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Política

A mesma fantasia

1Voltei, depois de trinta dias de merecido descanso, longe da mídia política e das mazelas do cotidiano. Senti saudades do meu surrado notebook. O ano de 2014 se esvaiu. Pessoas de diferentes matizes tomaram o rumo da praia, com os olhos fixos no infinito e os pés banhados pelas ondas; talvez com um nó apertado na garganta, elas prometeram as mesmas coisas, renovaram os desejos materiais, esqueceram de agradecer pelas poucas realizações conseguidas no ano que passou e olharam para os estranhos, que também passavam, sentindo imensa vontade de abraçá-los, como verdadeiros irmãos em Cristo. Já é dia 1º de 2015 e crianças continuam sendo beijadas, enquanto, no calçadão, o pedinte é desprezado ao implorar a sobra do pernil e um pouco do frisante nacional que restou na garrafa – o cachorro vira-lata, que não nos abandona, observa atento na esperança que alguém jogue restos de comida no chão e corre para pegar primeiro, sem abanar o rabo, demonstrando que a fome vem antes da gratidão. Você pode pensar a mesma coisa uma centena de vezes, mas buscamos sempre outras formas de fazê-lo, sem desviar um milímetro da nossa maneira de agir. Na contabilidade das perdas e ganhos, certezas e enganos.

Balanço fechado do que ficou pra trás. Esperança na mudança; só se for das estações do ano! Nos jardins suspensos de Brasília, o convidado ex-presidente metalúrgico fumou o charuto cubano que ganhou de Fidel Castro, degustou suavemente o Romanée-Conti, forjou as suas ambições políticas para 2018, e tentou esquecer os quatro primeiros anos de governo Dilma, totalmente perdidos – retrato falado da “mesmice agravada”. Os bancos comemoraram mais um ano de lucros estratosféricos. Dez anos faz que a inoperância do programa “Fome Zero” influenciou negativamente o resultado da campanha “Natal sem fome” que, em 2004, não fez jus ao nome do seu criador, de modo que em algum lugar do cosmos Betinho deve estar se punindo até hoje. Ao contrário, os dependentes do programa Bolsa Família agradecem de joelhos a oportunidade de comprar um frango de marca Pif Paf e um quilo de farinha torrada para a farofa. Já no dia 02, curtindo ainda um pouco da ressaca, admitimos que não vale a pena ficar tagarelando como uma lavadeira que deixou a trouxa cair. Não dá para mudar o rumo dos acontecimentos, da mesma forma pedir perdão a Deus depois do pecado cometido. Pessoas perdidas no tempo tentando desesperadamente encontrar novos horizontes.

O ano de 2015 começou muito bem, dentro das expectativas. As críticas feitas pela senadora Marta Suplicy (PT-SP) numa entrevista publicada no domingo, 11, pelo jornal “O Estado de São Paulo”, foi a primeira cusparada (de uma série que vem por aí) que a ilustre senadora deu no prato que comeu. Segundo Marta Suplicy, “Ou o PT muda ou acaba”. O Partido dos Trabalhadores estaria num processo de frangalhos ou o atual cenário de trevas é passageiro? A ex-ministra de Lula e Dilma, e ex-prefeita de São Paulo, falou em desmandos no governo federal e no PT, motivos pelos quais já pensa em deixar o partido. Para o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), “A casa está caindo literalmente. Nessas horas, aqueles que não tinham coragem de fazer oposição se tornam corajosos e os que só tinham o sentimento do adesismo, da cumplicidade e do fisiologismo se sentem encorajados em abrir dissidência”. No perigo, os ratos migram para outras tocas. Rios de sangue correrão dos poços da Petrobras. Enquanto isso, os petistas e aliados levantarão as suas placas de protesto “Je Suis Cuba”. Aterrissamos na rotina da vida, imaginando como será a fantasia do Carnaval – provavelmente usaremos a mesma fantasia de palhaço.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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