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Naturismo

Paradise Lost

1O encontro tão esperado aconteceu. Estou no presente. Permito-me ‘conjugar-me’ no tempo atual. A natureza me aguardava ansiosa, majestosa, singela. Fui até ela, pus-me a contemplá-la, sem tocá-la, apenas dei-me o direito de senti-la – afinal, sou peça integrante! Parte da água que corre da montanha de pedra cai no lago fazendo um barulho relaxante. Vejo-me sentado à sua beira observando o movimento da água; tudo que nela é refletido perde o contorno original. Estou num lugar desconhecido, jamais tocado. Os raios de sol que atravessam o verde anunciam manhã quente de verão. O relógio deixou de marcar as horas, mas sei que o dia é sábado, 11 de fevereiro de um ano qualquer. A contagem do tempo cronológico entra na nossa cabeça como obrigação a cumprir – herança do aprendizado. Tento afastar os pensamentos desagradáveis, por isso, eu procuro me concentrar no universo em que me encontro. Os desencontros perderam o sentido. A vida revelou-se infinita. As borboletas vieram mostrar as suas cores exuberantes; os diversos pássaros cortavam os ares em manobras surpreendentes; as flores soltavam um perfume inebriante, ímpar, nunca dantes exalado – atrás de mim uma parasita lilás temperava o aroma; pude percebê-la e tudo estava maravilhosamente conectado.

Ações de aproximar, unir, combinar – não no sentido de enunciar a conjugação de três verbos, mecanicamente, e sim, demonstrar a necessidade de me aproximar, de me unir à natureza numa combinação espontânea –, de modo que naquele momento nada mais importava ou fazia sentido para mim. Então comecei a compreender quem verdadeiramente eu era; naquele paraíso perdido, naquela atmosfera, realmente, eu me encontrei. Morder e assoprar ao mesmo tempo são atitudes que anulam reações posteriores. Eu jamais farei alguma coisa que me desagrade só para agradar quem quer que seja, tampouco baterei em alguém para acariciar depois. O que restou dos homens? Não me preocuparei com os homens, senão admirar os outros seres naturais que habitam a natureza, portanto, priorizei observá-la, terra, água, ar, e toda a sua vida, procurando estabelecer paralelos de comportamentos. Observei um fenômeno bem de perto: uma formiga queria morder, picar outra formiga, talvez motivada por uma vontade de demonstrar domínio, uma necessidade incontida de poder absoluto. Ela, a formiga, aproveitou a oportunidade mais propícia e não a desperdiçou. Cometido o ato de agressão, a formiga ferida caminhou sozinha por caminhos fora da trilha; tudo pra ela era novidade, inclusive a dor sentida, uma experiência para se compreender na solidão. O poeta do amanhã; o trovador das horas registrou o ocorrido – olhei pro lado e havia sumido, nenhuma voz permaneceu no eco, porém, o grito por socorro ficou confinado no interior da alma. Arrepio dos sentidos, pura magia!

Plenamente vingada, a formiga agressora demonstrou dever cumprido perante uma pequena plateia de outras formigas que observavam atentamente, porque aquela era a sua missão e não podia jamais fraquejar, sobretudo em público. Penso que os homens, frágeis mortais, são ainda mais minúsculos quando comparados aos micróbios. Chegam a inexistir. A suposta eternidade assume o lugar da efemeridade. Um pé de carambola nos presenteia com os seus frutos maduros e ninguém se deu conta disso, ninguém percebeu pelo menos que ela, a árvore, existia ali, bem pertinho de nós. Inexplicavelmente, prestando um pouco mais de atenção, pude perceber que os pássaros não apareceram na costumeira quantidade de outros dias, e isso contribuiu para um alvorecer tristonho, prenúncio de uma tarde também triste. O entardecer ficou empobrecido de contemplações, ficou menos colorido – nuvens cinzentas pairavam no ambiente, raios que brotavam dos olhos de determinadas pessoas sinalizavam pane de energia. Sem luz não há caminhada.

Agora a água que vinha da montanha de pedra caía no lago em forma de filete. Houve quem pensasse que ela acabaria na noite. Os homens não conseguem se desvencilhar das armadilhas sociais e rosnam, arrostam mazelas. Embora tentem, mas não conseguem ser temporariamente diferentes, ainda que em espaços sagrados como aqueles dedicados ao Naturismo. Vestem as “vestes virtuais” da impassividade. A incompreensão se fez presente na noite que caía. A intolerância mostrava a cara rude. Inseguranças, recalques, ciúme, um pouco de inveja não disfarçada, talvez. Os homens ficam trancafiados no seu mundinho pessoal sem horizontes perceptíveis. Os homens “se acham”, os animais “se encontram”. A violência está do nosso lado, bem pertinho de nós e se manifesta sorrateiramente. Fugimos. A imprevisibilidade dos homens um mistério. Os animais com o seu senso, com o seu aguçado tino, motivam a organização, operam uma rotina produtiva e construtiva. Vi uma formiga noturna carregando uma folha, que em fração de segundos a deixou cair no chão de barro. Atento, percebi que a formiga em momento algum ficou frustrada, malograda, simplesmente deu meia-volta, e com certa dificuldade, colocou de novo a folhinha nas costas e pôs-se a andar rumo ao seu destino. Para os humanos, tudo é um fardo pesado, uma obrigação “no fazer”, enquanto a capacidade das formigas está “no tentar”.

Penso: Tudo seria, portanto, um ilogismo? É proibido ser você mesmo diante das pessoas? Como “usar” os semelhantes como referência se me considero o centro do universo? Em que sou diferente? O corpo humano é tão frágil como a pétala de uma rosa, e tão efêmero quanto o sopro do vento. A mente insiste nas incoerências. A dignidade das formigas não é diferente da nossa. O que faz o indivíduo achar que é mais digno do que as formigas? Os homens se diferenciam pelo tamanho das folhas que carregam às costas. A atenção que se pede deveria ser do mesmo tamanho daquela ofertada. De idêntica forma, o Naturismo deveria ter a magnitude da natureza, mas não tem, quando praticado às avessas. Ainda assim vejo sincretismo no Naturismo. Eventos que se manifestam, a priori, dissociados da filosofia, inevitáveis são. Como trazer a opinião pública para o centro das discussões? Importantes temas relacionados ao Naturismo são comparados às folhas que as formigas não conseguem carregar. Muito embora, na prática, existam coisas que não se explicam, têm que ser sentidas, ainda identificamos lacunas a serem preenchidas. Pergunto então, de que adianta falar em essência se a maioria das pessoas não sabe do que se trata? O que faz com que uma pessoa seja aquilo que é na aparência e não outra coisa? O que constitui a natureza de um ser? O fato é que estamos indo ao encontro do “Paraíso Perdido” que está dentro de cada um de nós, contudo, poucos conseguirão chegar lá – aos que pensam em desistir, de nada adiantará dar-lhes lanterna e cajado.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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