminui; pegar ônibus pelado também. Qual seria a sensação? Andar nu por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, enfim, seja por onde for uma coisa é certa, talvez nos façamos presentes, talvez sejamos notados, talvez sejamos respeitados; sob sol ou chuva, noite ou dia. Quem sabe com todo o corpo molhado pela garoa, inspiremos uma letra de música recheada de críticas sociais. Crônica da nudez consentida e não castigada. O Brasil está precisando de um choque de moralidade – a devassidão política tem coberto os nossos olhos com o manto da subserviência. O que é mais ofensivo à moral e aos bons costumes? Quer saber mesmo o que vale o corpo humano? Visite o DML – Departamento Médico Legal e, na volta, me diga o que achou.

Augusto Avlis

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 158 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: