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Consultoria & Marketing

Consultores & Seminários

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Transformei o meu carro literalmente numa lixeira itinerante. Em quase todo o sinal de trânsito fechado me entregam (o pior é que eu recebo sem pestanejar) toda sorte de panfletos. Em que pese a preocupação das gráficas e dos anunciantes com o meio ambiente, 99% desse material propagandístico são jogados nas ruas das nossas cidades. A frase “Não jogue este impresso em via pública” também faz parte do rol das mensagens não lidas, cada vez mais sofisticadas, sobretudo oriundas do segmento imobiliário. Como estava ao volante, pedi ao meu amigo carona que colocasse o folheto no porta-luvas junto com outros tantos. Aquele “meio de divulgação” estava cumprindo o seu papel de atingir grandes públicos em pouco tempo porque o meu amigo carona se interessou pelo que estava escrito naquela metade de papel formato A4. “É um seminário – Motivando todos para a Qualidade – que vai acontecer no próximo dia 30 de abril”, disse ele. “A propósito, o Consultor de Empresas é uma pessoa frustrada. Geralmente é um profissional que não foi bem sucedido nas empresas por onde passou, caso contrário teria permanecido em uma delas”. Completou.

Fiquei matutando aquilo durante todo o dia. Não satisfeito, convidei o meu amigo carona para jantar. Seria uma oportunidade para discutirmos com mais aprofundamento aquela coisa de “frustração”, boa chance para verificar se aquela afirmativa tinha de fato fundamento lógico. Da conversa animada, consegui depreender alguns pontos que agora divido com os meus leitores. É uma tendência normal do profissional ‘Consultor de Empresas’, no exercício das suas atividades, tentar “vender” os conceitos por ele defendidos nas organizações, das quais fez parte como colaborador, e que por algum motivo não foram aceitos pela direção das mesmas. Para isso elege os participantes dos seminários como seu público alvo. Um punhado de teorias enxertadas na cabeça dos executivos novatos, conhecimentos especulativos que na maioria das vezes nunca serão colocados em prática e, portanto, jamais conhecidos os seus efeitos. Cada qual acredita nas suas verdades, não nas suas possibilidades. Quando uma pessoa formula uma ideia por meio de palavras, por presunção, espera que os seus ouvintes irão acatá-la, deixando-a satisfeita – ego azeitado, parte-se para outra.

A literatura de temática empresarial é muito vasta. Ao longo de vários anos debruçado na janela da experiência tive a oportunidade de constatar um fenômeno interessante. Um determinado assunto, por exemplo, é abordado centenas de vezes, em centenas de livros, sob as mais variadas formas, mas que no final acabam dizendo a mesma coisa com tratamentos que passam a impressão de distintos. Um jogo de palavras articuladas, apenas, fazendo com que acatemos a ideia de estarmos lendo aquilo pela primeira vez, e quando é ao vivo através de palestras, também achamos que tudo o que ouvimos tem o caráter de exclusividade. É a mesma história contada o tempo todo. Pagamos caro para “reaprendermos” o óbvio ululante. Provavelmente coisas que já nos foram passadas em reuniões dentro da empresa por colegas colaboradores com uma visão sistêmica de processo, fundamental na administração moderna. Como temos por hábito não dar importância àquilo que realmente tem, os nossos ouvidos ficam cada vez mais obedientes à “lei da seletividade”. Com efeito, a desvalorização da “prata da casa” torna-se ato de ofício.

Conheço um cara que colecionou centenas de certificados de participação em seminários, em cursos monotemáticos, enfim, até em palestras com propostas extravagantes. “Por que daquilo tudo, a razão de tantos documentos?”. Perguntei. “É para enriquecer currículo, impressionam, muito embora os certificados não tenham o mesmo peso, o mesmo valor do diploma”. Respondeu ele. Neste caso, o primeiro objetivo é encorpar o currículo, a segunda proposta é impressionar o Departamento de Recursos Humanos e, se houver um terceiro motivo, este poderia ser de ordem psicológica. Cada participante tem uma necessidade latente, desse modo é impossível ministrar o remédio certo e em doses certas quando se dirige ao coletivo. Daí se afirmar que nada ou muito pouco é considerado aproveitável na perspectiva do ensinamento. Como informação tudo bem, como formação nem pensar! Já vi alguns executivos da linha de staff qualificando os seus comandados devidamente treinados, e, portanto prontos, para o desenvolvimento das atividades funcionais após a certificação em dois ou três seminários. É um grande erro admitir essa possibilidade.

Pisando em tapete vermelho o Consultor de Empresas se propõe a falar “Como conquistar e manter clientes”. No seu ponto de vista tarefa fácil; texto decorado, jargões prontos, perguntas engatilhadas. Da parte dos participantes deve ser um desafio hercúleo o entendimento, na medida em que não estão pisando o chão do mercado e olhando nos olhos dos clientes. Vê-se uma enorme distância a percorrer, e de nada adianta dar passos largos. Gerentes de Vendas dão topadas desnecessárias porque não saem do seu particular “aquário”. Impressionante como existem pessoas que ainda não aprenderam a fazer o “dever de casa”, precisam de alguém para segurar a sua mão para que a escrita saia dentro da pauta, mas isso não garante que os garranchos não aconteçam.

O processo de reciclagem (formação complementar dada ao funcionário para que se capacite aos novos desafios, aos progressos, sobretudo industriais), a meu sentir, também decorre da prática continuada das atividades dentro da própria empresa, visando o seu aperfeiçoamento e correção de desvios, consoante normativas aplicadas. Os procedimentos não são engessáveis, de sorte que são suscetíveis a adaptações e a mudanças, ainda que radicais. No mundo corporativo essas variáveis são consideradas no contexto global. A ISO 9001 é a melhor Estrutura de Qualidade até então estabelecida, definindo padrões para os sistemas de gestão da qualidade e para sistemas de gestão como um todo. Com efeito, o sucesso é plenamente alcançável através da “melhoria na satisfação do mercado” (envolvendo fornecedores, clientes e consumidores), “da motivação constante dos colaboradores internos e externos” e da “melhoria contínua dos processos”. O monitoramento de desempenhos em qualquer área da organização é uma conquista extremamente positiva com a implantação de sistemas de gestão – o gerenciamento de riscos do negócio, a administração dos custos e a conquista de Share of Market são resultantes diretos.

Não sou absolutamente contra as pretensões dos Consultores de Empresas, muito pelo contrário, acho que eles são um “mal necessário”. Longe de mim tal coisa. O que eu quero é chamar a atenção para o “conteúdo programático” dos seminários recorrentes. A listagem de conhecimentos, à qual os participantes (assistentes) serão submetidos, preocupa-me. Perdão. Seminários, na esmagadora maioria, são eventos empresariais. Que tipo de Consultor a sua empresa está contratando? Eu acho que já li ou ouvi esta pergunta em algum lugar. Mas isso não importa agora. Nesse magnífico mercado empresarial o que está se tornando cada vez mais difícil é encontrar “Donos de ideias”, enquanto comentaristas existem aos borbotões colocando em risco a desvalorização dos conceitos atribuídos. Cantarolar vantagens e dizer o que é o certo são ações que têm um forte apelo indutivo, incitante. Na perspectiva da esperada transformação ideológica, posso dizer que o tempo é caro demais para ser desperdiçado.

Sob os nossos narizes passeiam diuturnamente excelentes oportunidades e as deixamos escapar em razão dos egocentrismos, das vaidades, em função da miopia funcional declarada. Daí, procuramos conselhos de experts (estranhos no ninho), que irão asseverar que a roda é redonda e por isso ela roda. Teoria comprovadamente absorvida pelo nosso “mundo perceptivo”, porque estamos no centro dele, sempre. Talvez por isso nós deixamos de observar coisas simples que acontecem com frequência na periferia, não damos importância a ideias e dicas domésticas, sobretudo patrocinadas por colaboradores de baixo escalão na hierarquia, mas que poderiam, verdadeiramente, mudar cenários preocupantes. Preferimos ficar ouvindo faz assim, faz assado, e o “como” nunca revelado por quem detém a varinha de condão. Regras de conduta não se impõem, são seguidas quando traduzem bons exemplos.

Imaginamos que todos jogarão “limpo” o tempo todo, e não podemos pensar que grupos jogarão “sujo” todo o tempo. A ameaça pode vir de qualquer lado – ela pode ser externa. Empresas que investem no seu quadro funcional evitam que os colaboradores se acomodem. Fazer funcionar a pirâmide organizacional, da base ao topo, é responsabilidade de todos. Em tempos de tempestade o bom comandante do barco se revela ajustando as velas; o mau dirigente simplesmente pula do barco até em períodos de bonança. Nem sempre o Consultor de Empresas possui o mapa de navegação que aponte os astros certos. Falar com propriedade o que as pessoas querem ouvir é uma qualidade, ainda que ninguém consiga esgotar o assunto – esmiuçá-lo tiraria da pessoa a oportunidade de pensar, de buscar outros caminhos do entendimento. Os Consultores de Empresas são mestres na aplicabilidade do Marketing pessoal, são pastores por excelência – quando outro assumir o palco de apresentação teremos a sensação de que alguém, em algum lugar, num tempo qualquer, já falou tudo aquilo, e nem sequer o seu nome é lembrado. Bom seminário a todos.

Frase do dia:

“É sempre bom comparar o antes com o depois”.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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