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Política

A Saúde doente.

1Por que só agora o governo federal está preocupado com a saúde da população? Anos, décadas se passaram e o que verificamos foi um amontoado de problemas que vão desde o descaso ao sucateamento do sistema de saúde. Serviços públicos que deveriam ser oferecidos ao povo com qualidade de ponta na mesma proporção dos impostos arrecadados, mas não são. Neste caso, as curvas são inversamente proporcionais, quanto mais pagamos impostos menos o governo tem a nos oferecer, todavia, os discursos rocambolescos que saem das bocas dos nossos representantes legais nos fazem acreditar que tudo está às mil maravilhas, que tudo de ruim foi herdado do governo anterior, desde que oposicionista. Na verdade, fico imaginando se não merecemos tudo isso, talvez estejamos colhendo o que plantamos, pagamos penitência à crença da burrice dos outros, porque nos consideramos inteligentes e senhores absolutos das decisões que tomamos, e achamos sempre certas. À frente dos nossos olhos, um longo tempo nos espera, porém, a mudança para melhor se desenha como incerta – provavelmente nunca aconteça.

Absolutamente nada contra, eu até acho que este intercâmbio de profissionais gabaritados já deveria ter acontecido há mais tempo. O ex-presidente Collor disse no período de campanha que os carros produzidos no país pareciam com carroças, e a consequência – um ano mais tarde e já como presidente –, foi abrir as porteiras para a importação de veículos. No conceito do atual governo, os médicos brasileiros são seletivos e não gostam de trabalhar nas periferias das grandes cidades e nos mais distantes rincões do Brasil, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, por esse motivo, não encontrou outra saída emergencial senão trazer competentes e despojados médicos do exterior para cuidar da desassistida população. Esses médicos estrangeiros chegarão no próximo mês de agosto, mês do desgosto, recrutados no programa que o Ministério da Saúde lançou na segunda-feira, dia 08 de julho de 2013, “Programa Mais Médicos para o Brasil”. Que sejam bem-vindos. Somente depois do processo de capacitação, que durará em média três semanas, eles começarão a desenvolver as suas atividades médicas nos municípios mais carentes, o que se prevê o mais tardar em setembro. Segundo previsão do governo, cerca de 4.000 médicos estrangeiros serão incorporados aos serviços públicos de saúde municipais até o final deste ano. Os países de origem são Portugal, Espanha e Cuba, inicialmente; outros países serão considerados no processo. Em três anos (2016) a estimativa é que 10.000 profissionais formados no exterior estejam atuando no Brasil.

“Essa convocação de médicos para trabalhar nas regiões mais pobres de nosso país é a resposta que estamos dando para o problema da falta desses profissionais nas nossas unidades de saúde. Quem precisa de atendimento médico não pode esperar e é por isso que estamos autorizando a vinda de médicos estrangeiros. Trata-se de uma medida emergencial. […] Os médicos estrangeiros só vão ocupar as vagas que não forem preenchidas por médicos brasileiros. Daremos prioridade aos nossos médicos, aos médicos formados aqui no Brasil, que são altamente qualificados”.

Dilma Rousseff

Na tentativa de tapar o sol com a peneira, o governo federal propõe um plano de incentivo para os médicos brasileiros que queiram atuar nas localidades carentes, oferecendo-lhes, através do Ministério da Saúde, um salário de R$ 10 mil mensais por uma jornada semanal de 40 horas. O que salta aos olhos é o fato do governo pretender resolver problemas históricos como se fossem simples, bastando, apenas, passes de mágica e a retirada de coelhos da cartola. Planejamento é justamente o que falta nas ações do governo. Arrecada-se muito e se gasta mal; o atendimento das necessidades básicas da população não recebe a devida prioridade. O Orçamento da União é uma colcha de retalhos e os recursos disponíveis usados como moeda de troca. E agora, vendo-se pressionado pelo povo nas ruas, o governo federal age como um malabarista de circo, ora faz palhaçada, ora assobia, ora dança, ora pula, ora ri, ora chora, ou, tenta fazer tudo ao mesmo instante. Trocar os pés pelas mãos é useiro e vezeiro. Para ilustrar, reproduzirei na íntegra, abaixo, o e-mail que recebi de um amigo (encaminhamento), cujo teor é por si explicativo.

Prezada Amiga Gláucia,

Que a tanto não vejo e tanto tenho saudades dos nossos chopes e bate-papos. Veja se a carta abaixo lhe esclarece um pouco mais e faz você repensar um comentário que fez, a respeito da importação de médicos estrangeiros para o Brasil. Não temos problemas, nem qualitativo nem quantitativo, com nossos Médicos. Nossos problemas se devem à negligência, incompetência e corrupção de nossos gestores, legisladores e governantes, em todas as áreas, e na saúde também. Nenhum quantitativo de médicos seja de onde for, por mais qualificados que sejam, fará mais onde não há hospitais e prontos socorros aparelhados, filosofia de saúde preventiva, respeito e preocupação com seres humanos. Naturalmente que isso não passa de saúde preventiva, política da demagogia e de péssima criatividade e inteligência. Eu lhe pergunto, por que Cuba? E não quaisquer outros lugares do mundo. E quem foi que disse (espalhou um boato) que a faculdade de medicina de Cuba é uma das melhores do mundo? Não é o que se vê na prática. Nem em Cuba, nem em lugar qualquer do mundo em que haja alguém formado lá. Eu mesmo poderia dar exemplos de uns “charlatões cubanos” daqui de Manaus. 

Abraços, 

Alcyr de Pinho Corrêa. 

Assunto: CARTA DE MÉDICA À PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF

Dilma, deixa eu te falar uma coisa! Fernanda Melo, médica, moradora e trabalhadora de Cabo Frio, cidade da baixada litorânea do Estado do Rio de Janeiro. Este ano completo 07 anos de formada pela Universidade Federal Fluminense e desde então, por opção de vida, trabalho no interior. Inclusive hoje, não moro mais num grande centro. Já trabalhei em cada canto… Você não sabe o que eu já vi e vivi, não só como médica, mas como cidadã brasileira. Já tive que comprar remédio com meu dinheiro, porque a mãe da criança só tinha R$ 2,00 para comprar o pão. Por que comprei? Porque não tinha vaga no hospital para internar e eu já tinha usado todos os espaços possíveis (inclusive do corredor!) para internar os mais graves. Você sabe o que é puxadinho? Agora, já viu dentro de enfermaria? Pois é, eu já vi. E muitos. Sabe o que é mãe e filho dormirem na mesma maca porque simplesmente não havia espaço para sequer uma cadeira? Já viu macas tão grudadas, mas tão grudadas, que na hora da visita médica era necessário chamar um por um para o consultório porque era impossível transitar na enfermaria? Já trabalhei num local em que tive que autorizar que o familiar trouxesse comida – não tinha, ora bolas! – e já trabalhei em outro que lotava na hora do lanche (diga-se refresco ralo com biscoito de péssima qualidade) que era distribuído aos que aguardavam na recepção. Já esperei 12 horas por um simples hemograma. Já perdi o paciente antes de conseguir uma mera ultrassonografia. Já vi luva descartável ser reciclada. Já deixei de conseguir vaga em UTI pra doente grave porque eu não tinha um exame complementar que justificasse o pedido. Já fui ambuzando um prematuro de 01 kg (que óbvio, a mãe não tinha feito pré natal!) por 40 km para vê-lo morrer na porta do hospital sem poder fazer nada. A ambulância não tinha nada… Tem mais, calma! Já tive que escolher direta ou indiretamente quem deveria viver. E morrer… Já ouvi muito desaforo de paciente, revoltado com tanto descaso e que na hora da raiva, desconta no médico, como eu, como meus colegas, na enfermeira, na recepcionista, no segurança, mas nunca em você. Já ouviu alguém dizer na tua cara: meu filho vai morrer e a culpa é tua? Não, né? E a culpa nem era minha, mas era tua, talvez. Ou do teu antecessor. Ou do antecessor dele… Já vi gente morrer! Óbvio, médico sempre vê gente morrendo, mas de apendicite, porque não tinha centro cirúrgico no lugar, nem ambulância pra transferir, nem vaga em outro hospital? Agonizando, de insuficiência respiratória, porque não tinha laringoscópio, não tinha tubo, não tinha respirador? De sepse, porque não tinha antibiótico, não tinha isolamento, não tinha UTI? A gente é preparada pra ver gente morrer, mas não nessas condições. Ah Dilma, você não sabe mesmo o que eu já vi! Mas deixa eu te falar uma coisa: trazer médico de Cuba, de Marte ou de qualquer outro lugar, não vai resolver nada! E você sabe bem disso. Só está tentado enrolar a gente com essa conversa fiada. É tanto descaso, tanta carência, tanto despreparo… As pessoas adoecem pela fome, pela sede, pela falta de saneamento e educação e quando procuram os hospitais, despejam em nós todas as suas frustrações, medos, incertezas… Mas às vezes eu não tenho luva e fio pra fazer uma sutura, o que dirá uma resposta para todo o seu sofrimento! O problema do interior não é a falta de médicos. É falta de estrutura, de interesse, de vergonha na cara. Na tua cara e dessa corja que te acompanha! Não é só salário que a gente reivindica. Eu não quero ganhar muito num lugar que tenha que fingir que faço medicina. E acho que a maioria dos médicos brasileiros também não. Quer um conselho? Pare de falar besteira em rede nacional e admita: já deu pra vocês! Eu sei que na hora do desespero, a gente apela, mas vamos combinar, você abusou! Se você não sabe ser “presidenta”, desculpe-me, mas eu sei ser médica, mas por conta da incompetência de vocês, não estou conseguindo exercer minha função com louvor! Não sei se isso vai chegar até você, mas já valeu pelo desabafo!

Se a carta chegou às mãos de Dilma Rousseff eu não sei; só sei que somente sensibilizaria os cidadãos de bem, os brasileiros sofridos. Os políticos, ao assumirem os cargos públicos, são vacinados contra sentimentos populares e ficam imunes a dores. Culpem os médicos brasileiros pela vossa total incompetência política e administrativa na área da saúde; importem médicos estrangeiros e, se a ideia pegar, peçam à presidente Dilma que mande importar também outros profissionais como políticos, advogados, juízes, ministros, e quem sabe, até um presidente da República. De ladrões e corruptos temos potencial para sermos os maiores exportadores do mundo. O governo federal perdeu uma excelente oportunidade de reviver um período comercial romântico, ou seja, a era do escambo. Se Dilma Rousseff tivesse proposto a troca de 4.000 políticos brasileiros por 4.000 médicos estrangeiros, certamente seria ovacionada e carregada nos braços do povo. Como ela não fez isso, só nos resta desligar os aparelhos que a mantêm viva na presidência da República.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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