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Polícia e Segurança Pública

Marco Archer

1Um ponto final colocado nessa história. Uma história construída por ele próprio, sem que os atores coadjuvantes pudessem fazer alguma coisa para mudá-la. Um caso de polícia e de segurança pública, não um caso de política ou de direitos humanos. Trata-se de um episódio isolado. Um filme macabro com desfecho anunciado que daqui a pouco estará fora de cartaz. Sentimentalismos baratos externados por quem tenta esfumaçar os fatos, desprezar as causas e deturpar as consequências diretas – a consternação fica próxima da hipocrisia, mas não o bastante para inibir as pessoas de comentar segundo sua ótica particular. Independente do motivo, a aguardada “execução oficial” de Marco Archer foi mais uma no meio de tantas outras “execuções oficiosas” que acontecem nas nossas cidades sob o olhar omisso da sociedade politicamente correta que simplesmente acena “não tenho nada com isso; isso não é problema meu”. O sangue corre do nosso lado e, invariavelmente, a maioria das pessoas pula por cima para não manchar de vermelho a sola dos sapatos comprados em liquidação. Tristes aqueles que acham que Deus ouvirá as suas preces em nome do executado; tristes aqueles que não encontram as respostas certas para as suas dúvidas. Na guerra contra as drogas – e a favor delas também – sempre haverá vítimas fatais em todos os lados. A “fantasia do ganho fácil” dando lugar à dura realidade da morte imposta pelo tráfico, de modo que desafiar a sorte por muito tempo instiga a desgraça. As Leis da Indonésia não permitem a divulgação das imagens das execuções, porém, imaginamos como o pelotão de fuzilamento cumpriu o seu papel; desenhamos a cara do militar que disparou a munição real no peito de Marco Archer. Sempre achamos que no mundo do crime as balas são de festim, até que um ente querido caia morto num fogo cruzado.

O brasileiro (carioca) Marco Archer Cardoso Moreira, 53 anos, condenado à morte por tráfico de drogas, foi fuzilado na Indonésia no sábado retrasado, dia 17 (15h31min, horário de Brasília), portanto, nove dias faz da sua execução. A missa de 7º dia aconteceu no sábado passado, dia 24 – ou era para ter acontecido. O corpo de Marco Archer foi cremado e as cinzas serão levadas para o Rio de Janeiro por sua tia, a advogada Maria de Lurdes Archer Pinto, e tudo indica que ainda não chegaram. Só espero que o governo do Rio não conceda honras militares aos restos mortais de Marco Archer por dois motivos: primeiro, não é ano eleitoral e, segundo, os parentes das vítimas inocentes do tráfico não iriam gostar da homenagem. O assunto está perdendo força na mídia, e assim será até ser esquecido. A execução do brasileiro teve grande repercussão na imprensa na semana passada aqui no Brasil e encarada como normal no restante do mundo, que está preocupado com outras coisas, como as eleições na Grécia ontem, domingo, 25, que acabaram elegendo o líder do Syriza, partido de extrema-esquerda de Alexis Tsipras, que certamente contestará o modelo austero imposto pela União Europeia. A ONU chegou a criticar a pena de morte para punir os traficantes de drogas por considerá-la desproporcional; talvez os seus membros mudem de ideia depois de um breve “estágio operacional” nos morros e nos necrotérios do Rio de Janeiro.

A presidente Dilma Rousseff chegou a formalizar um pedido de clemência (instrumento jurídico adequado ao caso) às autoridades da Indonésia, sendo por elas negado. Ainda que o gesto do governo brasileiro denotasse solidariedade, por direito, não lhe dava autoridade para interferir no Código Penal da Indonésia e, por extensão, nos assuntos internos daquele Estado. Por outro lado, de nada adianta agora a presidente Dilma Rousseff ficar consternada pela morte anunciada de Marco Archer, porque se houvesse punição séria no Brasil para traficantes de drogas, certamente ele não teria sido executado na Indonésia e o surfista Rodrigo Gularte, preso no aeroporto de Jacarta em 2004, não estaria no corredor da morte aguardando a hora final. O Brasil trata os seus crimes com destacada parcimônia e condescendência. Dilma ainda cometeu uma grande besteira ao ter chamado o embaixador brasileiro na Indonésia (Jacarta), Paulo Alberto da Silveira Soares, para consultas. Se é uma forma de “represália” eu acho que a presidente Dilma Rousseff deu com os burros n’água. O presidente indonésio, Joko Widodo, defecou e andou para o “recado diplomático” de Dilma, tanto que não aceitou o pedido de clemência a favor do surfista Rodrigo Gularte.

Na verdade, as execuções dos brasileiros não afetarão as relações entre os dois países; os “relacionamentos diplomáticos” devem ficar comprometidos por outros motivos oficiais. O Ministério das Relações Exteriores distribuiu um comunicado a todas as representações diplomáticas brasileiras dando conta que os repasses financeiros serão reduzidos pela metade a partir do mês de fevereiro próximo. A crise econômica provocada pelo próprio governo petista (corte de despesas correntes / aumento da inflação e de impostos) está fazendo com que os embaixadores paguem despesas, como contas de luz e de Internet das suas embaixadas, com recursos pessoais. A diplomacia brasileira está sendo fuzilada pelo governo incompetente, corrupto e ditatorial. Quem ontem assistiu ao Concurso de Miss Universo 2014, deve ter visto a linda cara da Miss Indonésia, Elvira Devinamira, e provavelmente pensou “nem por ela vale a pena traficar drogas para a Indonésia”. A tradição do luto de 7 dias é encontrada na Bíblia Sagrada. O número 7 na Bíblia representa a perfeição, que é o mesmo que Deus. Só que Deus criou o mundo em 7 dias e depois descansou. A missa de 7º dia veio depois do descanso, representado pela morte. O luto de Jacó durou 7 dias (Gn 50,10); Saul foi enterrado e fizeram um jejum de 7 dias (1Sm 31,13); o povo chorou a morte de Judite durante 7 dias (Jt 16,24); o luto por um morto dura 7 dias (Eclo 22,11). O fuzilamento de Marco Archer Cardoso Moreira aconteceu no período de descanso de Deus, talvez cansado pela árdua tarefa de mostrar aos seus filhos que o final da vida cada qual constrói ao seu modo.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

2 comentários sobre “Marco Archer

  1. Alguns anos atrás, lembro-me de parentes qdo vinha a óbito quardar o luto durante um mes, os primeiros 7 dias não saiam de casa para nada e tampouco ligava-se o rádio. Hoje depois de enterrado convidam algumas pessoas para tomar umas, comemora-se o que? Mortes no Brasil é assim,comum, virou peça de liquidação. Mas se vc é preso no estrangeiro ou morre vira personalidade internacional. Bendito Brasil. Amém

    Publicado por nair | 27/01/2015, 21:23

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